NINGUÉM MORRE …

Nada é mais generoso que morrer. Quem parte deixa tudo. A morte é a maior das entregas.

Na verdade, ninguém morre. Ninguém parte sem deixar algo. Todos que vão – de alguma maneira – ficam também. A herança humana é o que conforta a perda.

A morte é apenas um corpo que vai. As atitudes ficam. As escolhas permanecem. As concessões também. Fora a dedicação e o amor que jamais serão esquecidos. Isso vale mais que  tudo.

O valor de uma pessoa não está na qualidade de sua formação intelectual e nem na quantidade de riqueza que acumulou. Não tem preço uma vida bem conduzida. Precisamos focar na bonita trajetória de amizade, simpatia e generosidade de quem partiu. Precisamos eternizar a dedicação e a sensibilidade daqueles que não estão mais entre nós para promover o bem e a união entre todos. Precisamos lembrar sempre da capacidade – de quem passou por aqui – de manter acesa a esperança em um mundo mais justo e mais solidário.

Não se trata de uma vida interrompida. Trata-se de uma vida construída de forma vitoriosa.

Ninguém que vai deixa um vazio. Todo mundo que parte deixa tudo de si para os que ficam.

Neste mundo individualista – em pouco tempo – não mais choraremos nossos mortos. Se não há o que ser lembrado, também não há motivo para a tristeza.

O melhor remédio para a dor da perda é o reconhecimento da importância dos que se foram para a vida dos seus e para a vida do mundo. É a única maneira de mantê-los de alguma maneira ainda vivos.

Vai o corpo e fica a alma. Louvemos a partir de agora a memória dos que se foram. Façamos homenagens e falemos deles para o mundo.

Deve ser um alento para quem morre saber que deixou um legado de atitudes, ideias, sentimentos e crenças para as gerações posteriores.

Aos mortos, cabem a nossa reverência. Que bom que temos o que lembrar, o que dizer e o que apontar daqueles que nos deixaram.

É em função dos que se foram que a vida pode seguir melhor. A vida é um ciclo e precisamos dar continuidade. Precisamos testemunhar a lembrança. Se assim não for, não há porque viver.

Podemos e devemos assegurar aos que ficam, que os que se foram, de alguma maneira continuarão para sempre conosco!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Você gosta de si?

Não há quem não tenha algum problema com sua imagem. Nos vemos menos como somos e mais como gostaríamos de ser. Há uma distorção entre nosso corpo real e nosso corpo ideal. Há uma distorção que quebra ou intensifica nossa pretenção de perfeição. O consumo estético promete resolver este dilema. Quem dera! Fora que o corpo muda. Para o bem e para o mau. Nascemos para morrer. A juventude tem data de validade. O corpo gera angústia. O corpo dói a alma. Carregamos nosso corpo a vida toda. Carregamos um peso. O corpo é mais uma angústia que temos que equacionar. Podemos deixar de lado esta parte mórbida do nosso corpo. Podemos focar em seus sentidos e percepções de prazer. Só não podemos nos desligar dele. Ele vai e volta. Até para ter prazer necessitamos do corpo. E é ele quem vai nos dizer do prazer que podemos. A última palavra é sempre do corpo. Há quem abandone o corpo: engorda, entorta e desleixa. Há quem se cuida. Há quem discíplina o corpo. Há quem faça o corpo sofrer para viver mais. Vamos tentando. Contudo, o tempo do corpo reina absoluto.

Autor: Evaristo Magalhães – Psicanalista