SOBRE PESSOAS ARROGANTES …

Planejamos uma viagem, mas o lugar nunca é como esperávamos. Preparamos uma comida, mas o sabor nunca preenche todo o nosso paladar. Nunca estamos como gostaríamos, mesmo quando é a melhor luz, a melhor lente e o melhor fotógrafo.

Por que nunca é?

Há o que queremos deixar para trás. Há o que não queremos experimentar. Há o que não queremos enxergar.

Isso que não queremos é como uma carta que mesmo quando a endereçamos para muito longe, ela sempre retorna para nosso próprio endereço.

Podemos fazer muita coisa disso. Podemos viajar, conhecer os melhores restaurantes e tirar as mais lindas fotografias. No entanto, não podemos nos livrar disso.

A maioria não quer saber. Joga para debaixo do tapete, joga para escanteio e quer fazer escorrer como esgoto para o mar. Ou seja, trata isso como se fosse um dejeto.

No entanto, isso resiste e retorna. Está sempre presente e manifesta de alguma maneira. Às vezes inteiro ou em pedaços. Às vezes na gente mesmo ou às vezes vezes no outro.

Isso tem seu próprio tempo, sua própria cor e seu próprio cheiro. Não adianta cobrir com flores ou maquiar.

Cada um terá que se haver com esse seu isso – querendo ou não.

Tenho muita pena de quem se arvora em achar que poderá passar sem isso!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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O BRASIL ESTÁ NA UTI DA IMORALIDADE …

Já nos demos conta de que existe uma parcela da população brasileira que vota em políticos que incentivam a misoginia, o racismo e a homofobia.

Agora, estamos constatando essa mesma parcela apoiando políticos assassinos.

Caiu a máscara daqueles que dizem que é melhor matar que deixar viva uma feminista e que é melhor voltar à escravidão que deixar um negro em igualdade de um branco.

O Brasil tomou o ódio como regra. É assustador! Parece que quanto mais o político mata, mais prestígio ele conquista.

Isso não é política, isso é guerra.

O ódio não pode ser a coisa mais importante de uma nação. Ninguém pode ser admirado porque dissemina a raiva e a perseguição.

Hoje, no Brasil, o poder descobriu que dá voto invadir uma favela atirando à ermo.

O problema é que quanto mais esses políticos são admirados, mais se sentem à vontade para continuar resolvendo pelo extermínio.

Não é só o gestor que é o monstro. O governador é apenas o reflexo de seus eleitores.

Não ganha mais fama, no Brasil, quem defende a educação, a cultura, o emprego e a distribuição de renda como formas de construção de uma sociedade melhor para todos.

Muito pelo contrário, descobrimos um Brasil doente. Descobrimos que pessoas próximas a nós, que antes considerávamos amáveis, no fundo, odeiam os negros, os pobres, as mulheres e os lgbts. São pessoas que odeiam, inclusive, quem defende essas minorias. Creio que não se importariam, nem um pouco, se fôssemos nós que estivéssemos sendo assassinados.

É óbvio que ficarão revoltadas se jogarmos isso em suas caras. No entanto, sabemos que é assim que elas são porque se calam diante dessas atrocidades. É como se projetassem o que pensam nos monstros que elas mesmas elegeram.

Quero ver como reagirão quando esses mesmos monstros resolverem bater em suas portas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

DO QUE NÃO PODEMOS SER CASTRADOS?

Sabemos que as palavras não são as coisas. Se a palavra “amor” não é o sentimento “amor”, isto quer dizer que somos castrados da verdade sobre o amor? Sim. No entanto, isto não significa que podemos sair por aí chamando de amor qualquer coisa que fizermos.

Há algo da palavra “amor” no sentimento “amor”. O que? A não-violência.

O amor pode ser qualquer coisa – com a condição de que seja amor.

Podemos – sim – relativizar tudo. Ninguém é igual. Cada um constrói para si um saber que melhor abarque seu gozo.

No entanto, não é saber desrespeitar e agredir o outro.

O saber supõe uma lógica – e não é lógico ser desonesto. A violência não faz sentido porque à medida em que apronto, estou criando uma cultura de violência que, certamente, retornará contra mim.

Desse modo, não importa como eu me visto, qual meu gênero, a cor da minha pele, com quem eu durmo e o que penso. O que importa é que quem sou não impeça a ninguém de ser como quiser. Essa é minha castração: ser livre à medida em que minha liberdade respeite a liberdade de todos.

Ou seja, não pode ser liberdade querer suprimir a liberdade alheia. A liberdade é a verdade – exceção apenas para quando eu estiver colocando em risco o meu direito de ser livre.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ TEM TRAUMAS?

Somos traumatizados porque falamos. À medida que criamos a palavra “bonito”, criamos um trauma com a palavra “feio”. Do mesmo modo quando inventamos a palavra “jovem”, inventamos o pânico da velhice.

Jamais veremos um animal qualquer triste diante do espelho porque não gosta do nariz ou da bunda que tem.

Inventamos nossos traumas, angústias e depressões. Se não pensássemos não saberíamos.

A questão não é nem pensar. A questão é pensar por contradição e a pretensão de querer eliminar os opostos. A questão é o desejo de querer ser só bonito ou só jovem a vida toda.

Não sabemos o que fazer com o outro lado a não ser lutar contra ou fugir dele. Não sabemos trazer junto o indissociável.

A vida até nos dá um certo tempo para entendermos quando demora a nos dar sinais de que estamos perdendo o que julgamos como belo e jovem em nós.

No entanto, seguimos negando a verdade. Seguimos na ilusão de que seremos salvos pela medicina ou por algum milagre divino.

Enquanto nada disso acontece, assistimos à toda forma de compulsão, dor e sofrimento pela arrogância de querer vencer o invencível.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TENHO PREGUIÇA DESSA HISTÓRIA DE EMPATIA …

A empatia só faz sentido para questões de natureza material.

É evidente que para nos sensibilizarmos com o problema da fome é fundamental que nos coloquemos no lugar das pessoas famintas.

É óbvio que para ajudarmos uma pessoa em estado terminal é de fundamental importância que nos coloquemos no lugar dela.

No entanto, nunca se coloque no lugar de uma pessoa que não sabe de si.

Ao nos colocarmos no lugar da existência de alguém, estamos exercendo a nossa arrogância em achar que sabemos tudo sobre o sentido da vida.

Existir é algo cem por cento singular.

É por isso que os psicanalistas nunca se colocam no lugar de seus pacientes. Fazer psicanálise é experimentar a solidão na sua forma mais radical.

Aquele que não sabe si deve ter tido durante toda a sua vida alguém que ocupou o lugar desse saber que deveria ser seu.

Para sermos nós mesmos, precisamos fazer cair esses tantos Outros que sempre nos sufocaram da possibilidade saber quem somos por nós mesmos.

Nesse sentido, a religião, a filosofia e a ciência nunca fizeram bem para a humanidade.

Não é empatia estar no lugar do outro para dizer como ele deve ser. Muito pelo contrário, é pretenção, sufocamento e dominação.

Se não tenho o que comer, preciso que alguém me ajude. Se estou adoentado, preciso de alguém para cuidar de mim.

No entanto, se não sei quem sou, ninguém pode fazer qualquer coisa por mim – mesmo porque não existe ninguém que saiba tudo de si.

Diante da individualidade do outro, quanto mais frieza, melhor!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO É AMOR AMAR …

O certo é compreender o outro e não amar o outro.

Quem ama cuida. E se cuidamos é porque o outro não é completo. Daí, queremos ser a completude do outro. Isso não é amor e, sim, dominação.

Não amamos o outro quando queremos ser o que falta nele. Amamos o outro quando o compreendemos como um ser faltoso e o respeitamos no modo como ele decidir o que fazer com a sua falta.

Amar não é ser pelo outro. Amar é deixá-lo ser como quiser.

Só amamos quando permitimos cair a nossa pretenção de ser tudo para o outro amando-o naquilo que ele não é.

Como amar uma pessoa sem poder fazer nada por ela? Como amar alguém sem poder dar pitaco em sua vida?

Não deveríamos amar o outro. Deveríamos amá-lo no modo como ele se ama.

Não posso amar querendo mudar quem amo. Isso é arrogância e possessão. É seguro que o outro não suportará, por muito tempo, esse sufocamento de não poder resolver por si o que é seu.

Amar é acompanhar sem interferir. Amar é tomar distância para admirar quem amamos em seu modo próprio de ser.

Amar é compreender. Não é amar perder a razão. Não é amar invadir a privacidade. Não é amar decidir pelo outro.

Amar é aceitar o outro em sua falta. Só assim o estaremos respeitando em seu direito de ser o que quiser – inclusive com o nosso amor.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM SUPORTA UMA PESSOA QUE FICA REPETINDO A MESMA COISA O TEMPO TODO …

Estamos sempre em dívida para com o outro.

A dívida não é do outro que não consegue nos dar o que esperamos. A dívida é nossa que não conseguimos transmitir o que gostaríamos.

Não é culpa do outro quando não somos amados.

Há uma falta em mim que quanto mais tento expressá-la, mais distante fico dela.

Não sabemos quem somos. Só sabemos dizer quem somos – e as palavras não são as coisas.

Creio que estou me compreendendo e, por conseguinte, que estou sendo compreendido pelo outro. O amor é só tempo de duração dessa ilusão.

Os casais brigam quando não dão conta de perceber este caráter fantasioso do amor.

Amar seria, então, a capacidade de se expressar bem? Não. De qualquer maneira que dissermos de nós, não estaremos sendo verdadeiros.

Somos abandonados, possivelmente, porque o outro enjoou do nosso vocabulário. Ele desistiu de suprimir a nossa dívida e optou por se endividar com outro.

É por isso que ninguém suporta uma pessoa que fica repetindo a mesma coisa o tempo todo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista