POR QUE A PSICANÁLISE É TÃO ANGUSTIANTE?

A psicanálise quer de nós uma missão quase impossível. Ela quer que nos reconheçamos em nossas palavras e atos. Ou seja, ela quer que nos ocupemos do que mobiliza o fato de que falamos e agimos.

A verdade não está no comportamento. Falamos e agimos para fugir da loucura, da finitude, da mortalidade, do desamparo e do fato de que temos um corpo e de que estamos em um processo de degradação.

Habitamos a mentira quando falamos e agimos. Viramos escravos de uma ilusão que não consegue tamponar as verdades da vida.

Autoconhecimento, para a psicanálise, não é dar nomes, não é contar histórias, falar e agir sobre a vida.

Isto que não reconhecemos, são os fantasmas que nos amedrontam. Quanto mais falamos, mais reavivamos isso que nos atormenta.

Sim, a psicanálise quer nos angustiar. Ela quer nos fazer reconhecer o que em nós é sem palavras para nos libertar do sofrimento que criamos -exatamente – porque falamos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

SOBRE PESSOAS SEM QUALQUER ESTILO …

Estilo não é apenas escolher qual o corte de cabelo ou o penteado que mais combina com você.

Estilo não é apenas ter um modo próprio de vestir, falar, andar ou decorar a casa.

Estilo assim, é fácil.

Quero ver ter estilo na perda de um grande amor. Não é estilo ligar dezenas de vezes, ir atrás, chantagear e se humilhar.

Quero ver ter estilo ao envelhecer. Não é estilo se entupir de cirurgias plásticas, próteses, botox e preenchimento facial.

Quero ver ter estilo diante de um debate sobre a realidade política e econômica do Brasil atual. Não é estilo defender que político é tudo igual e que o Brasil não tem jeito mesmo.

Quero ver ter estilo musical. Não é estilo dizer que é eclético e igualar Chico Buarque aos sertanejos universitários.

Quero ver ter estilo na hora da morte. Não é estilo entrar em pânico, desesperar, revoltar ou enlouquecer.

Quero ver ter estilo intelectual. Não é ter estilo virar papagaio de filósofos, cientistas, padres, pastores e professores.

Quero ver ter estilo emocional. Não é ter estilo repetir receitinhas de falsos gurus, de livros de autoajuda e de psicologias de jornaleiro.

É a existência que requer um estilo. No entanto, estilo existencial não se compra porque a existir é de cada um. Você já descobriu o seu?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TENHO PREGUIÇA DE CERTOS PSICANALISTAS?

Psicanalista não é um decifrador de enigmas. Não é com explicações de quem quer que seja que chegaremos às causas de nossas angústias.

É enganação qualquer tratamento psicanalítico em que o profissional desembesta a falar sobre a fala do paciente.

Nossas questões não são da ordem da palavra. Se assim fosse, ninguém mais sofreria. Sobram livros de psicanálise tentando nos dizer os motivos de nossas dores existenciais.

Psicanálise não é fazer troca-troca de conhecimento.

Quem disse que os psicanalistas sabem mais de mim que eu mesmo?!

Nem o papa sabe sobre ele mesmo. Ninguém sabe sobre si. Não somos da ordem do saber.

Podemos relatar acontecimentos, explicar fatos, contar histórias, falar mal de nossos pais e detonar com nossos amores, que nada disso aliviará nossas angústias, depressões e ansiedades.

Quem somos está depois de todas as palavras, livros, teorias e doutrinas. Podemos tagarelar até à exaustão que isto nunca sairá de nós.

Um bom psicanalista é aquele que nos joga nesse lugar que nenhuma palavra chega. O que faremos aí? É de cada um. É certo que o que faremos será – ao menos – algo genuinamente nosso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

FAZ SENTIDO VIVER?

Viver é sem conteúdo. Alguém sabe o que será de si? Não. Somos vazios de sentido.

Uma vez sem conteúdo, o que temos? Temos a forma. O sentido é a forma, o vácuo e a liberdade.

Tenho preguiça da assepsia científica quando acha que possui a verdade.

A ciência se diz séria. Por isso não brinca, não sente, não sorri e não ousa. A ciência quer expulsar o vazio.

A ciência crê em algo com consistência. Pode até ser.

Quanto ao vazio, só podemos a forma.

É óbvio que nos sentiríamos mais seguros se tivéssemos um ponto fixo. No entanto, correríamos o risco da monotonia desse ponto.

O vazio angustia? Sim. Mas, nele não temos um fim à atingir. Temos o caminho. Temos o usufruto. Temos o agora. Com qual finalidade? Melhor não querer saber.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TENHO COMPULSÃO PELAS ARTES?

Sempre nos definimos pelo que temos de melhor. Ninguém quer se mostrar feio, limitado intelectualmente ou desprovido de alguma riqueza material.

No entanto, nenhuma beleza é completa, ninguém possui a verdade e tudo o que somos ficará para trás. Portanto, somos, também, o pior.

Deprimimos porque não nos admitimos finitos.

Mas, não seria bizarro demais alguém se definir por suas feiúras? Sim.

É por isso que precisamos encontrar um modo de trazer o que não somos para o que somos. Caso contrário, corremos o risco de passar a vida inteira lutando contra o que é inelutável.

Como podemos fazer isso? Como podemos contrabalancear o que temos de melhor com o que temos de pior? Pela poesia e pelas artes.

Gosto dos artistas porque dão conta de integrar – na forma de versos, teatros, pinturas e melodias – alguma beleza ao que tanto tememos.

Nas artes, o pior não é negado como nas ciências e nas religiões. Muito pelo contrário, toda a beleza das cores, dos gestos e dos sons estão integrados ao que mais me desespera em mim. É por isso que, pelas artes, posso me ver sem entrar em pânico comigo.

Deve ser por isso que os artistas são tão perseguidos. Eles têm o incrível poder de mostrar a verdade sem que ninguém precise de se entupir de antidepressivos para suportá-la.

Viva a arte! Viva os artistas!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE FRACASSAMOS NO AMOR?

O motor do amor não é o sexo, as ideias, o corpo e os afetos.

O que move o amor não é o que aparece logo de cara.

O amor não é só o que se apresenta. Não é se o outro transa gostoso, é bonito ou inteligente que irá determinar se meu amor dará certo.

O que irá determinar se terei sucesso no amor é o que está invisível no amor.

Sabemos muito pouco do amor. Só associamos nossas vitórias e fracassos ao que o outro fez ou disse. O amor não é nada disso.

Levamos para nossos amores o que – sequer – sabemos sobre nós mesmos. É esse estranho de nós que determinará se seremos felizes ou não em nossos relacionamentos.

Esse outro lado esquisito de nós mesmos nunca fica de lado de tudo o que fazemos na vida. Ele é o motor que determinará se sairemos bem ou não no amor, no trabalho e em nossas amizades.

Não é autoconhecimento saber de suas ideias, de sua virilidade e de suas características físicas.

Saber de si é ir de encontro ao que está depois de si. É ir de encontro ao osso de si.

Só estaremos preparados para amar quando dermos conta de quem somos depois de tudo que achamos que somos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO ME INTERESSA OS AMORES QUE DÃO CERTO …

Não me interessa os amores que dão certo.

Acho bonito os casais de mãos dadas, as conversas compenetradas, os risos, os abraços, os beijos, os sarros, as pegacões e as transas safadas.

Não me ocupo do que sabemos sobre o amor. Quem dera se a vida fosse só o contorno que damos para ela?!

É importante marcar um limite? É necessário estar certo do que seja amar? É fundamental cumprir certas promessas? Sim. No entanto, o amor nunca é só isso que colocamos dentro dele. Se assim fosse, não brigaríamos por amor.

Me interessa o que deixamos de fora do amor. Não sei ao certo de que se trata isso.

Sei que é o que nos faz sofrer. Sei que sem isso seríamos eternamente felizes.

Não me interessa o amor que vejo. Quero o que do amor não vejo. Quero entender por que os casais surtam, por que vão atrás, por que se humilham, por que mandam centenas de mensagens, por que se chantageiam e por que se matam por amor.

Que será essa coisa estranha que atravessa todos os casais? É isso que me interessa estudar no amor.

Evaristo Magalhães – Psicanalista