POR QUE NÃO CONSEGUIMOS TER PAZ INTERIOR?

Por que não queremos ter paz interior? Por que preferimos a guerra? Por que preferimos viver perturbados? Por que preferimos a a ansiedade e a angústia? Queremos – sim – a paz só que a estamos buscando no lugar errado.

Ter paz é cessar todos os sentidos. Paz não é ter. Paz é ser. Ser é desprendimento – inclusive de si mesmo.

O pensamento é infernal. Quantas camadas de pensamento você já depositou em sua mente hoje?

O problema de pensar é que não existe um pensamento que encerra todos os pensamentos.

O problema de buscar a paz pelo TER é que quanto mais se tem mais se quer ter.

O problema de buscar a paz pela conquista de um grande amor é que sempre pode existir um amor mais amoroso que o nosso.

O problema de buscar a paz pelo consumo é que o sistema existe para nos dizer que estamos o tempo todo atrasados das novidades do mercado.

O problema de buscar a paz pela comida é que precisaríamos de várias vidas para experimentarmos todos os chocolates do mundo.

É por isso que a paz não se conquista pelo TER. Muito pelo contrário, a paz só pode advir depois de um desapego radical das coisas deste mundo.

Não dormimos porque tememos perder. Dormir é meio que se colocar vulnerável ao outro que pode estar acordado enquanto estamos apagados.

Sempre achamos que ter paz é ter muito. Sempre achamos que ter paz é ter tudo.

Queremos todas as garantias. Doce ilusão! Ninguém consegue controlar todas as variáveis. Ninguém consegue enxergar todos os lados ao mesmo tempo. Na pior das hipóteses, ninguém se livrará de envelhecer e de morrer.

Portanto, ter paz é esvaziar-se de suas pretensões e de seus egoísmos. É se dar conta da impossibilidade da paz pela satisfação dos sentidos.

Achamos que somos pelo controle de tudo e de todos. Isto não é ser. Isto é ter. Para o ter não há limites. É por isso que vivemos em uma constante guerra com nós mesmos, com o outro e com o lugar em que habitamos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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NUNCA CORRA ATRÁS DO AMOR DE NINGUÉM …

 

É importante dizer que o amor só é válido se for livre. Ninguém deve vir ao nosso encontro por insistência nossa. O outro deveria vir até nós apenas quando seu coração palpita forte por nós ou quando nossa lembrança causa aquele friozinho gostoso nele.

E quando é o nosso coração que saltita e é a nossa barriga que gela pelo outro? E quando temos a sensação de que os sentimentos do outro por nós não está na mesma consonância dos nossos sentimentos por ele? Não adianta insistir. Não adianta correr atrás. Não podemos forçar o coração de ninguém bater mais forte por nós? No amor, o que faz o outro telefonar, mandar um zap e vir ao nosso encontro, não é o nosso chamado. É mais que isso. É o que despertamos nele. É o desejo, a saudade e o tesão que nasceu – espontaneamente – nos seus sentimentos por nós.

Existe um lado ruim e um lado bom quando não insistimos. O lado ruim é que ficamos sem a pessoa que tanto gostaríamos de ter. O lado bom é que damos conta da nossa solidão. Não ir atrás é uma das maiores provas de amor próprio. É quase como se a vitória sobre a humilhação compensasse a derrota pela perda.

O bom é quando conseguimos nos conter em nossos sentimentos. O bom é quando damos conta de nos distanciarmos do que sentimos pelo outro para percebermos os sentimentos dele por nós. Ninguém pode se culpar por não ter sido amado. Por que não aconteceu? Não existe resposta para esta pergunta. O problema é quando poderia ter acontecido e estragamos tudo com nossas carências afetivas.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM SABE DE SI …

Saber de si é retornar ao passado. É fazer uma regressão. Porém, não é fazer um retrospecto da sua história de vida. Não é fazer uma regressão de si e de seus familiares. Não é procurar um objeto, um fato, uma situação, uma pessoa, um acidente ou um trauma que te explique.

Saber de si é ir de encontro ao depois de si mesmo. É ir de encontro ao que não se sabe de si.

Não somos a história de nossas vidas. Não somos as palavras, conceitos, teorias, crenças, sentimentos e imagens que usamos para nos descrever. Não somos as pessoas que atravessaram e que atravessarão o nosso caminho.

As histórias a gente esquece: pouco lembramos do nosso passado. Nunca nos descrevemos da mesma maneira. As pessoas não são as mesmas o tempo todo.

Ou seja, tudo o que compõe o meu eu – memória, ideias e pessoas – não sou eu.

Só saberei de mim quando eu me der conta desse meu eu que está antes de tudo que sei mim.

Sou meus atos falhos, meus lapsos e meus esquecimentos. Sou o silêncio dos conceitos que não encontro para mim e os buracos de cada letra que uso para me definir.

Na verdade, saber de si é admitir não saber de si. É admitir tudo o que se sabe de si como sendo uma ficção – quiça – uma mentira de si. Saber de si é saber se carregar pela vida como uma coisa entranha – e sem enlouquecer por isso.

No fundo, nos enganamos saber de nós mesmos para não sabermos de nós mesmos. É por isso que entramos em pânico quando o que sabemos de nós não nos compreende. Entramos em pânico quando nos transbordamos da nossa história e dos nossos conceitos. Entramos em pânico quando achamos estranho todo o nosso entorno.

Entramos em pânico porque achamos que o que temos é suficiente para nos conter. Nada nos cabe. Sobramos. Vamos sempre sobrar. Temos que dar conta de amar isso que sobra em nós.

Evaristo Magalhães – Psicanalista