O QUE É UM MUNDO DE PESSOAS DEPRESSIVAS?

Freud desvendou a origem do nosso psiquismo: nascemos com desejos proibidos e com desejos insolúveis. Para os primeiros, na impossibilidade de negociar com o meio, temos que pagar com o mal-estar do recalque. Para os segundos, não há muito o que fazer. No entanto, Freud tomou o amor como um meio de amenizar o fato de não ter solução porque envelheceremos e morreremos. A primeira paixão contra os nossos pânicos é o famoso Complexo de Édipo. Amamos nossos pais iludidos de que estaremos protegidos das intempéries da nossa existência. Depois amamos nossos amigos, nossos amantes, as artes, a filosofia e as ciências, com este mesmo objetivo. E quando tudo isso se liquidifica? E quando parece que o amor não existe mais? Entramos em depressão. Ficamos melancólicos. Perdemos o sentido. O que sobrou? Os prazeres do corpo. Não cuidamos mais das nossas relações: ficamos por ficar. Transamos pelo prazer efêmero. Viramos objetos. Nossa olhar esvazia. Perdemos em intensidade sentimental. Coisificamos e somos coisificados. Parece que, nesse momento, foi tudo o que sobrou da nossa humanidade.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

O SER HUMANO ESTÁ PERDENDO A CAPACIDADE DE AMAR …

O problema é que não sabemos viver em um mundo sem palavras. O problema é que não sabemos viver em um mundo sem pensamentos. Ninguém é cem por cento ético como o conceito de ética. Não existe um amor de conto de fadas e nem o amor romântico ou qualquer amor que se diga amor. Não sabemos só viver. E quando vamos viver conforme planejamos, damos com a cara no muro. O problema é que não perdoamos a distância entre as palavras e as coisas. O mundo é mais feito de letras que de palavras. O mundo é mais feito de formas, gostos, sons e sensações, que de teorias sobre sobre as formas, gostos, sons e sensações. Detonamos as contradições do outro, porque estamos apenas na confortável posição de só cobrar o que pensamos sobre ele. Sabemos muito bem criticar, mas quase nunca nos colocamos no lugar do outro. Uma coisa é a realidade e a vida, outra é escrever um tratado sociológico ou filosófico sobre isso. Quem prefere pensar, não vive. A verdade é o sentir. O problema é que ao sentir podemos experimentar o que os preconceituosos condenam como não condizente com sabe lá o quê. O problema é que só podemos sentir uma coisa de cada vez: viver é fazer escolhas. O ideal seria escolher tudo. O ideal seria atender a todos. Não é possível. Só a teoria é abrangente. Perdemos muito por julgar o outro a partir nossa arrogância que acreditamos coerente com a realidade. O mundo seria bem melhor se entendêssemos um pouco mais as ações do outro a partir do que ele sente ao decidir – especialmente quando ele decide em favos dos mais miseráveis. A essência da vida é a compaixão e o amor. O mundo perdeu a capacidade de compaixão e amor.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É O INFERNO?

Deve existir um lugar mental depois da angústia. Penso que se procurarmos, acharemos. Um lugar sem palavras, feito de um silêncio que não cabe qualquer pergunta. Um lugar sem começo e nem fim. Um lugar que nada podemos sobre ele: apenas contemplar, sentir e ouvir. Um lugar – creio – sempre o mesmo desde começo de tudo. Um lugar como o sol, a lua, o ar, a água e as plantas. Um lugar eterno: sem conflito, contradição, duvida, medo ou ansiedade. Um lugar que está dentro de todo ser e que precisa ser resgatado – uma vez que foi contaminado por questões insolúveis. Esse lugar é eterno. Esse é o lugar do UM. Habitamos dois mundos: o das coisas que passam e o das coisas que são. Não podemos permitir que esses dois mundos entrem em choque. Precisamos desligar esses dois mundos entre si. Quando não for preciso pensar, não pensemos. Quando não adiantar fazer barulho, permanecemos em silêncio. Não podemos confundir a hora de sentir com a hora de pensar. Há infinitas sonoridades. Há um barulho que é próprio da mente: inflexível, intraduzível e inominável. Precisamos escutar essa sonoridade – também. Ela é a nossa paz pessoal. Todo o resto, é o nosso inferno.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TANTO ÓDIO NO MUNDO?

Aprendemos que quanto mais educada fosse a civilização, menos violenta ela seria. Porém, já ouvi dizer que Hittler escutava música clássica enquanto milhares de judeus eram assassinados nos campos de concentração nazistas. Bolsonaro tem diploma de graduação em psicologia. Portanto, não é pela inteligência que conteremos o ódio humano. Tendo a concordar com a psicanálise, quando postula que nossa ira contra nós mesmos e contra o outro, advém do fato de não sabermos de onde viemos e nem para onde vamos, advém do fato de que vamos envelhecer, perder quem muito amamos e do fato de que vamos morrer. Desse modo, a raiva humana é uma criação da nossa própria inteligência. Se não fizéssemos certas perguntas, ao que tudo indica, não ficaríamos revoltados por não obtermos as respostas que tanto gostaríamos. Nesse sentido, é pelo que nos falta em nossas filosofias, ciências e religiões ocidentais, que iremos de encontro ao que de mais bonito o oriente milenar conseguiu produzir. Creio que odiaríamos menos, na medida em que lidássemos melhor com isso que nossa civilização vive se debatendo em vão. Faríamos menos mal a nós mesmos e ao outro quando tomássemos o que enxergamos como perda, como algo que é parte do fluxo natural da vida. É óbvio que quando digo isso, estou tratando – especificamente – da relação da nossa ira com as nossas questões existenciais mais radicais. Diferentemente, as pessoas que se revoltam porque são miseráveis ou estão passando fome, entram na categoria do ódio justificável.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O CAPITALISMO ENTRISTECEU O SER HUMANO …

Somos seres de palavra. Nunca sabemos, ao certo, como estamos sendo interpretados. Como no capitalismo tudo é interpretação, esse sistema cultiva a paranoia e o pânico. Quem é seu confidente hoje, pode vir a ser seu chefe amanhã. Quem te escuta agora, pode, no futuro, conhecer alguém que te conhece e usar a impressão que teve de você tanto para o seu bem quanto para o seu mal. O capitalismo quebrou a confiança entre as pessoas. Tudo o que você fizer poderá ser usado contra você. Todo mundo precisa estar bem com todo mundo, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Dependemos do que o outro pensa de nós para sobrevivermos. O capitalismo coloca as pessoas nas mãos de outra. Uma pessoa pode ter – sozinha – o poder de destruir a vida de outras tantas. O capitalismo acabou com os laços de irmandade no mundo. O capitalismo colocou o dinheiro acima das relações. Tudo é estético e performático. Tudo é pelo perfil. Tudo é pelo valor de uso. As pessoas precisam aprender a ser melindres para sobreviver. O capitalismo destruiu a espontaneidade. Parece que todos estão pisando em ovos com o que dizem, vestem, sentem e agem: isso é desesperador. Todos estão preocupados com a atitude que o outro gostaria que tivessem. Perdemos a ideia do coletivo. A impressão que se tem é a de que precisamos fazer a vontade de outrem – digo de quem manda – porque só assim sobreviveremos. Como tem muito índio para pouco cacique, cada um sobrevive como pode. No capitalismo, a vida de todo mundo passa pelo trabalho. Como não é a vida que importa, uma mesma pessoa pode acumular milhões de um dia para o outro – enquanto outras tantas passam fome – como sendo isso a coisa mais normal do mundo. O que é valorizado é a habilidade, a competência e a esperteza – e não o amor ao próximo. O capitalismo destruiu o amor ao próximo. Quantos não estão morrendo agora ? É tudo muito simples: faltou-lhes habilidade, competência e esperteza.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ SE OUVE?

Venho descobrindo que minha mente possui outros ruídos para além de pensar. Descobri que trago o som do universo em mim. Se atento só para os meus pensamentos, quase enlouqueço. De fato, não consigo me fazer parar de pensar: pode me acontecer de pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Encontrei um jeito de me livrar dessa tortura. Descobri que sou portador de outras sonoridades. São sons que tenho e que não possuem qualquer sentido: são apenas sons. Creio serem os mesmos que os animais, plantas e planetas – se é que eles têm ouvidos – escutam. São ruídos que carrego. São sons meus. São barulhos que só posso escutar, observar e contemplar. Ocorre, que me perco de tudo quando me entrego a eles. Ocorre, que esqueço de tudo quando estou diante deles. É um outro EU de mim: um eu feito de reverberações pelo fato de que estou vivo. Se me olho, sempre encontro algo que não gosto. Se me penso, não consigo estancar meu pensamento – mesmo porque pensamento não tem fim. Se me ouço, me acalmo – porque meus sons são a minha verdade. Meus sons não possuem duplo sentido. Meus sons – simplesmente – são: sem gosto, sem feiura ou beleza, cor, tamanho ou peso. Meus sons sou EU na minha mais absoluta pureza.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ FICA OU RELACIONA?

Infelizmente, estamos tendo que hierarquizar as pessoas. Nesses tempos das compulsões, muitos vivem reduzidos à uma coisa só. Nosso mundo está meio desmedido – também – quanto ao que compõe a nossa formação como humanos. Até bem pouco tempo, dividíamos nossa existência em cuidar do nosso corpo, das nossas emoções e do nosso intelecto. Dentre estas três instâncias, hoje, a primeira, é a única que pode ser transformada em objeto de consumo. Posso comprar o corpo que quero através de substâncias sintéticas ou de intervenções cirúrgicas. Desse modo, muita gente passa boa parte de seu existir centrado em obter o corpo que tanto deseja. Praticamente, viver bem passou a significar ter um corpo malhado e bombado. Ou seja, está ficando cada vez mais complicado encontrar alguém bonito, sensível e inteligente. Estamos tendo que hierarquizar as pessoas quanto ao uso que podemos fazer delas: esse é só para pegar e aquele é para relacionar. Pegar quer dizer corpo a corpo. Relacionar quer dizer corpo, sentimento e intelecto. Esse último está ficando cada vez mais raro. Vamos ter que esperar um dia em que a sociedade de consumo inventará a pílula da sensibilidade e da inteligência. Fora isto, só nos resta passar de coisas e seus usos sexuais.

Evaristo Magalhães – Psicanalista