POR QUE AINDA PREFIRO O LULA?

Em certo sentido, a filosofia nos fez muito mal com sua obsessao pela verdade.

A realidade é muito diferente do que dizem os filósofos.

A realidade é diversa.

É nesse sentido que eu ainda prefiro os governos do petê que qualquer outro que já tivemos no Brasil.

Não estou dizendo que não tenho criticas às gestões Lula/Dilma. No entanto, nunca acreditei em purismo ético quando me deparo com a convivência entre duas ou mais pessoas. Pode tudo acontecer – em menor ou maior grau – quando nos relacionamos: decepções, agressões ou traições. Não nos sabemos inteiros.

Somos contraditórios. Não enxergamos tudo ao mesmo tempo.

Acho uma ingenuidade julgarmos qualquer gestor pelo critério da honestidade. Ninguém é cem por cento honesto. Nunca existiu e jamais existirá essa tal honestidade que tanto propalamos.

Isso significa que podemos ser desonestos? Claro que não!

O petê foi desonesto? Claro que sim. O bolsonaro é desonesto? Não tenho qualquer dúvida disso.

No entanto, não podemos avaliar ninguém por esse critério. Não podemos exigir que as pessoas sejam – na prática – idênticas à algo que só existe enquanto ideal.

Nesse contexto, quando comparo a desonestidade e a catástrofe gestora do governo bolsonaro com a desonestidade e os avanços sociais que tivemos nos governos do petê, eu ainda prefiro este último.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NECESSITAMOS DA PRESENÇA DO OUTRO EM NOSSAS VIDAS?

Somos dois outros. Um que está ao nosso lado e outro que diz que vamos envelhecer e morrer.

O primeiro nos apazigua e o segundo nos apavora.

Por que precisamos mais do primeiro que do segundo? Não sobreviveríamos sem nossos amigos, amantes e familiares.

Inventamos histórias para tentar ludibriar o fato de que somos finitos. Existem milhões delas e outras tantas estão sendo -diariamente – criadas e recriadas.

Não sobreviveríamos sem ao menos um outro para nos dizer que nossas histórias fazem algum sentido.

Qualquer história é uma espécie de verdade que nos estabiliza nesse mundo louco. Nenhuma pode ser tomada como sendo mais verdadeira que a outra.

Só não podemos cismar de criar histórias que coloquem nossas vidas e a vida dos outros em risco.

Quantos, agora, não estão se auto-mutilando? Quantos não estão desistindo de viver? Quantos não estão imersos em uma depressão profunda? Quantos não estão se drogando?

Precisamos escutar mais as pessoas para que inventem suas próprias histórias. Caso contrário, podem desistir das ilusões e adentrarem no abismo da vida real.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É O INCONSCIENTE?

O inconsciente é que retorna desarticulando. É o sonho gay do homem hétero. É o pânico de morrer chamando para usufruir mais da vida. É o espelho dizendo não resolver se entupir de maquiagem. É a angústia dizendo ser preciso inventar algo.

Podemos reagir frente ao nosso inconsciente criando ou adoecendo sobre ele.

Nesse sentido, o inconsciente é – também – o homem hétero que se torna homofóbico depois de seu sonho gay. É o suicida que se adianta à sua própria finitude. É o compulsivo por cirurgias plásticas. É o depressivo fechado em um quanto escuro.

O inconsciente é o fato de que não abarcamos tudo. Ele é o depois que pode não ser o que esperávamos. Ele é a prova cabal de que não somos absolutos.

Ele transborda à toda inteligência. Ele é mais que qualquer conta bancária. Nenhuma beleza o suplanta. Nenhum poder o contém.

Ele é incontrolável. É inevitável. Ele vai aparecer – quer queiramos ou não.

Ele é o diagnóstico que nos impacta. É a péssima notícia. É o mal-estar que não esperávamos.

O inconsciente são as palavras que temos pavor. São as palavras que ainda não foram inventadas. É o que pode nos pegar com as calças nas mãos.

Ele é quando não estamos entendo. É o que não sabemos. É o vazio e o nada.

Ele só será um inimigo se não soubermos o que fazer com ele. Não deveríamos fazer com desespero, depressões, melancolias, agressões, dores e paralisias.

O inconsciente é o vácuo. Temos que inventar sobre ele ou simplesmente carregá-lo – e sem saber de que se trata.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ É VICIADO EM PESSOAS?

Não é de pessoas que somos viciados.

Primeiro o pensamento, depois o objeto.

Nossos vícios, antes das drogas das pessoas ou do álcool, são uma narrativa. É desse raciocínio que precisamos nos livrar.

Não somos compulsivos por coisas ou por pessoas. Somos compulsivos por ideias.

Os animais não sofrem porque não possuem uma narrativa da morte.

Sofremos porque tatuamos certas narrativas em nossos ossos e não conseguimos nos livrar delas.

Nossos pais, filhos e amigos são antes de tudo palavras e pensamentos que incutimos em nós.

É por isso que fazemos psicanálise para falar das nossas narrativas de dor. Os analistas as escutam em silêncio até que se desgatem ou esgotem.

Se seremos curados ou não, vai depender do que irá acontecer depois desse silêncio.

Espera-se que aconteçam apenas coisas boas!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TEM GENTE QUE NUNCA SE ENXERGA?

Conseguimos associar algo que comemos com nosso mal-estar digestivo.

Conseguimos associar a forma como dormimos com aquele desconforto muscular que aparece no dia seguinte.

Ou seja, quando é físico damos conta – facilmente – de identificar a causa.

E quando é emocional? Por que nunca sabemos os motivos de nossas manias, revoltas, angústias e ansiedades?

Na verdade, não sabemos porque o que está por detrás de nossos dramas tem a ver diretamente conosco.

Me ver físico é fácil. Tomo um antiácido e logo meu estômago volta a funcionar. Tomo um relaxante e minha dor passa rapidinho.

E quanto aos meus sentimentos? Por que os temo tanto? De modo geral, tenho pânico do que sinto porque minhas manias, revoltas, angústias ansiedades podem estar relacionadas com sentimentos que eu não gostaria de ver em mim.

Freud fala que sentimentos que nos são insuportáveis podem ser deslocados ou condensados em coisas que nada têm a ver com eles.

Posso ter a mania – por exemplo -de verificar a maçaneta da porta muitas vezes e isto estar relacionado com algo perturbador da minha sexualidade que uso – esse ritual – para me punir ou extravasar.

Este é só um exemplo.

Não tenho dúvida de que a forma como nos comportamos diz muito de nós mesmos.

Só nos falta coragem para enxergar.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM TEM A VERDADE …

A questão é quando você quer anular a sua verdade.

A religião anula a sua verdade. A ciência e a filosofia, também.

A sua verdade é que você não tem verdade.

Você se torna arrogante quando se adere à qualquer dessas supostas verdades.

A questão é que nada suplanta o que – de fato – somos.

Toda verdade suprimida sempre retorna.

Quanto maior o medo da verdade, maior a arrogância como forma de mascaramento desta. É por isso que muitos enlouquecem.

Todo dono da verdade é um covarde de si.

A humildade é a verdade da vida!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NÃO GOSTO DE CERTAS PSICOLOGIAS?

Acho ridículo quando a psicologia vende a ideia de que existe uma lógica para nossos problemas existenciais.

Mais ridículo ainda é quando os bobinhos saem correndo para comprar esse equívoco.

É como se a psicologia pudesse ter uma solução para o fato de que vamos envelhecer e vamos morrer. Doce ilusão!

É como se ela pudesse ter uma teoria definitiva sobre o amor ou sobre os conflitos humanos. Faz-me rir!

Quem dera se existir fosse literal!

O que é a vida? O que é o amor? O que é a felicidade? Terminará em impasse qualquer teoria que elaborarmos sobre quaisquer desses assuntos.

Penso que o papel da psicologia é acolher esses impasses – e sem dizer que possui uma receitinha para qualquer coisa.

Nosso papel é escutar o outro até que seu dizer adquira o sentido de um antes e de um depois.

Psicólogo existe para fazer o sujeito deslizar de um depois à outro depois – e assim sucessivamente.

Espera-se que o depois apresente alguma mudança em relação ao que foi dito antes.

Mas isto, só quem pode decidir é o próprio sujeito.

Evaristo Magalhães – Psicanalista