AO APAIXONAR, ESQUECE ESSA HISTÓRIA DE QUE VIRILIDADE É TUDO …

Quando você apaixonar, não atente-se para as qualidades do outro. Esquece essa história de dinheiro, estética, intelecto e virilidade. Não atente-se para as vantagens e vitórias que ele te contar.

Para a psicanálise, fazemos isso para não fazer aquilo. Dizemos isso para não dizer aquilo. Usamos de nossas forças para recalcar nossas fraquezas. Ou seja, acreditamos na nossa própria mentira e enlaçamos nela todos os nossos amores inocentes.

Não é só o que vê e o que se ouve que faz um grande amor. Quem dera!

Somos perda. Estamos perdendo. Vamos perder. Muita ambição, vaidade, arrogância e muita virilidade pode ser sinal de uma dificuldade crônica para lidar com as decepções.

De modo geral, quando uma pessoa reage de forma agressiva contra uma contrariedade qualquer, no fundo, ela pode é estar se defendendo da sua falta de maturidade para lidar com as contrariedades próprias da sua vida.

Pode acontecer de projetarmos no externo nossas dificuldades internas.

Portanto, ao se apaixonar, atente-se não para o que o outro diz dar conta. Atente-se para as suas limitações. Atente-se para as suas falhas. Se ele conduzir bem as situações limites, vá em frente. Isto é um bom sinal de que ele é uma pessoa bem resolvida com suas próprias questões. É um ótimo sinal de que não projetará em você o que ele não dá conta em si.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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DESEJAR DEMAIS PODE SER UM GRANDE PROBLEMA …

Freud fala do mal-estar na cultura. O que provoca o mal-estar? A ilusão. A cultura é uma ilusão porque é plural.

É angustiante tudo o que é mais de um. Tudo o que pode não ser apenas isso. É angustiante tudo o que não é consenso.

Há várias concepções. Há uma infinidade de textos sobre uma infinidade de assuntos. A gastronomia não é só o arroz com feijão.

Melhor seria a literalidade. Melhor o que não tem vários lados. Melhor a letra e não a palavra. Melhor o UM e não o dois ou o três. Melhor o que não me faz desejar.

A questão é que o literal é, por exemplo, de uma cor só. De uma única forma. Um só som. Um sabor. Um conceito. O literal é. Por isso, ele não me angustia. Não me deixa ansioso ou deprimido. Ele não tem futuro. Não me incita. Não me excita. Não me provoca. Ele é o aqui e o agora. Fico nele. Sem pensar. Sem divagar. Sem delirar. Sem fantasiar. Sem sonhar.

Nele sou sem querer ser mais. Ele me contenta. Não o julgo. Não o comparo. Não o questiono.

Devo me apaixonar por ele. Tudo o que é múltiplo é doloroso porque me torna insatisfeito.

O melhor seria gostar como se não existisse outros.

A natureza vive na literalidade porque não tem consciência. Bonito não é Schubert porque existe Bach e tantos outros. Pensar é angustiante porque não existe o pensamento do pensamento. Nunca é só isso. Nunca sou o que sou.

Gozamos com o chocolate que temos e sofremos pelo chocolate que gostaríamos de ter.

Precisamos aprender a gostar sem desfazer do que temos. Precisamos dormir sem achar que dormiríamos melhor se tivéssemos isso ou aquilo. Precisamos amar sem achar que amaríamos melhor se ou outro fosse assim ou assado. Nosso querer não deveria partir do que nos falta. Deveríamos ser insatisfeitos sem tocar na nossa insatisfação. O que não tenho deveria ser completamente independente do que tenho. É quase como se quiséssemos gozar mais não porque estamos gozando de menos.

Fora isto, cairemos no vácuo da eterna angústia e viveremos de um futuro que nunca será.

A imbecilidade é um problema porque é ignorante da diversidade. No entanto, a inconsciência da falta torna a vida menos afoita, ansiosa ou angustiante. Infelizmente, para a nossa sanidade mental, temos que aprender a oscilar entre a loucura que é a nossa humanidade e a tranquilidade de um lírio do campo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O BRASIL IMBECILIZOU?

A palavra justificativa vem de justificar, fazer justo, tratar com justiça. Penso que no Brasil, neste momento, perdemos a capacidade de justificar.

Uma pessoa aparece nas redes sociais como torturado durante a ditadura militar por defender ideais comunistas. Em princípio, a relação entre torturar e ser comunista é completamente estapafúrdia. Há quem ache justo. Não é. O justo supõe proporcionalidade. A proporção em relação à uma ideia é outra ideia – no máximo – oposta à ela. O equilíbrio é combater uma ideia com outra e não emudecer – de vez – o seu interlocutor.

Para qualquer ideia devo, sim, mostrar minhas razões. Meu modo de pensar. Estabelecer uma interlocução, um contraponto, um debate ou questionar as bases da argumentação expostas pelo meu suposto opositor.

Não é justo torturar e matar quando a questão é da ordem do pensar. Fora que nada pode ser comparado à força violenta do Estado.

Do mesmo modo, não é justo assassinar a companheira uma vez que ela decidiu não dar prosseguimento ao relacionamento. Ou assassinar por traição. Matar, só é válido, em condições muito particulares. Em legítima defesa, por exemplo.

Nada justifica comemorar a morte de qualquer pessoa porque é de esquerda ou de direita. Não justifica tirar a vida de quem quer que seja porque é negra ou LGBT.

Estamos desistindo da palavra, do pensar e da reflexão.

Elaborar aplaca o ódio. Compreender direciona a ação. Pensar antes de agir confere valor à ação.

Parecemos bichos agindo por impulso. Parecemos idiotas vomitando tudo o que vem na cabeça. Parecemos imbecis reverberando ideias alheias – e sem qualquer filtro.

A razão precisa suplantar a emoção. Não a emoção boa. Mas, aquela violenta, impulsiva, odiosa, agressiva e assassina. Estamos descontrolados. Parece que perdemos as referências de agir bem. O primeiro passo é trazer para a palavra os motivos que nos fizeram perder a palavra como a nossa maior norteadora. Ou seja, usar da palavra para tentarmos entender porque estamos deixando de usar a palavra.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NA VIDA, NADA É CEM POR CENTO…

Ninguém é cem por cento amado. Não existe felicidade plena. Nunca seremos compreendidos como gostaríamos. Sempre faltará algo. A questão é o que fazer com esta falta.

Não adianta exigir um amor que não existe. Uma felicidade ilusória. Uma compreensão impossível.

Há o que nada e nem ninguém pode fazer qualquer coisa por nós.

Há a falta e há o outro. Queremos que o outro supra a nossa falta.

No entanto, não existe conexão completa entre o que desejamos e o que o mundo pode nos dar. Sempre ficará um resto. Uma sobra. Um vazio. Um nada. Há aquele que no desespero de sua falta cisme de inventar doenças para trazer a atenção dos outros para si. Há quem use de chantagens. Há quem use de agressividade. Há quem mata e se mata por não ter tido o que esperava.

A questão é que sempre esperamos do outro a nossa salvação. A questão é que só nos serve se for completo e eterno. Nunca será. E – também – não adianta esperar a plenitude do outro – uma vez que ele – sequer – a possui para si mesmo.

Esta falta é minha. É de cada um. Cada um terá que encontrar um jeito de se fazer com ela. Espera-se que se faça bem feito.

Evaristo Magalhães – Psicanalista