O QUE É A PAZ?

A psicologia compreende a mente como composta de percepções, pensamentos e imagens. Não é só isso.

Pouco sabemos do mental. Creio existir mais espaços de silêncio que de ideias em nosso intelecto.

Não sabemos cultivar nosso silêncio mental. Temos pânico do nada. Não suportamos o vácuo. Necessitamos de barulho para existirmos. Tudo que não é movimento, soa-nos meio desesperador.

Não é na confusão de ideias que está a nossa paz. Não é na agitação mental que descansaremos. Nossa calmaria está no ponto onde cessa todo a nossa eletricidade psíquica.

Precisamos aprender a cultivar a parte imóvel de nós.

Ninguém nunca é. É o maior engodo querer se descobrir buscando a razão de si. As palavras não são as coisas. A palavra “casa” é outra coisa diferente do objeto casa.

Pensar sobre si não é o melhor modo de saber sobre si.

Ninguém tem a última palavra sobre qualquer coisa.

Não tenho dúvida que a angustia e a ansiedade só apareceram para a humanidade no dia em que começamos a pensar.

Pensar é infernal. Quem algum dia chegou a algum pensamento definitivo?

Portanto, estamos no caminho errado da paz que tanto almejamos. A paz é desprender-se da arrogância de tudo querer saber. A paz é silêncio.

Não há duplo sentido para o silêncio. Não há o silêncio do silêncio. Não há antes e depois do silêncio. O silêncio não tem lados. Não tem tamanho, peso, cor, forma ou gosto. Não há começo, meio e fim do silêncio. O silêncio é – simplesmente. No silêncio tudo cessa. Deus deve ser o silêncio. A eternidade deve só ser.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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NINGUÉM MAIS FICA PARADO E OLHANDO O TEMPO PASSAR …

É uma pena que quase ninguém fica parado e olhando para o tempo.

Lembro bem da minha mãe fazendo almoço. Enquanto a água do arroz secava, ela ia para a janela olhar para o nada.

Hoje, ninguém mais olha para o infinito. Qualquer tempo de espera é tomado pelo celular.

Todos estão com a cabeça para baixo. Em breve, teremos toda uma geração que perdeu a beleza de contemplar a imensidão do espaço.

Ninguém se perde mais em seus devaneios. Ninguém viaja no vácuo. Todos – tensos – procurando não se sabe o quê nas redes.

Fora os muito idosos. Fora os que não sabem ler. Fora os que não enchergam muito bem. Estes – sim – ainda vagueiam em seus pensamentos.

Mesmo na Praia. Na barraca. De frente para o mar. Ninguém mais aprecia infinito marítimo. O barulho das ondas. Ninguém levanta a cabeça e abre o peito para sentir a brisa do mar.

Ninguém mais relaxa com o silêncio. Ninguém olha para o nada.

Não mais divagamos em nossos pensamentos.

Talvez isto explique porque estamos tão agitados.

Relaxar é meio que se entregar ao nada. É meio que se perder no infinito. É meio que se deixar levar.

Ninguém mais dorme acordado. Ninguém mais vê o dia. O sol. O meio e o fim. O detrás e o da frente. O do lado. O entorno. O mundo virou lugar de ponto fixo. Não sabemos mais o que é ter vários olhares.

Talvez – e por isso mesmo – estejamos tão desatentos à dor do nosso próximo. Ficamos insensíveis. Frios. Viramos gente-máquina. Não nos desacoplamos de nossos objetos luminosos.

O problema é quando precisarmos de alguém que olhe para a nossa dor. Ninguém o fará. O pescoço de todos vai estar calcificado de ter permanecido por tanto tempo em uma mesma posição.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ SABE DESCANSAR A SUA MENTE?

Temos uma tendência em achar que o que não tem sentido não serve para nada. Doce ilusão! O que não tem sentido tem tanta valia quanto o que tem sentido. Só nos desligamos no que não tem sentido. Não precisamos prestar a atenção. Não precisamos pensar.

Deve ser por isso que estamos tão estressados. Somos uma civilização da fala. Mesmo a sós continuamos conversando com as pessoas dentro de nós mesmos. Pouco desligamos. Quase não dormimos.

Somos uma civilização do que só tem sentido. Não nos ocupamos do que não tem sentido. Para nós só serve se tiver algum entendimento. Se tiver alguma troca. Alguma comunicação. Fora isto, é tudo bobagem, loucura ou perda de tempo.

Não é bem assim. O que não tem sentido é o contraponto do que tem sentido. Do mesmo modo que precisamos dormir para sermos produtivos. Que precisamos comer para nos sentirmos saciados. Precisamos – também – experimentar o que não tem sentido como uma forma de descansar o nosso mental.

Na verdade, nunca concluímos o que tem sentido. É por isso que pensamos até quando deveríamos descansar o pensamento. Fora que o que não falta é coisa para pensar.

No entanto, não existe melhor remédio para a nossa saúde psíquica que descansar o nosso mental. E só descansamos a nossa mente cessando o movimento de buscar o sentido de tudo.

Como podemos fazer isto? Pensando no que não tem sentido. Olhando e escutando o que não nos exige qualquer esforço intelectual. Por exemplo, ao invés de pensar enquanto estamos a sós, deveríamos nos atentar para os barulhos presentes em nosso entorno. Por exemplo, sons de vozes ao longe, o barulho do vento, o movimento dos galhos das árvores, o canto dos pássaros, os diferentes sons da cidade, da rua, do vizinho. O latido dos cães. O próprio silêncio. Tudo isso tem alguma beleza. Tudo isto relaxa porque não nos chega como um problema. São sons e barulhos distantes. Não doem nossos ouvidos. Nunca se repetem do mesmo modo. Não exigem de nós qualquer esforço intelectual ou qualquer trabalho de compreensão. Portanto, não nos geram angústia e nem ansiedade. Só nos relaxam porque imobilizam o nosso mental.

Se para tudo existe um contraponto, porque não pode existir um contraponto para a eletricidade mental?

Evaristo Magalhães – Psicanalista