FAZ SENTIDO VIVER?

Viver é sem conteúdo. Alguém sabe o que será de si? Não. Somos vazios de sentido.

Uma vez sem conteúdo, o que temos? Temos a forma. O sentido é a forma, o vácuo e a liberdade.

Tenho preguiça da assepsia científica quando acha que possui a verdade.

A ciência se diz séria. Por isso não brinca, não sente, não sorri e não ousa. A ciência quer expulsar o vazio.

A ciência crê em algo com consistência. Pode até ser.

Quanto ao vazio, só podemos a forma.

É óbvio que nos sentiríamos mais seguros se tivéssemos um ponto fixo. No entanto, correríamos o risco da monotonia desse ponto.

O vazio angustia? Sim. Mas, nele não temos um fim à atingir. Temos o caminho. Temos o usufruto. Temos o agora. Com qual finalidade? Melhor não querer saber.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TENHO COMPULSÃO PELAS ARTES?

Sempre nos definimos pelo que temos de melhor. Ninguém quer se mostrar feio, limitado intelectualmente ou desprovido de alguma riqueza material.

No entanto, nenhuma beleza é completa, ninguém possui a verdade e tudo o que somos ficará para trás. Portanto, somos, também, o pior.

Deprimimos porque não nos admitimos finitos.

Mas, não seria bizarro demais alguém se definir por suas feiúras? Sim.

É por isso que precisamos encontrar um modo de trazer o que não somos para o que somos. Caso contrário, corremos o risco de passar a vida inteira lutando contra o que é inelutável.

Como podemos fazer isso? Como podemos contrabalancear o que temos de melhor com o que temos de pior? Pela poesia e pelas artes.

Gosto dos artistas porque dão conta de integrar – na forma de versos, teatros, pinturas e melodias – alguma beleza ao que tanto tememos.

Nas artes, o pior não é negado como nas ciências e nas religiões. Muito pelo contrário, toda a beleza das cores, dos gestos e dos sons estão integrados ao que mais me desespera em mim. É por isso que, pelas artes, posso me ver sem entrar em pânico comigo.

Deve ser por isso que os artistas são tão perseguidos. Eles têm o incrível poder de mostrar a verdade sem que ninguém precise de se entupir de antidepressivos para suportá-la.

Viva a arte! Viva os artistas!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE FRACASSAMOS NO AMOR?

O motor do amor não é o sexo, as ideias, o corpo e os afetos.

O que move o amor não é o que aparece logo de cara.

O amor não é só o que se apresenta. Não é se o outro transa gostoso, é bonito ou inteligente que irá determinar se meu amor dará certo.

O que irá determinar se terei sucesso no amor é o que está invisível no amor.

Sabemos muito pouco do amor. Só associamos nossas vitórias e fracassos ao que o outro fez ou disse. O amor não é nada disso.

Levamos para nossos amores o que – sequer – sabemos sobre nós mesmos. É esse estranho de nós que determinará se seremos felizes ou não em nossos relacionamentos.

Esse outro lado esquisito de nós mesmos nunca fica de lado de tudo o que fazemos na vida. Ele é o motor que determinará se sairemos bem ou não no amor, no trabalho e em nossas amizades.

Não é autoconhecimento saber de suas ideias, de sua virilidade e de suas características físicas.

Saber de si é ir de encontro ao que está depois de si. É ir de encontro ao osso de si.

Só estaremos preparados para amar quando dermos conta de quem somos depois de tudo que achamos que somos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO ME INTERESSA OS AMORES QUE DÃO CERTO …

Não me interessa os amores que dão certo.

Acho bonito os casais de mãos dadas, as conversas compenetradas, os risos, os abraços, os beijos, os sarros, as pegacões e as transas safadas.

Não me ocupo do que sabemos sobre o amor. Quem dera se a vida fosse só o contorno que damos para ela?!

É importante marcar um limite? É necessário estar certo do que seja amar? É fundamental cumprir certas promessas? Sim. No entanto, o amor nunca é só isso que colocamos dentro dele. Se assim fosse, não brigaríamos por amor.

Me interessa o que deixamos de fora do amor. Não sei ao certo de que se trata isso.

Sei que é o que nos faz sofrer. Sei que sem isso seríamos eternamente felizes.

Não me interessa o amor que vejo. Quero o que do amor não vejo. Quero entender por que os casais surtam, por que vão atrás, por que se humilham, por que mandam centenas de mensagens, por que se chantageiam e por que se matam por amor.

Que será essa coisa estranha que atravessa todos os casais? É isso que me interessa estudar no amor.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM FALA SÓ PELA BOCA …

Você acha que só falamos com a boca? Não. Quem dera se conseguíssemos expressar tudo em palavras?

E o que não sai pela boca, sai por onde? Pelo corpo.

Nosso corpo não fala, ele berra.

Se pudéssemos transpor nossas ansiedades para a voz, imagina quão enorme não seria nosso grito?

A boca do corpo tem o nome de dor, tremor, tensão, contração, paralisia e vícios.

Imagina se uma angústia pudesse falar? Imagina a confusão das tantas bocas de uma fibromialgia falando ao mesmo tempo? Imagina um suicida transpondo para a fala seus impulsos mórbidos? Imagina um obeso mórbido trazendo para a palavra toda a sua loucura diante de uma pizza bem suculenta?!

Deveríamos espalhar bocas por todo o corpo. Por que não espalhamos? Porque isso que foi para lá é sem palavras. Nada seria dito se colocássemos uma boca em nosso peito contraído de pavor.

São enigmas que todo ser humano carrega.

O que vamos fazer com isso? Às vezes adoecer pode não ser tão ruim assim.

Evaristo Magalhães – Psicanalista