SOBRE A MORTE …

Temos uma dor que não é culpa nossa. Nada fizemos para que ela existisse. Ela não pode ser atribuída a ninguém. Ela não veio de um trauma ou de um acidente. Ela veio gratuita.

Não existe ciência para ela. Nenhum remédio a cura. Nenhum exorcismo a alivia. Não existe saber sobre ela. Toda filosofia blefa nela. Nenhuma religião é eficaz contra ela.

Ela não está fora. Ela não aparece de vez em quando. Ela é intermitente. Não adianta jogar contra e nem a favor dela. Não adianta pedir e nem implorar para que ela desapareça. Nascemos e morreremos com ela.

Nenhum dinheiro a compra. Nenhuma beleza a ameniza. Nenhuma inteligência a compreende. Nunca estaremos sobre ela.

Não adianta chorar, gritar ou espernear. Não adianta não querer olhar pra ela. Não resolve não querer saber dela. Não adianta fantasiar de que ela não existe. Não adianta fugir dela.

Nada que inventarmos poderá nos livrar dela. Ela não é amiga nem inimiga. Ela é – e pronto.

Não resolve se debater contra ela. Temos que tomá-la como sendo nossa. Temos que nos responsabilizar por ela. Temos que carregá-la – e sem saber de que se trata.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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TENHO PENA DOS ARROGANTES …

Não é primeiro saber para depois fazer. Não é o o saber que constitui o fazer.

É primeiro fazer para depois saber. É o fazer que constitui o saber.

Sofremos, porque queremos encaixar o saber no fazer.

O saber que temos só diz respeito ao fazer que tivemos.

Não é possível qualquer topografia do fazer. Ele é imprevisível.

Pode blefar tudo o que pensarmos para daqui a pouco.

Sofremos, porque não sabemos. Somos – infinitamente – menores que o próximo segundo.

Acumulamos coisas e teorias para nos assegurar do que – sequer – estamos certos de que virá.

Podemos ser sucumbidos pelo tempo. Ele reina absoluto sobre tudo e todos.

Ninguém está sobre o tempo.

Perdemos muito do hoje preocupados com o amanhã.

Esquecemos que o hoje que perdemos não volta nunca mais.

O que poderá acontecer? Como reagiremos? Ninguém sabe. Todo saber acaba no seu vivido.

Quanto ao próximo vivido, ninguém está seguro de que irá viver.

Tenho pena dos arrogantes.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

A COMÉDIA É A VERDADE DA VIDA …

Quem é seu grande Outro? Sua imagem? Suas ideias? Sua conta bancária? Seus amores? Seu Deus?

Seu grande Outro foi construído de fora para dentro ou de dentro para fora?

Se foi de fora para dentro, ele é a sua mentira e não a sua verdade.

Sofremos, porque buscamos no lugar errado o grande Outro do sentido de nossas vidas.

É por isso que somos dramáticos, angustiamos, deprimimos e revoltamos. Nenhum grande Outro pode suprimir quem somos.

Não fazemos cair a máscara desse nosso grande Outro porque tememos surtar.

No entanto, temos a comédia entre a frustração da felicidade e a verdade da vida.

Só rimos do patético do outro. O equivocado é sempre ele – até que nosso grande Outro dá as caras de sua derrota.

A vida não tem sentido. Vamos sofrer? Vamos buscar um sentido? Não.

A felicidade é a comédia porque nada melhor que dar risada quando falta entendimento.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

QUANDO TEREMOS PAZ PARA AMAR?

Achamos que viver é só pensar, falar, trabalhar e namorar. Não é. Existe algo a mais que isso. Não sabemos se esse algo está atrás, do lado ou no meio disso tudo.

O fato é que tudo o que pensamos e fazemos é para camuflar isso que não sabemos.

Muitos acham cansativo falar e pensar. Quantos não acham uma chatice trabalhar? E quantos não têm o menor saco para namorar?

Cansativo é isso que nem o falar e nem o pensar consegue abafar. Chato é isso que nem amando conseguimos nos desvencilhar.

Isso atravessa o que pensamos e o que falamos. Isso transborda o amor.

Não é com o trabalho que deveríamos nos ocupar. Ninguém deveria sofrer por nada.

Quase nunca queremos saber disso que nos atordoa.

Isso não tem nome, cor, forma, sabor, tamanho ou peso.

É para conter isso inventamos viver. A questão é que isso tudo ultrapassa.

É só quando tomarmos isso como uma coisa menos desesperadora que teremos paz para falar, pensar, trabalhar e amar.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É UMA PESSOA POLIQUEIXOSA?

Do que você queixa? De que não tem ninguém? Do mundo? Do destino? Da vida?

Você sabia que suas queixas podem não ter qualquer relação com as pessoas, com o mundo, com o destino e com a vida?

Essas queixas são suas. Você as criou para obter algum sentido para a sua vida.

É seguro que elas estão sendo usadas para tamponar outras queixas suas ainda mais angustiantes.

Temos questões sem cobertura. No entanto, não aceitamos essa nossa condição. Daí, desembestamos a procurar algo que amenize esse nosso desespero.

Inicialmente, buscamos pessoas, coisas e ideias que nos foram prometidas como antídotos para esse nosso desatino.

Em seguida, caímos a ficha de que fomos iludidos pela cultura, pela ciência, pela filosofia e pela religião.

Daí, invertemos o polo da moralidade. Viramos poliqueixosos de tudo – também -para fugirmos desse enfrentamento de nós mesmos.

Muitos enveredam por caminhos ainda mais radicais.

Só quando fizermos cair todas as máscaras que usamos para esconder quem somos, que descobriremos a verdade sobre nós mesmos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista