Você é FELIZ onde você TRABALHA?

Karl Marx foi quem melhor discutiu e criticou a divisão do trabalho na sociedade capitalista. Visando aumentar a produção e os lucros, os empresários dividiram a fábrica em setores. Cada setor passou a ser responsável por uma parte do produto. Isto dava uma certa organicidade ao mundo do trabalho através da interdependência entre os diferentes setores. Neste contexto, toda a produção tinha que seguir o mesmo ritmo, o que gerava cobranças e, por conseguinte, stress e doenças do trabalho de toda ordem. Todos os setores precisavam acompanhar o movimento frenético da produção. A ordem era mostrar serviço. A partir daí, o mundo trabalho ganhou um outro sentido. Recentemente uma colega me contou que fica passando, aleatoriamente, folhas de um arquivo, só para parecer que está fazendo algo útil. O mundo do trabalho ficou tenso. O colaborador – como se diz – é vigiado o tempo todo. Todos têm que imprimir um certo magnetismo ao cotidiano da empresa. Você tem que ser rápido e eficiente. Você tem que parecer feliz e satisfeito o tempo todo. Tudo é um grande teatro. Todos elétricos – mesmo quando se poderia agir calmamente. Gestores passam dias e semanas discutindo coisas inócuas, só para dar a impressão de que estão sendo produtivos. Em nome do cargo, do salário e da sobrevivência, os trabalhadores vivem uma falsa felicidade no ambiente profissional. Os profissionais agem de um modo formalmente exagerado.  Gestos e falas seguem uma estereotipia que beira o ridículo. Você tem que manter uma rigidez física e mostrar-se hiper-seguro em suas posições. Nada de ideias improdutivas e piadinhas fora de contexto. Na falta do que criar e na exigência de produção contínua, certos gestores, para mostrar serviço, inventam regras estapafúrdias que deixam os subalternos esbabacados. O cotidiano das empresas virou um grande circo de técnicos, que para manter o cargo, passam quase o tempo todo, disciplinando ou moralizando a empresa com picuinhas cômicas que, em poucos dias, caem em desuso. Não há discussão. A partir de hoje quem agir desse modo será advertido. É expressamente proibido fazer tal coisa. Se você não fizer isto até tal data, será demitido. Isto tem que ser feito assim, você concordando ou não. Há um corte grotesco entre o mundo do trabalho e o mundo do lazer.  Os profissionais contam as horas para chegar o final de semana e os meses para chegar as férias. São quarenta horas semanais e cento e sessenta horas por mês de muita tensão e frustração. O sistema impôs uma velocidade e um estilo sobremaneira doentio ao mundo do trabalho. Esse modelo globalizou. Ele faz parte da sobrevivência de qualquer empresa no mercado. Criamos um fantasma. Mudar esta estrutura é quase impossível. Como fazer para transformar a atividade profissional em algo mais prazeroso? Este é o grande desafio de gestores e teóricos das organizações numa sociedade que tende, cada vez mais, para a radicalização no uso de tecnologias de controle dos setores produtivos nas empresas.

Autor: Evaristo Magalhães – Filósofo e Psicanalista

(31) 96171882

Sobre o capitalismo…

O capitalismo sedimentou o princípio de que é possível enriquecer pelo FAZER. Fazer, quer dizer: lucro. O capitalismo é um sistema do fazer e não do SABER.

Saber – só se for para fazer.

Uma pessoa com doutorado em filosofia  pode receber muito menos que outra – semi-alfabetizada – dona de uma empresa de adubo de minhocas.

Neste sistema, ganha-se fazendo. Para isto, é preciso criar algo útil e vendável. Um curso superior só tem valor se fornecer uma formação técnica e altamente lucrativa.

Filosofia é inútil. Literatura e arte também. E a Ética?  Qual o sentido filosófico da ética? A ética trata dos meios e dos fins. A ética prevê os riscos.

O capitalismo não tem ética. Ele lida com meios e fins no terreno do fazer. Para ele, em tudo há algum risco. É necessário fazer para saber. Em caso de danos, o próprio sistema se encarregará de encontrar a solução. As mortes são efeito colateral das benesses da tecnologia.

A natureza é um meio. O homem também. O lucro é o fim. Quanta tecnologia não foi produzida do minério extraído da lama de Mariana?

O sistema entende que os benefícios justificam as tragédias: a cartada valeria o jogo. Quantas vidas ainda não serão perdidas em nome do lucro?

O problema é que nem mesmo os capitalistas estão isentos de terminarem como um efeito colateral do sistema!

Evaristo Magalhães – Filósofo e Psicanalista