PACIÊNCIA…

Falta paciência. Médicos estão sendo agredidos. Motoristas estão sendo hostilizados. Há relatos – quase diários – de professores sendo desrespeitados.

Tudo é para ontem. Não se pode mais perder tempo.

Falas objetivas. Gestos precisos. Fôrma pronta. Tudo previsto. Nada pode fugir à regra.

Espera-se que o idoso seja lúcido por toda a vida. Que nenhum famíliar se envolva em confusão. Ninguém que se haver com o adverso.

Espera-se que os filhos não apresentem nenhum desvio de comportamento. Que os irmãos sejam sempre atenciosos. Que o dinheiro nunca falte. Que o carro nunca quebre. Que a comida esteja sempre apetecível. Que as notícias sejam sempre boas. Que o trânsito esteja sempre tranquilo.

A impaciência é reveladora de que perdemos a noção da realidade – que é feita de contradições.

Até podemos criar um mundo à parte. Contudo – viveremos sós.

Há quem abandone o mundo. Há quem viva fechado em si. Há quem desista de trocar intimidades. Há quem deixe de viver os conflitos. Há que não tolere esperar pela reconciliação. Há quem viva de Rivotril. Há muitos mortos-vivos.

A paciência diz respeito ao que foge ao nosso controle. Precisamos ser pacientes porque o imprevisível está igual para todos.

Deve ser desesperador não ter o amor do outro quando não pudermos ser o que ele sempre esperou de nós. Deve ser desesperador viver em um mundo marcado pelo valor do que é apenas útil.

Paciência é saber aceitar com alegria – mesmo quando a situação não estiver de acordo com nossos anseios. Paciência é exercitar a agradabilidade  uma vez que ninguém é uma unânimidade. A paciência é um traço da generosidade e do amor. É um exercício constante de cuidado com o próximo – mesmo quando ele não coincidir com o que esperamos dele.

Ninguém pode prescindir da paciência a vida toda. Somos limitados e podemos sofrer perdas. Podemos ser desenganados. Podemos vir a depender da paciência de alguém – inclusive – para continuarmos vivos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista