SÓ NÃO É FELIZ QUEM NÃO QUER …

É fato que vamos envelhecer e morrer. É fato, também, que as coisas, quase nunca, vão funcionar de acordo com a nossa vontade. Muitos paralisam por isso. Muitos, sequer, dão continuidade. Portanto, a cada minuto a mais no relógio, é um minuto a menos para nós. Carregamos esse para menos como uma ampulheta em processo de esvaziamento – e sem retorno. Não somos eternos. Contudo, carregamos – também – algo que não esvazia: nossos sentimentos. Fora que habitamos um mundo que está em constante processo de renovação para o nosso deleite. É o que temos como compensação para as nossas perdas. Se estamos nos perdendo com o tempo, podemos nos achar sentindo o mundo em todos os seus fluxos. Afetamos e somos afetados pelas coisas e pelas pessoas: respiramos, enxergamos, tocamos, saboreamos e emocionamos. Só deixamos de integrar o mundo quando morremos. Não deveríamos focar no que estamos perdendo – mesmo porque não há nada que podemos fazer quanto à isso. Deveríamos focar no que temos à nossa disposição para o nosso prazer de viver. Deveríamos explorar tudo de bom que o mundo pode nos impactar. Nunca vemos do mesmo jeito uma mesma paisagem. Impossível listar todos os cheiros, sons e sabores. Para cada minuto a menos – só se não quisermos – podemos suprir com uma infinidade de belezas que estão à nossa disposição. Temos um corpo, nossas emoções, as coisas, as pessoas, nossos movimentos e sentidos: é o que nos foi dado para a nossa felicidade. É fato que uma hora tudo isso terá que ficar para trás. Contudo, não precisamos adiantar e nem permitir que essa hora comprometa todas as alegrias de enquanto estamos vivos. Podemos, inclusive, esquecer essa hora, vivendo o que do mundo não tem nada a ver com ela. Basta atentarmos. Basta querermos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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PARA QUE SERVE A PSICANÁLISE?

Gosto muito do conceito de transferência que Freud inventou. Ele diz que procuramos um psicanalista porque supomos que este possui um saber sobre o nosso problema. Aliás, ele diz que todas as nossas relações, com a arte, com a ciência, com as ideologias e com a religião, passam pela crença de supressão do que não sabemos. É óbvio que, para Freud, a melhor relação transferencial é aquela com o psicanalista. Qualquer outra transferência é enganosa – porque diz possuir receitas para os nossos dramas. A psicanálise, ao contrário, diz que todas as nossas queixas estão – no fundo – relacionadas ao que nem mesmo a própria psicanálise possui qualquer resposta. Nesse sentido, o silêncio do psicanalista é fundamental – porque propicia que cada um crie seu modo próprio de responder a isso que ninguém sabe a resposta. Sempre que apaixonamos por nosso psicanalista, é porque supomos que ele deve ter encontrado o seu. Evaristo Magalhães – Psicanalista

SÓ SOFRE QUEM QUER

Talvez, o grande segredo da vida boa esteja em reaprender a trocar. Desaprendemos a arte de lembrar que não somos só isso ou só aquilo. Somos isso, aquilo, aquilo lá e aquilo outro. Somos tudo. Somos o infinito. Ou reaprendemos a valorar tudo com igualdade ou hierarquizamos, perdemos e passamos o resto da vida sofrendo por falta de algo à altura do que partiu. Temos que dar conta de trocar uma boa noite de sono pelo nosso medo de morrer. Temos que dar conta de trocar nossos livros e discos por uma companhia que resolveu não voltar nunca mais. Ficamos angustiados por incapacidade de saber permutar. Ficamos ansiosos por acharmos que tudo o mais é inferior ao que idealizamos como sendo o único tudo. Não é. Não pode ser. A vida não é sempre como gostaríamos. As coisas não funcionam conforme as conceituamos. O fluxo da vida pode não seguir o ritmo que desejamos. A vida não nos consulta sobre o que nos acontecerá. A vida não é boa nem má. A vida é como é. Sob certas situações, não adianta sofrer e nem lutar contra. O fato é que esquecemos que a própria vida nos oferece contrapartidas. Tudo depende do que escolheremos para colocar no lugar. Sofreremos, se impusermos as nossas condições. Pode ser que a vida não esteja mesmo disposta a negociar de forma justa. Nesse caso, só nos resta a habilidade de trocar a dor por algum outro prazer – ainda que desigual. Se não for o ideal, que seja, então, ao menos uma política de redução de danos. Que seja sofrer o mínimo possível. Lembro da filha que perguntava o tempo todo à sua mãe – em fase terminal – o que ela mais queria vestir, comer, beber, ouvir e fazer.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

SIM – A FELICIDADE É POSSÍVEL

Bom seria se conseguíssemos nos esvaziar de tudo. Penso que este é o verdadeiro segredo da felicidade: usufruirmos das coisas como elas são e não como gostaríamos que elas fossem. Imagina se conseguíssemos suspender nossos pensamentos de tudo e de todos? Imagina se conseguíssemos nos abrir ao mundo como ele é em sua essência. A felicidade é vazia. A felicidade é ignorante. Só os bebês sabem a verdadeira linguagem da felicidade – porque vivem na intensidade natural da vida. Só os bebês sabem sobre o amor – porque não o julgam. Tanto que não sofrem quando não são amados – viram para o lado e começam a brincar de outra coisa. Não existe diferença entre estar só e acompanhado. Posso não ter alguém, no entanto, estou envolto ao ar, à luz, aos cheiros, aos sons e aos gostos. As pessoas são só mais um elemento do todo. Ter uma pessoa deveria ser a mesma felicidade de ouvir uma boa música ou contemplar a paisagem da janela. É bom viver assim, porque na ausência de quem gosto, posso me contentar ouvindo Caetano cantar Odara, por exemplo. Na verdade, tudo possui, em si, alguma beleza. É o pensamento que hierarquiza. É o pensamento que angustia. Pensar, empobrece a nossa felicidade. É por isso que entramos em desespero quando nos falta aquilo que seria a nossa única felicidade. Tudo tem que ser a felicidade – inclusive o fato de que vamos envelhecer e morrer. Sofrer não leva ninguém a lugar nenhum. Sofrer, só piora. Quem disse que todos que estão acompanhados – agora – estão felizes por isso? Quem disse que a solidão do quarto não pode ser a mesma felicidade de uma multidão em um baile funk? Não é o lugar que é alegre. Aliás, lugar não tem sentimento: a alegria é de quem o compõe. O mundo é todo belo: basta reparar. Gosto de quem enxerga o todo. Gosto de quem luta alegre. Prefiro quem enfrenta feliz. Fico feliz, apesar de tudo, quando vejo um morador de rua tomando banho nas fontes da Praça da Liberdade.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO GOSTO DE LIVRO DE AUTOAJUDA

Não gosto de livro de autoajuda. Não gosto de mensagem motivacional. Não gosto de frase de efeito. Não gosto de ser iludido. Não gosto disso que promete uma zona de conforto que nunca existiu. Prefiro o que me traz para dentro da realidade – de forma nua e crua. Posso até divulgar uma corrente de felicidade – com a condição de que ela leve em conta tudo o que emperra essa tal felicidade. Toda autoajuda é ingênua e ilusória. A vida é muito mais complexa que qualquer frase bonitinha. A felicidade é – também – contextual. É inútil dizer que a vida é bela, sem combater o que detona as belezas da vida. É inócuo dizer a um negro que a felicidade só depende dele, sem criar nenhum enfrentamento contra o racismo. É inútil alguém se achar maravilhoso esquecendo o fato de que se está – também – envelhecendo e morrendo a cada segundo. Prefiro começar pela verdade – sempre. É cem por cento certo de que não seremos jovens a vida toda. O desejo visa – quase sempre – esconder a realidade. Temos que dar conta de desejar trazendo a realidade junto. Toda autoajuda diz ser real o amor que sonho para mim: nunca serei amado como eu quero. Toda autoajuda sobrevive da falsa promessa de felicidade, superação e prosperidade. Não estou dizendo que não acredito na alegria de viver. Acredito, sim, com a condição de que essa alegria não propague que só depende de mim ser alegre. Tenho que ser feliz consciente de que a infelicidade não é só um problema subjetivo. Ninguém consegue rir desempregado ou passando fome. Existe – sim – uma sociologia da infelicidade. Também, tenho que ser feliz consciente dessa infelicidade que me é imanente e imutável. Tenho que ser feliz implicando essa infelicidade em mim. Tenho que ser feliz tomando como sendo minha essa infelicidade que me é constitutiva. Ou seja, tenho que ser feliz carregando essa infelicidade – que me é enigmática e insuperável. Não nascemos felizes. Há uma infelicidade produzida pelo contexto social e há uma infelicidade existencial que nos é inevitável. Os livros de autoajuda ignoram essas infelicidades. Portanto, os livros de autoajuda vendem uma felicidade fruto apenas da nossa força de vontade. Essa felicidade é um engodo. Ou seja, essa felicidade nunca existiu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VIVER DE VERDADE NÃO É FÁCIL PARA NINGUÉM

Podemos escolher entre a maçã e o pêssego. Podemos escolher se vamos sair ou não. Podemos escolher se queremos ficar com esta ou com aquela pessoa. No mundo real, podemos evitar – sim – certos desprazeres. Ao contrário, do que acontece no mundo existencial. Nele, não há desvios. Nele, temos que nos submeter. Nele, nosso poder é zero. No mundo real, ainda podemos gozar de alguma arrogância. No mundo existencial, só nos resta a humildade. Há diferenças estéticas, econômicas, políticas e sociais no mundo real. No mundo existencial, terminaremos todos iguais – sem nada. O mundo existencial é lugar das certezas: não posso escolher ficar jovem a vida toda. Não posso escolher não morrer. O mundo existencial foi feito para maneirar nossa prepotência no mundo real. Contudo, esquecemos do que nos espera. Esquecemos que o que nos espera, já está em curso. Esquecemos que o que nos espera, pode chegar agora mesmo. O mundo existencial é inesquecível – porque chegará para todos. Vivemos um mundo duplicado, dividido e separado. Não sabemos viver o todo. É por não sabermos viver plenamente, que entramos em pânico ao sermos surpreendidos pelo que não esperávamos. Só esperamos um lado. Queremos que a vida seja só a maçã que escolhemos no lugar do pêssego. Não é. Existencialmente, teremos que engolir o que não queremos. Somos imaturos para viver existencialmente: parecemos criancinhas quando são tomadas de seus pirulitos. O depressivo não deixa de ser uma espécie de triste por não ter se preparado para o outro lado da vida. Deve ser por isso que estamos vivendo uma epidemia de doenças psiquiátricas. Parece que estamos confundindo existir com o que se passa quando estamos de frente para uma vitrine de uma loja de grife.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM TEM O DIREITO DE INTERFERIR NO AMOR DE NINGUÉM

Ninguém pode interferir na forma como qualquer pessoa decidir viver seu amor. Não importa se for mulher com homem, mulher com mulher, homem com homem, vários homens com vários homens, várias mulheres com várias mulheres ou vários homens com várias mulheres. Ninguém pode interferir na forma como qualquer pessoa decidir viver seu amor – porque o amor é condição de possibilidade para tudo o mais. Se há amor, tudo pode. O amor tudo sustenta. O amor delimita. Se há amor, não há violência. Se há amor, há consentimento. Se há amor, há consciência. Se há amor, há cuidado. Se há amor, há responsabilidade. Ninguém pode é viver sem amar: viraríamos bichos. Até para desamar, temos que supor algum amor. Até para fazer guerra, as nações supõem uma ética. Não importa o que as pessoas estejam fazendo com seus corpos e afetos. Importa se há amor no que estão fazendo. Importa não a quantidade, mas a qualidade. Importa não forma, mas o fundamento. Importa não a aparência, mas a essência. Só fazemos bem feito com amor. O mais importante é o verdadeiro amor. Muitos julgam pela aparência para não se renderem à essência. A essência é o fim. Depois da essência, nada mais há. Quem enxerga a essência, relaxa, respeita ou se entrega. O amor é a verdade de tudo. O resto é ignorância e preconceito. O resto é frustração e recalque.

Evaristo Magalhães – Psicanalista