O QUE FAZER QUANDO TUDO PARECE ESTAR DANDO ERRADO?

Parece que chega uma hora em que não adianta mais tentar. Parece que tudo o que sabemos fazer deixa de tocar o que queremos. Temos diante de nós uma zona onde tudo o que temos por costume deixa de fazer efeito. Ficamos repetindo. Ficamos tentando. Quase que a coisa vira uma compulsão. Ocorre, que pode ser interessante quando tudo parece dar errado. A vida pode estar nos convidando à experimentar o que nada sabemos. Estamos sendo apresentados ao estranho. Estamos sendo convidados ao novo. No entanto, não fazemos como Medeia que começou do zero, porque não enxergava nenhuma possibilidade de felicidade sem o seu Jazão. É para isto que serve a psicanálise. Geralmente, deitamos em um divã quando tudo o que sabemos deixa de funcionar. O mutismo do analista acontece no ponto em que ele espera de nós algo novo. No entanto, insistimos no velho. As outras terapias ficam tentando ver o que dá para salvar do mesmo do mesmo. A psicanálise espera de nós um ato. Ato não é repetição. Ato é uma nova língua. Novos movimentos. Novas atitudes. Tudo diferente do que já sabemos. Não há fracasso no ato, porque não há ato sem fracasso. O ato é fundamental, porque de ato em ato vamos chegar no que somos de mais desconhecidos. Na verdade, não agimos sobre os nossos fracassos cotidianos, para não nos depararmos com o fracasso que somos nós mesmos. Somos constituídos de um osso que cada um – dia menos dia – terá que roer o seu. Neste sentido, novo, de fato, é o que temos que fazer por nós mesmos. Somos compostos do que não há palavras. Somos constituídos do que nada e nem ninguém pode fazer qualquer coisa por nós. O dia em que enfrentarmos esse estranho de nós, estaremos prontos para enfrentar todas as estranhezas menores que estão do lado de cá de quem somos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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O QUE É A TIMIDEZ?

A timidez é um véu, como o pudor e o respeito. A timidez é uma forma de não se mostrar. O respeito é uma forma de não se deixar tocar. Ninguém é tímido para o outro. Não é o caso de não se permitir tocar. Trata-se de não se deixar macular. Não é o caso de não se mostrar para o outro. Trata-se de não se mostrar para si. Por detrás de todo tímido está um medo absurdo de não se ver. A timidez é uma autoproteção de si. O tímido não se esconde para o mundo. Ele se esconde para si. A timidez é um poder. A timidez é uma tentativa de viver constante e regular. A timidez é um modo de ser exato. Tanto que são tímidos até quando não estão sob o olhar de ninguém. O que os tímidos não querem ver? O que os tímidos não querem mostrar? Seus buracos e suas contradições. Seus medos e suas bizarrices. Suas vontades e seus desejos. Suas revoltas e seus ódios. Cada um cria o véu que merece. O não-tímidos preferem experimentar no lugar de velar. São mais livres para com suas telas. São mais diversos para com seus vazios. São mais corajosos para com suas mazelas. Em um mundo só de tímidos seria impossível sabermos da nossa inteligência emocional. O tímido é um ignorante da existência. É a paralisia dos sentimentos. Quase não há amor no tímido. Imagina o sexo de um tímido? Quase não há espontaneidade nos tímidos. Quase não há alegria nos tímidos. É uma pena, mas os tímidos não sabem o quanto é bom vivenciar e reinventar a própria a existência. Não sabem o quanto é bom experimentar o muito sendo muitos. Não sabem o quanto é bom a liberdade. Ninguém se perde sendo livre. Quanto mais livres somos, mais queremos cultivar a nossa liberdade. Não há melhor véu que o da liberdade.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ ACREDITA QUE BELEZA TRAZ FELICIDADE?

Existe uma diferença entre ser bonito para os outros e ser bonito para si. Nem sempre aqueles que consideramos bonitos, se acham bonitos. Uma pessoa só pode ser bonita para os outros. Ninguém consegue se bonito para si. O fato de alguém se achar bonito, já esconde um problema. Se eu tenho que me achar bonito é porque – no fundo – não sou. Existencialmente, todo mundo é feio. Como pode se achar bonito alguém que não sabe de onde veio e nem para onde vai? Como pode se achar bonito alguém que sabe que a juventude tem data de validade? Como pode se achar bonito alguém que não sabe o que poderá acontecer? Como pode se achar bonito alguém que pode ser abandonado pelo seu grande amor? Como pode se achar bonito alguém que sabe que vai morrer um dia? Somos amados porque quem nos ama precisa acreditar que o mundo é feito de gente que se ama. Não ficamos bonitos para nós mesmos. Fico bonito para o outro e o outro fica bonito para mim para alimentarmos em nós a ilusão de que o bonito existe.Tanto que ninguém gosta de ficar na companhia de gente que considera feia. Precisamos de gente bonita para execrar do mundo a nossa feiura. No entanto, todo mundo carrega alguma tristeza. Ninguém é – existencialmente – cem por cento bem resolvido. Viver não seria mascarar a morte? A beleza não seria uma espécie de ilusão da eternidade. O problema é que nunca começamos pela verdade. Preferimos a mentira – mesmo sabendo que de nada vai adiantar.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

MEU MAIOR PROBLEMA SOU EU …

O melhor não é lutar contra. O melhor é reconhecer, admitir e tomar como sendo seu. Não adianta botox, cirurgia plástica, anabolizante, prótese ou preenchimento. Não adianta mansões e carrões. Não adianta todo o poder. Não adianta revoltar. Não adianta rezar. Nada resolve. Temos que nos reconhecer nisso. Temos que nos reconhecer nisso que nada pode nos livrar. Temos que colocar alguma consistência nisso. Temos que nos satisfazer com isso de que não sabemos do que se trata. Eis é a nossa questão maior: o que fazer com isso? Estamos sabendo?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM SOFRE POR AMOR A NINGUÉM ..

Quem ama e teme perder, goza porque ama e goza porque teme perder. Não temos outra alternativa senão gozar com a perda. É certo que vamos perder. Nenhum amor é para sempre. Há quem se entregue. Há quem desista. A maioria passa a vida toda fazendo mantra da dor do medo de perder. Tanto que mais pessoas sofrem por amor que se matam por amor. Usamos nossas desavenças amorosas para retardarmos o nosso grande e doloroso orgasmo final. Muitos tomam como prova de amor temer a perda. Muitos até enxergam certa nobreza quando alguém chora nas despedidas. Não é nada disso. Não devemos nos envaidecer como se a dor fosse por amor a nós. Não é. O outro não se separa do que ele faz por ninguém. Não se iluda, a suposta angústia pela sua ausência não é bem por você. A dor é de quem a sente. Reagimos mais por nós que pelo outro. O amor não está separado do que nos perturba. Todo mundo usa o seu amor para se descarregar. Ai de nós se não fosse o amor. Talvez, pudéssemos fazer coisa pior. Ninguém sofre por amor a ninguém. Não se culpe pela dor de quem ficou. Todo mundo necessita desta dor. Não sofremos pelo amor de ninguém. Sofremos é por amor a nós mesmos. Todo amor é – também – uma forma de masoquismo. Tanto que não existe amor perfeito.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É UMA PESSOA FÚTIL?

Fútil é uma pessoa que não pergunta sobre si. Ao perguntarmos sobre nós mesmos nos damos conta do quanto somos – existencialmente – complexos. Desse modo, quem pergunta sobre si – inevitavelmente – vai concluir de que não sabe quase nada sobre si. Daí, vai se dar conta de que só pessoas interessantes e inteligentes – na história da humanidade – é que deram conta de indagar sobre quem são. É por isso que quem não questiona a sua existência tem uma tendência a só gostar de coisas imbecis e superficiais. Ao contrário de quem é mais introspectivo. Esse tipo de pessoa tem uma tendência a gostar de coisas que a faça mergulhar para dentro de si mesma. Uma pessoa que não é fútil, geralmente, adora ler Clarice Lispector, Dostóievski e Mia Couto. Uma pessoa que não é fútil, geralmente, ama escutar Caetano Veloso, Elis Regina e Elza Soares. Uma pessoa que não é fútil, geralmente, sustenta uma discussão política, porque sabe que certos políticos só aprofundariam – ainda mais – a futilidade de quem já é fútil. É por isso que o mundo parece tão idiota. Grande parte das pessoas acha que felicidade é ter coisas, bolsas, sapatos, carrões e mansões. Muitas vivem para suas cirurgias plásticas, academias, anabolizantes, botox, próteses e preenchimentos. Outras acham que vida de verdade é só o que aparece no Instagram e no facebook. A grande maioria – sequer – ouviu falar alguma vez de Woody Allen e Almodóvar. No entanto, ninguém sustenta uma vida inteira só com futilidades. Vamos envelhecer e vamos morrer. E, quanto a isso, nenhum objeto de consumo pode fazer qualquer coisa por nós. Só uma boa literatura, um amor consistente e muito autoconhecimento. Fora isto, não há outro caminho, a não ser se entupir de ansiolítico e antidepressivo para dopar as mazelas da vida.

Evaristo Magalhães – Psicanalista