POR QUE NUNCA VOU COMPREENDER AS PESSOAS DEPRESSIVAS?

O problema não é a experiência da perda. Perder faz parte da vida. O problema é perder a capacidade de experimentar. Disso não podemos.

O problema é confundir impotência com impossibilidade. Impossível sempre será. Ninguém jamais será cem por cento feliz. Não existe o amor que gostaríamos.

No entanto, não podemos perder o poder que nos foi dado de sempre buscar a felicidade e o amor que desejamos.

Não existe limites para a experiência. Podemos uma infinidade de coisas. Podemos experimentar tudo enquanto estivermos vivos.

Não entendo as pessoas depressivas, ansiosas, angustiadas, tristes e melancólicas. Há um mundo de coisas para se degustar, cheirar, saborear, sentir, olhar, contemplar e admirar.

Temos um corpo. Estamos no espaço e no tempo. Podemos movimentar, falar, gesticular, ouvir e ver. Podemos alterar o que não está bom. Podemos sair de perto, andar, passear, viajar, abrir janelas e portas, receber pessoas, conversar, cantar, dançar, beijar e namorar.

Experimentar a perda é normal. Anormal é perder a vontade de experimentar. É óbvio que não experimentar não deixa de ser uma forma de estar experimentando. Ou seja, já é uma experiência experimentar o nada.

No entanto, se ficar no vazio for uma experiência de felicidade – como fazem os orientais – aí está valendo. Só não vale se for uma experiência mórbida. Se assim for, por favor, atente-se para o seu entorno. O mundo pode não ser perfeito. Mas quem disse que ele é imperfeito?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É RESISTIR?

Resistir é não repetir. Se assim fosse, não precisaríamos resistir. Resistimos porque o que tínhamos blefou.

Como resistir quando tudo evaporou?

A resistência é subjetiva. É quando é chegada a hora de se voltar para o próprio eu. Não para repetir, mas para se reinventar.

Resistir é arte. É criar novas identificações. É não fazer mergulhar o eu de volta ao seu passado.

A resistência não é linear, reta, direta, contínua, regular. A resistência é aspiral. É a capacidade que temos de criar para os lados, para cima, para baixo, para dentro e para fora. Ela aponta para a nossa infinita potência.

A mais difícil das resistências é resistir ao mesmo.

A verdadeira resistência é aquela que surge no limite, no fim, no obscuro e no vácuo. Resistir começa com a aceitação da derrota.

Não deveríamos retomar as velhas ideologias, os velhos pensamentos e as velhas crenças. Se assim o fizermos, é seguro que iremos novamente à bancarrota. Aí já não é mais resistência e, sim, masoquismo.

Resistimos não apenas ao outro que nos oprime. Precisamos resistir a nós mesmos e a tentação que temos de fazer renascer velhas doutrinas.

Resistir não é agir com paixão. Paixão é acomodação. Resistir é elaborar o luto da perda e se reinventar a partir dela. O opressor só será derrotado quando o pegarmos com armas novas.

Não saímos vitoriosos porque tememos perder e porque gostamos do já pronto. Perdemos por apego às armas de sempre.

Em nossas reuniões, manifestações, paralisações e greves, deveria ser proibido repetir o mesmo discurso, o mesmo jargão, a mesma fala, a mesma ideia e as mesmas palavras de ordem.

Precisamos experimentar a angústia do tudo perdido. Precisamos roer o osso das utopias e das teorias políticas. Precisamos aprender a triturar o nada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

EU AMO A MINHA SOLIDÃO …

É óbvio que todos preferem uma bonita paisagem que a escuridão. Muitos preferem a televisão ligada no lugar do silêncio. É muito melhor a cama com alguém que sem ninguém.

Esse é o nosso grande problema!

Só aprendemos a gostar de um lado. Só sabemos amar as cores, os sons e as presenças.

Não fomos educados para o nada. É por isso que temos pânico da solidão.

No entanto, somos, também, o escuro, o silêncio e o vazio.

Chega uma hora em que todo mundo precisa sair de perto ou precisa fechar os olhos para dormir.

A vida não é só ser com o ter. É preciso ser – também – no nada.

Quem disse que o escuro é pior que a luz? Por que o silêncio não pode ser confortável? Quem associou solidão com ausência?

Não adianta hierarquizar como se isso fosse melhor ou mais verdadeiro que aquilo.

Insistimos em viver para fazer uma assepsia existencial. Isto é inútil!

A vida é contraditória. Não existe essa história de oito ou oitenta. Não adianta fugir. Um lado é tanto verdadeiro quanto o seu oposto.

Não entendo porque lutamos tanto contra o lado que sabemos que sairemos derrotados?!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE AS PESSOAS NÃO ESTÃO DANDO CONTA?

Sabemos que a cultura não possui todas as respostas.

Nenhum padre, pastor, cientista ou filósofo teria depressão se a religião, a ciência e a filosofia soubessem tudo.

No entanto, quanto mais se enfraquece a religião, a ciência e a filosofia, pior fica para os indivíduos conduzirem suas vidas.

Pior é quando os próprios religiosos detonam com a religião.

Ora, a teologia, as ciências e a filosofia sempre tiveram credibilidade porque produziam seus saberes de forma rigorosa, profunda e sistemática.

É por isso que ainda tínhamos alguma tranquilidade quando a humanidade se interessava mais por esses saberes que pelos saberes fragmentados das redes sociais.

É impossível, hoje, saber o que é e o que não é verdade.

Na falta de algum critério, cada um resolve como pode.

O pior é que não estão sabendo resolver.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VIVER NÃO TEM CURA …

Podemos trocar de amor, de roupa, de carro e de casa.

É muito bom poder substituir o que não nos faz bem.

E para o que não tem troca?

Não existe – por exemplo – negociação com a velhice e com a morte.

O consumo, a ciência e a religião ganham – e muito – nos vendendo a ilusão da eternidade.

No entanto, ninguém tem a receita definitiva do que fazer com isso. Por isso, sofremos.

O fato é que só seremos – de fato – felizes quando dermos conta de lidar – com isso – que não existe qualquer coisa capaz de fazer desaparecer.

Viver é inventar sobre o osso!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NINGUÉM ACABA COM A VIOLÊNCIA MATANDO OS BANDIDOS …

Ninguém gosta de violência. Ninguém suporta viver sob constante ameaça. Ninguém suporta viver podendo ser atingido, à qualquer hora, por uma bala perdida.

Duvido que exista algum morador, de qualquer comunidade periférica, que goste de viver sob a ameaça de traficantes ou de milicianos.

É por isso que tem voto certo, qualquer político que use a falsa-promessa de que vai acabar com os bandidos.

A questão é que nem todo pobre é bandido. Mas, todo bandido é fruto da pobreza.

É aí que se equivocam os pobres quando elegem um político que usa o falso-discurso de extermínio da bandidagem.

O certo não seria acabar com a violência e, sim, acabar com a pobreza.

Por que os políticos não levantam a bandeira do fim da pobreza? Porque, quase sempre, a grande maioria deles pertencem às classes mais abastadas e, construir uma sociedade menos desigual, implica redistribuir a renda.

Ninguém constrói uma sociedade mais justa do dia para a noite.

Desse modo, no imediatismo, ganha muito mais o político que chega dizendo que bandido bom é bandido morto, que o político que chega defendendo políticas públicas de saúde, educação e cultura.

No entanto, enquanto tivermos miséria, teremos violência.

É uma pena que, no Brasil, a grande maioria não dê conta de perceber que a solução para violência não está em atacar os seus efeitos e, sim, as suas causas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

É MUITA INOCÊNCIA ACHAR QUE O AMOR É SÓ LINDO …

É uma delicia quando o outro está agarradinho conosco

O problema é quando vai chegando a hora da despedida, quando ele sai para o trabalho ou para encontrar os amigos.

O problema é o que não vemos e não controlamos.

Será que ele foi mesmo trabalhar? Será que ele foi mesmo encontrar os amigos? Será que não houve nenhum desvio?

Achamos que podemos tudo. Mas nosso campo de visão é muito restrito.

Racionalizamos nossos amores. Achamos que quem amamos jamais seria capaz de fazer certas coisas. Queremos dominar tudo.

No entanto, tudo é muito mais do que podemos controlar.

Todo o nosso pânico e todas as nossas angústias e ansiedades é porque, no fundo, sabemos que não podemos tudo.

Podemos até beira da praia? E depois?

Há um limite até para o amor.

É muita inocência achar que o amor é só lindo!

Evaristo Magalhães – Psicanalista