POR QUE AMORES ABUSIVOS?

Quem não gostaria de saber de si? Quem não gostaria de descobrir seus verdadeiros sentimentos? Quem não gostaria de saber de onde veio e para onde vai? Quem não gostaria de entender os motivos de envelhecer e de morrer? Quem não gostaria de ter uma explicação concreta sobre a vida? Ninguém tem.

Não há objetividade no existir. É por isso que deprimimos e angustiamos.

Muitos não dão conta e tentam buscar fora de si algo que compense essa insegurança dentro de si. Tentam amenizar no outro a angústia de não saberem de si, de seus sentimentos e de suas existências.

Muitos não conseguem viver nesse vácuo. Para não enlouquecerem, tentam preenchê-lo com compulsão por compras, drogas ou pessoas.

De todas essas compulsões, a terceira é a mais comum: o amor possessivo. Essas pessoas, na impossibilidade de lidarem com seus vazios, usam seus amores como amortecedores de suas angústias.

Por se tratar de algo insuportável, que não tem cura e que se encontra presente vinte e quatro horas por dia, essas pessoas necessitam que seus amores estejam a seu dispor o tempo todo como uma espécie de tampão de suas agruras existenciais.

É como se necessitassem – dentro de si – de algo concreto para existir. Como esse concreto não existe, buscam – fora de si – algo que faça essa função. Daí, objetificam seus amores impondo uma relação de dependência extrema que – certamente – não acabará bem.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Instagram:@evaristo_psicanalista

Twitter:@evaristopsi

POR QUE O ESTUPRO, A PEDOFILIA E A PSICOPATIA?

A velhice não te consulta se você quer envelhecer e a morte não te consulta se você quer morrer. Somos objetos de um poder que desconhecemos.

Penso que é essa condição de objeto que o estuprador, o pedófilo e o psicopata não suportam. Querem fazer do outro o mesmo objeto que são dessas inevitáveis e desesperadoras certezas. É como se quisessem provar para si que podem tanto sobre o outro quanto a velhice e a morte podem sobre si.

No entanto, a maioria das pessoas não são estupradoras, pedófilas e psicopatas. Por que? Porque temem a lei, o inferno e o julgamento alheio.

E o que a grande maioria faz com essas certezas inevitáveis e desesperadoras? Fazem consigo o que não dão conta de fazer com o outro. Destratam a si mesmas – com suas depressões, angústias, ansiedades e doenças psicossomáticas – do mesmo modo como estão sendo destratadas pela velhice e pela morte.

A existência é perversa e cruel. Teremos que nos submeter ao que menos gostaríamos. A questão é que fazer do outro o que está sendo feito de nós não nos livrará desse nosso inevitável.

É fato que vamos envelhecer e morrer. Ninguém pode se livrar disso. Resolve descontar em si? Resolve descontar no outro? Não. No entanto, ninguém envelhece da noite para o dia. Há um intervalo que podemos usufruir. É só o que podemos!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

COMO SABER DE SI?

A saída não é contar de um até mil. A saída é o caminho inverso: de mil para um.

Imagina quantas palavras já não colocamos sobre quem somos?! Qual delas melhor diz de nós?

Não é minha altura, meu gênero ou minha idade que diz de mim. O que meu nome tem a ver comigo? Nada.

Não é me entupindo de palavras que saberei de mim. Quanto mais eu me sintetizar, mais chegarei perto de quem sou.

Pessoas muito blábláblá, no fundo, usam dessa verborragia para fugirem de si.

Eu seria – de fato – verdadeiro se eu me reduzisse a uma única palavra – e sem duplo sentido: a uma palavra sem nenhuma outra antes ou depois dela.

Por que só sabemos de nós falando quem somos? Por que nunca escrevemos quem somos? Melhor, por que nunca registramos quem somos?

É porque vivemos nos confundindo em um turbilhão de palavras, que ficamos angustiados e ansiosos.

Ninguém suporta viver perdido. Ninguém suporta ser muitos. Ninguém suporta viver se contrariando o tempo todo.

É seguro que o caminho para saber de si não é sair construindo pensamentos sobre si.

No caso de se conhecer, quanto mais débil, melhor. Nesse caso, ao menos saberemos quem somos não do mental para o carnal, mas do carnal para a vida!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Instagram:@evaristo_psicanalista

Twitter:@evaristopsi

COMO NÃO SOFRER DE SOLIDÃO?

É uma delicia a presença do outro em nossas vidas: o toque, o cheiro, a conversa, o beijo, o riso etc. Tudo isso é muito gostoso!

No entanto, ninguém é nosso. Só podemos estar com o outro com a condição de que ele queira – e ele pode não querer. Portanto, não deveríamos depender de ninguém para a nossa alegria de viver.

E quando falta todo mundo? O que fazer? Teríamos que dar conta de transferir todo esse prazer antes compartilhado, agora só para um.

Como viver meu prazer só comigo? Infelizmente, só sabemos da nossa felicidade na dependência da presença de alguém. Não sabemos o que fazer conosco quando todos se despedem.  A questão é que ninguém está o tempo todo ao dispor de nossos afetos. É por isso que sofremos, angustiamos ou entramos em pânico quando quem nos faz bem resolve ir embora.

No entanto, só posso ser completo comigo – porque nunca me falto de mim. Jamais serei completo com alguém – porque ninguém é de ninguém.

Todo prazer advindo de quem quer que seja será sempre capenga.

Comece – agora – a exercitar seus afetos para consigo mesmo. Faça de você mesmo o seu maior prazer!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Instagram:@evaristo_psicanalista

Twitter:@evaristopsi

QUAL A CURA PARA A ANGÚSTIA?

A angústia é o nada. O que é o nada? É quando começamos a perguntar pela origem de tudo: não chegaremos a lugar nenhum. Portanto, terminaremos angustiados.

A angústia é, então, o limite do pensamento.

Se pensar termina em angústia, qual a saída para a angústia? Agir, mover, viver e usufruir.

De que será que vive uma pessoa débil? Ela só pode viver de sentir.

O que faz viver uma criança que ainda não adentrou na linguagem? As sensações.

A angústia deveria nos servir para nos trazer de volta para um mundo que esquecemos, que deixamos para trás e que não valorizamos.

Insistimos em pensar sobre a angústia e mais angustiados ficamos.

A saída para as nossas angústias está tão próxima de nós, mas insistimos em buscá-la onde só afundaremos ainda mais nela.

Deveríamos voltar nosso pensar para o que temos de mais vivo em nós. Nossa atenção não deveria estar voltada para o pensamento do pensamento, para a palavra da palavra ou para o Deus de Deus. Não chegaremos a nada por essas trilhas.

Deveríamos voltar nossa atenção para o que nos faz estremecer, pulsar, suspirar, reverberar, contorcer, salivar, saborear, devorar e regozijar.

O que nos cura está grudado em nós, mas insistimos em procurar onde não estamos!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Instagram:@evaristo_psicanalista

Twitter:@evaristopsi