QUAL É O SEU TIPO DE AMOR?

Existem três tipos de amor: o amor palavra, o amor letra e o amor traço.
(1)O amor palavra é o mais bem resolvido – porque é o mais racional de todos. Sendo o mais pensado, não cobra e não sufoca. Ama sabendo da possibilidade de ser desamado. Ama em usufruto. É o que mais se ama. É o que mais se basta. O outro vem para compartilhar – e não para completar.
(2)No amor letra o sentido é mais restrito. Espera-se mais do que o amor pode dar. Ama mais o amor fantasia que o amor realidade. Cobra do amor uma parte que deveria ser de quem ama e não de quem é amado. É limitado para a solidão. Costuma desequilibrar na eminência da perda.
(3) O amor traço é o mais problemático porque quase não possui controle de si. Não obstante, pelo traço, ainda resguarda alguma pulsão de vida. O traço quase não cobre os desesperos de quem ama. O que o traço não sutura, transborda em destemperos de amor. É o mais comum neste nosso tempo líquido – caminhando para um amor sem nada. Neste, tudo pode acontecer.
Evaristo Magalhães – Psicanalista
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A vida não é um shopping center …

 

Podemos – e devemos – combater o frio, a fome, a violência, as injustiças sociais e a ignorância.

Não podemos é combater quem somos. Infelizmente, confundimos a nossa sobrevivência física com a nossa existência.

Quanto ao corpo, necessitamos – sim – de agasalho, alimento e tratamento para as nossas doenças. Quanto à alma, não adianta combater.

A sociedade de consumo, depois de nos tirar a autonomia sobre a produção de nossa própria sobrevivência, resolveu lucrar nos iludindo com objetos que supostamente – resolveriam nossos dilemas existenciais. Tanto isto é verdade que a maioria das propagandas associam seus produtos com pessoas como se todos os problemas da vida estivessem resolvidos.

A vida não se reduz a ir ao mercado, a ter um corpo bonito e a ter muito dinheiro.

Nossa sociedade não nos permite vivenciar a verdade que somos. Ela nos entope com produtos de toda ordem. É por isso – talvez – que estejamos vivendo uma epidemia de depressão. Nenhum produto supre quem somos. Nenhuma rede social cura nossas angústias.

Quem somos? Somos o infinito. Não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Ninguém tem a última palavra para quem somos.

Portanto, nada que nos é exterior pode suprimir o que somos em nosso interior. Ninguém pode inventar quem somos: isto é de cada um. Desse modo, é revolucionário ser quem se é – porque coloca o capitalismo no lugar de onde ela nunca deveria ter saído.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Ninguém é feliz no capitalismo …

 

Se vai ter comida amanhã não deveria ser preocupação de nenhum ser humano.

Só seremos – de fato – felizes o dia em que o fantasma do risco de não sobrevivermos – fisicamente – deixar de nos assombrar.

Nessa perspectiva, podemos afirmar que não existe felicidade no capitalismo.

Poderíamos até não nos preocupar se pudéssemos contar com o outro caso perdêssemos os meios garantidores da nossa existência biológica. No capitalismo, não podemos: é cada um por si.

Portanto, nenhuma felicidade é possível quando se está atordoado pelo pânico do desemprego e pelo medo de perder o que se levou uma vida toda para conseguir.

Diríamos que, no capitalismo, a felicidade só se dá em pequenos intervalos – mesmo entre os muito ricos.

A verdade é que passamos grande parte de nossas vidas preocupados em acumular para garantirmos que nosso padrão de vida permaneça sempre o mesmo – ou melhore.

É só de vez em quando que paramos para comemorar a vida. Mesmo assim, dificilmente não levamos esta parte – sempre insegura do nosso viver – para nossos momentos de lazer.
Quanto a isto, basta observarmos os olhares de frustração, medo e melancolia dos bêbados dos bares das cidades.

Nossa alegria não é desprovida de dor. Nosso sexo parece mais uma prova de que se o “estupro” é inevitável é melhor relaxar e gozar.

Não sei se existe amor no capitalismo. Não sei se é possível gozar no capitalismo. Também, não sei se é possível gozar em uma sociedade em que a sobrevivência esteja garantida, mas a liberdade de criar sobre o próprio gozo é uma liberdade condicionada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Por que não acredito em psicoterapia?

 

Não é pelo pensamento que descobriremos quem somos.

É mentira quando dizem que no mais profundo de nós existe uma palavra que nos define com exatidão. É enganação essa história de introspecção. É falsa essa história de autoconhecimento. Não entre nesse engodo de que você pode encontrar seu verdadeiro eu. Não jogue seu dinheiro fora com essa bobagem de ser autêntico.

Saberemos quem somos – exatamente – quando pararmos de querer saber quem somos.

As palavras não são as coisas. A palavra maçã não é o objeto maçã. Sabemos muito mais quando pegamos, mordemos e saboreamos a maçã, que quando pensamos ou falamos sobre ela.

Portanto, jamais saberei quem sou me perguntando por mim. Penso que só saberei quem sou quando eu me permitir me sentir mais que querer me conhecer.

Saio de mim quando penso sobre mim. Saio de mim quando falo de mim. Crio outro de mim quando penso ou falo de mim. O pensar é racional, lógico, frio e desencarnado.

Devo cessar de pensar sobre mim e me voltar para mim. Ao me voltar para mim me descobrirei em minhas sensações, fruições, pulsões, sabores, texturas e sons.

Devo cessar de pensar sobre mim e me voltar para tudo que me atravessa. Devo me voltar para o outro que me chega e me afeta com seus gestos, timbres, olhares, toques e cheiros. Devo me voltar para a beleza do sol que me acalenta e me ilumina. Devo me voltar para o ar que respiro e que me toca com seu frescor e vivacidade. Devo me voltar para a beleza do céu diário e noturno, para as infinitas formas das plantas, das flores e das montanhas.

A verdade de mim sou eu com minhas sensações internas e tudo de fora que me adentra. Tudo isto é a verdade de mim porque é como é – e sem me fazer procurar por um pensamento de mim que nunca é.

Não é por acaso o silêncio do psicanalista.

Evaristo Magalhães – Psicanalista