NÃO EXISTE AMOR NAS REDES SOCIAIS…

Podemos ser salvos pelo amor. O que é o amor? O amor é a sensação de que o outro pode nos dar o que não temos. Amamos quando não nos bastamos. O amor começa onde termina a razão. Enlouqueceríamos se não tivéssemos a quem amar. O suicida perdeu – completamente – a crença de sua salvação pelo pensamento e pelo amor do outro. Por que o mundo anda tão estranho? Porque estamos reduzindo as coisas e as pessoas pelas quais poderíamos amar. Grande parte do mundo está conectado. Não existe amor nas redes sociais. Ninguém busca o que não tem nas redes. Todos só estão ali para dar o que têm. A rede não é de amor. A rede é de arrogância. A rede é de superfície. Nas redes, todo mundo quer ser amado, quando ninguém o é. Ninguém busca o que não tem nas redes, porque todo mundo só posta como se já fosse tudo. O amor supõe a falta. Damos o que não temos quando amamos. Se todos só dão o que têm, ninguém ama e nem é amado. Não reconhecemos ninguém que está nas redes como digno de ser amado por nós. Isso é muito sério! Não existe referência nas redes. Nelas, tudo é efêmero. Tudo é disperso. Poucos bons textos recebem muitas curtidas. Quanto às fotos, milhares de curtidas – mesmo sabendo que aquela pessoa foi quase toda modificada. Ninguém pode viver bem de imagens. Estamos reduzidos em nossa capacidade de amar. Estamos reduzidos em nosso poder de suprir o que não temos. Não estamos sabendo o que fazer com o que nos desespera. Estamos perdendo em quem e em qual lugar buscar. O que faz uma referência é o nosso amor por ela. Sem referência, ficamos à deriva. Sem o que amar, caímos na arrogância. Sem o que amar, achamos que tudo podemos. Sem o que amar, achamos que tudo sabemos. Estamos equivocados: não sabemos. Só o amor pode nos suprir disso que nos falta. Precisamos – urgentemente – resgatar nossos objetos de amor. Deve ser por isso que as pessoas estão ficando ensandecidas à espera do próximo disco do Chico Buarque ou do próximo filme do Woody Allen. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

POR QUE FAZEMOS TANTA TEMPESTADE EM UM COPO D’ÁGUA?

Por que somos tão metafóricos e não literais? Por que – para nós – perder uma pessoa, nunca é só perder uma pessoa? Por que fazemos tanta tempestade em copo d’Água? Somos metafóricos para fugirmos da verdade da vida – que não tem duplo sentido. No fundo, viajamos tanto em tudo, para não admitirmos que chegará um momento em que não haverá o passo seguinte. Queremos – sempre – terra firme. Queremos superar. Cremos poder eliminar. Não sabemos lidar com o contraditório – sem querer resolver tal contradição. Por isso, nunca somos UM, somos dois, três, quatro, cinco … Somos verborrágicos demais. Vivemos de blá-blá-blá. Ocorre, que quanto mais falamos, mais sofremos. Quanto mais entendemos, parece, que menos entendemos – porque a palavra não tem fim. Não existe a palavra da palavra. Cremos vencer a perda pela compreensão da perda. Não sabemos ver a perda com literalidade. Não sabemos gostar da vida e do que não é vida. Achamos que viver é uma coisa ou outra: somos extremistas. Julgamo-nos fracassados se admitirmos nossas perdas. Só queremos ganhar. Admitir os próprios limites, não é fraqueza. Posso perder – e isso deveria significar apenas como sendo parte da vida. Devo me implicar, apenas quando tenho alguma culpa nisso. Fora isso, não adianta tentar entender. Na vida, pode acontecer da cadeira ser só uma cadeira. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É TER PAZ NA VIDA?

Há o indecifrável. Se não há o que dizer, o que fazer? Há o que ninguém nada tem a dizer: nem a religião, nem a ciência e nem a filosofia. Se não há o que dizer, só nos resta fazer. O que fazer com isso? A bulímica faz vomitando. A anoréxica faz ingerindo o nada. O obeso faz comendo compulsivamente. Existe uma diferença entre agir e atuar. O agir é um fazer reconhecido. O atuar é um fazer estranho à todos. O agir é um fazer sem riscos. O atuar é um fazer às cegas. O agir é um fazer livre – com a condição de que a liberdade seja preservada. O atuar é um fazer mórbido – ainda que o indivíduo pense o contrário. O agir é um saber-fazer. O atuar é um surto. Não podemos atuar. Temos que agir. Sabemos o quanto é desesperador carregar algo do qual não se sabe do que se trata. Sabemos o quanto é perturbador não saber de onde se veio e nem para onde se vai. Sabemos o quanto é insuportável não saber quem inventou o tempo que faz passar os anos que temos. Sabemos o quanto é louco não saber os porquês da vida ter um começo, um meio e um fim. Temos que agir sobre isso. Não podemos nos deixar ser tomados por isso. Sabemos que vamos ser derrotados por isso, no entanto, não podemos tomar isso como uma derrota ou nos entregarmos, como a bulímica, a anoréxica e o obeso se entregam. Temos que dar alguma dignidade para isso. Como dar dignidade à algo do qual nos indignamos possuir? Eis o nosso maior desafio. Quem der conta, certamente, não precisará desenvolver nenhuma bizarrice para “livrar-se” ou entregar-se à isso. Quer der conta, seguramente, descobrirá a fórmula de ter paz na vida. Quer der conta, aprendeu a agir sobre isso. Quem não der conta ….
Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É A HIPOCRISIA?

Não somos um único gozo. Aliás, nenhum gozo nos é suficiente – porque nada nos alivia por inteiro. Carregamos questões que – independente de qualquer coisa que fizermos – não nos serão vencidas. Podemos e devemos buscar meios de aliviar isso que tanto nos perturba? Sim. Ocorre, que os meios que a família, a religião e a educação nos oferecem, não nos são mais suficientes. É uma ilusão pensar que a família da propaganda de margarina, seria uma família feliz. É uma ilusão achar que as pessoas estão completamente realizadas em suas sexualidades quando espelham-se no modelo heterossexual. Não é verdadeira a imagem que propagam mulheres felizes vivendo para o lar, enquanto seus machos saem para o trabalho. Não somos seres de um gozo só. Na impossibilidade de gozar de outro modo, sabemos muito bem o quanto a esposa do homem da propaganda de margarina é infeliz quando tem que servi-lo – também – na cama. Existem inúmeros estudos mostrando a importância da prostituição gay como forma – marginal e promíscua – de descarregamento do desejo dos supostos heterossexuais – caso contrário eles explodiriam em seus desejos. Outro dia fiquei sabendo de um dado que afirmava que mais de oitenta por cento das mulheres brasileiras casadas sentem-se violentados todas as vezes que vão fazer sexo com seus maridos. Desse modo, o que é melhor: reprimir ou pluralizar as diversas formas de gozo? Ora, sabemos que quanto pior o recalque, pior é o retorno do recalcado. Quanto mais formas de gozo pudermos, mais felizes ficaremos frente às infelicidades que nos são impostas e que são independentes da nossa vontade. Quanto mais repressora for a sociedade, maiores as possibilidades de que o gozo saia por formas bizarras de gozar. É seguro que a suposta esposa exemplar – que não goza direito com seu macho provedor – gozará na clandestinidade com o porteiro do seu prédio que sabe – muito bem – fazer tudo o que ela gosta. É certo que o marido – dito macho – viciará em aplicativos de sexo em busca de garotinhos de programa para fazer o que ele – jamais – daria conta de fazer com sua santinha do lar. Acho que estamos precisando – urgentemente – voltar a ler – um pouco mais – Nelson Rodrigues. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE ESTAMOS COM TANTA DIFICULDADE PARA DORMIR?

Para as nossas questões, só conhecemos um caminho: pensar. Para as nossas questões, que não cabem não quaisquer pensamentos, só nos resta a angústia. Durante o dia – por questões práticas – quase não temos tempo de pensar ou de angustiar com nossos dilemas. No silêncio da noite, em geral, tudo vem à tona. Fora os problemas que podemos resolver pensando, somos – também – tomados por dilemas insolúveis: de onde viemos, para onde vamos, por que envelhecemos, por que perderemos quem amamos e por que nos perderemos de nós mesmos. Nosso sono precisa vencer uma batalha, todas as noites, para conseguir se impor sobre nós mesmos. Está na hora de aprendermos a retirar toda essa carga racional e emocional que nos impede de relaxar e de sermos tomados pelo nosso sagrado direito ao sono. Infelizmente, só sabemos pensar para resolver. O problema é que insistimos pensar para o que não existe qualquer pensamento. Nesse contexto, quanto mais pensamos, mais angustiamos – porque não conseguimos encontrar o que não abrimos mão de encontrar. Existem filósofos que dizem ser positivo o fato de todo pensamento terminar em angústia – sendo isso uma forma de estimular o desenvolvimento da razão. Não concordo. Isso não é filosofia. Isso é estímulo à compulsão racional. Isso é mais um inferno mental. Qual o limite? Quando parar? Como parar? Qual o sentido de pensar sobre um vazio que nunca termina? Não deveríamos pensar como insetos em volta da lâmpada. O pensamento deveria levar ao sossego e não ao desassossego. Deveríamos pensar apenas sobre aquilo que possui algum sentido. Deveríamos pensar somente sobre o que aponta para alguma direção. Deveríamos pensar apenas para resolver nossas questões. Deveríamos pensar para aplacar nossas angústias e não para continuar nos angustiando. Todo pensar precisa ter um fim. Precisamos exercitar esvaziar nossa mente. Precisamos conquistar nosso direito ao descanso mental. Precisamos voltar a dormir em paz. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE FAZER COM A RAIVA?

O que fazer com a raiva? Tenho raiva da desigualdade social e de todo tipo de preconceito. No entanto, não saio por aí detonando com os ricos ou agredindo os racistas, machistas e homofóbicos. Estudei sociologia, antropologia e filosofia. Entendi que a culpa é do sistema. Entendi que é toda uma base que precisa ser combatida. Nunca achei que um grande latifundiário, entregando todas as suas terras aos pobres, resolveria o problema da reforma agrária no Brasil. Aprendi, estudando ciências humanas, que a luta é estrutural, política e legal. É preciso que a mudança atinja todo o sistema e não apenas uma parte dele. Nesse sentido, sempre fui um revolucionário e não um reformista. Portanto, meu ódio não é contra as pessoas. Minha indignação é contra o sistema. Quem não estudou as humanidades, não acha que o buraco é mais embaixo. Essas pessoas acreditam que a culpa do negro – ser negro – é dele mesmo. Daí, odeiam os negros, porque desconhecem todo o contexto histórico por detrás da construção do preconceito. Talvez, até saibam, mas não querem saber, porque têm alguma culpa na manutenção do mesmo. Essas pessoas acham que pobre é pobre porque é vagabundo. Acham que macho é uma construção da natureza. Curiosamente, a grande maioria delas são brancas, ricas, do gênero masculino e heterossexuais. Falta a essas pessoas um pouco mais de cultura. Não é sendo racistas que vamos nos livrar do preconceito. Não é matando os bandidos que vamos acabar com a violência social. Somos vítimas de um sistema que naturaliza e criminaliza determinados grupos para privilegiar outros poucos. Nosso ódio não pode ser contra as pessoas. Nossa revolta deve ser dirigida na luta pela transformação do sistema. Nossa luta é contra uma determinada concepção de sociedade. Nossa luta é ideológica. Nossa luta é política. Nossa luta é por uma sociedade menos desigual para todos.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

ODEIO A TRISTEZA…

Certos sentimentos não deveriam existir. A tristeza, por exemplo, de nada serve. A não ser como uma forma de comoção. Ficar triste não traz ninguém de volta. Ficar triste não resolve o problema da fome no mundo. Nunca entendi porque as pessoas ficam tristes quando perdem seus amores. Estou triste porque o outro não vem. Estou péssimo porque tal pessoa não respondeu minha mensagem. Nada disso adianta. Pode ser que a tristeza traga o outro de volta por compaixão. Pode ser que faça a pessoa passar um zap por pena. Que horror! Para certas situações, teríamos mais lucro se ficássemos alegres. Gozaríamos mais. Estou cada vez mais convicto de que a tristeza é só para os fracos. A tristeza não é uma força. Estou cada vez mais seguro de que a dor de viver é para os masoquistas. Nada mais ridículo que chorar de saudade. A tristeza valeria, se fosse para resolver o problema. Morreu uma pessoa querida, deveríamos, na pior das hipóteses, nos mantermos em silêncio. Quem chora, possivelmente, deve é estar utilizando a morte alheia para chamar a atenção para o desespero de sua própria morte. O único sentido para a tristeza é o egoísmo. Toda triste é um histérico. Todo triste quer – no fundo – é chamar a atenção para si. A tristeza é sempre um modo de lidar com uma emoção sem solução. Para o que não tem solução, só nos resta calar. Para o que não tem solução, a solução é carregar o mistério sem esboçar qualquer reação. Deve haver um lugar que possamos ocupar – que não seja a tristeza – para as coisas que virão e que nada podemos fazer para impedir, para as coisas que nunca vieram e para aquelas que não têm volta. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista