A PAZ

sei

de

um

lugar

sentimentalmente

neutro

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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NÃO AME O SEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO …

Fuja do mais próximo de você. Quem é o seu mais próximo? Não queira saber. Ele não desgruda de você. Dele ninguém consegue se livrar. Não temos escolha diante dele. Sobre ele, nada e nem ninguém pode fazer qualquer coisa. Ele está em nós e, ao mesmo tempo, está aquém do nosso controle. Ninguém o domina. É fácil amar um eu em fuga deste nosso próximo. É fácil amar um eu de superfície. Quero ver é amar este eu que está sendo gestado em nós – e que abominamos. Um eu que mascaramos. Um eu que negamos. Ninguém quer amar o seu próximo como a ti mesmo. O meu próximo me dá pânico. Faço de tudo para não lembrar desse meu próximo que está chegando. Fujo dele. Ame a ti. Não ame o seu próximo como a ti mesmo. Ele é cabuloso. Muitos se entopem de medicamentos para se livrar dele. Muitos o tentam esconder com infindas cirurgias plásticas. Ele é oito ou oitenta. Ou o amamos. Ou o adiamos. A maioria o odeia com suas angústias, depressões e somatizações. Eu prefiro uma terceira via: mantenho-o sob suspensão.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NÃO PODEMOS MISTURAR RELIGIÃO COM POLÍTICA?

Gostaríamos muito que a palavra amor compreendesse tudo sobre o amor. Não compreende. Quando não sabemos, vamos errando e acertando na ilusão de que uma hora acertaremos. No dizer de Freud, o amor está no rol das coisas que podem ser substituídas. E para as coisas que não podem ser substituídas? Entramos em pânico. É por isso que certos grupos são capazes de matar por Deus. É por isso que os fanáticos abominam a ideia de discutir religião. Deus é para as coisas que não podem ser substituídas. Ele seria a nossa salvação. Ele seria o ponto final. Ele seria a solução para aquilo que nada e nem ninguém pode fazer qualquer coisa por nós. Sem Ele, é só desespero. Deus pode não ser concreto – tanto que ninguém até hoje voltou para dizer de sua existência. No entanto, certas religiões o tomam como se fosse um objeto. Além de identidade, Ele tem corpo, rosto, voz e poder. Deus precisa existir. Deus tem que existir. Na verdade, a questão destes fanáticos não é com a existência de Deus. A questão é a impossibilidade de existirem sem Deus. Como não dão conta, extravasam suas impotências para os demais. A questão para estes fanáticos é a possibilidade de alguém existir sem Deus. E não basta apenas crer em Deus. É necessário respirar, ver, tocar e engolir Deus. Sendo coisa, Deus é a verdade.

A democracia é sem Deus – porque vê a verdade como uma construção. A democracia está no rol do luto. A religião está no rol da melancolia. A democracia está no campo do errar e acertar. A democracia está no campo das coisas que podem ser substituídas. A democracia não tem ponto final. É com esta falta, com este buraco ou com esta lacuna da democracia que certas religiões não sabem lidar. Qualquer vazio é morbidez total. Não se pode tocar no vazio. Não se pode ampliar o vazio. Não existe vazio. Não existe buraco. Não existe lacuna. Deus é absoluto. Deus tudo sabe.

É muito perigoso tomar algo como sabedor de tudo. É muito complicado tomar como se fosse concreto. Ora, sabemos muito bem o que uma pessoa é capaz de fazer quando enxerga qualquer coisa como sendo uma verdade absoluta.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE ARTE TEM PARA NOS ENSINAR?

Temos muito o que aprender com os artistas. Não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Sabemos que vamos envelhecer e morrer. Como nos posicionamos frente à isso? Com angústia e ansiedade. Com depressões, doenças e surtos. Como os artistas se posicionam frente à isso? Com arte. Gosto da forma como Woody Allen me faz rir dos meus impasses. O humorista transfigura a nossa dor em piada. O pintor dá forma, cor e leveza aos nossos dramas. O poeta faz rimas e versos das nossas agonias. A arte faz da morte uma condição de gozo. Seria ótimo se gozássemos do que nos é inevitável – mesmo porque de nada adianta sofrer. Não queremos ver nossas mazelas. A arte nos faz ver sem pânico. É uma pena que sabemos tão pouco de arte. É uma pena que não aprendemos a fazer arte. Deve ser por isso que somos um dos maiores consumidores de ansiolíticos do mundo. Deve ser por isso que tem tantos enlouquecendo ou pondo fim à própria vida. Sem a arte nossos dilemas nos são escancarados em carne vida. O diferencial é que a arte denuncia quem não queremos ser com falas, gestos, cor, luz e som. Vemos nossas verdades de outro modo. A arte nos faz acostumar com nossos desesperos. A arte rompe com nossos recalques. O que dói menos, ver na arte ou ver na realidade? Da arte podemos até fugir. Da realidade, não.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

A MELHOR FORMA DE AMAR …

No amor é melhor reconhecer que não tem ou achar que tem? O melhor é reconhecer que não tem. Quem reconhece a falta, ama sem possuir – porque confia amar. Há um momento em que o outro vira para o lado. Uma hora todo mundo se despede. Vai para casa. Vai para o trabalho. Vai fazer uma viagem. Vai encontrar os amigos. Ninguém é tudo na vida de ninguém. Ninguém ama só um. Amamos nossos familiares e amigos. Amamos nosso trabalho. Não somos tudo do amor de ninguém. Há inúmeros amores em uma mesma pessoa. Não podemos privar nossos amantes de amar amores diferentes do nosso. O outro pode nos amar e pode gostar de redes sociais, pode gostar de ficar sozinho, pode ter seus programas pessoais, pode querer fazer atividade física etc. O melhor amor é o que sabe que não tem e lida bem com isso. O pior amor é o que acha que tem, porque priva seu amor de desejar, de ter autonomia, de ter liberdade e individualidade. Ele sufoca o outro de seus outros amores que lhes são fundamentais – inclusive para a sua solidão caso este seu amor lhe falte. O bom de reconhecer que não se tem é que, caso o amor venha a faltar, isto não fará a menor diferença. O mesmo não acontece quando se acha que tem. Qualquer ausência é sempre muito traumática. Não pode acabar bem um amor que acha que seu amor só pode ser seu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

SOBRE MASTURBAR …

Quem não gostaria de ter sem temer? Sexualmente, só temos na masturbação. Na masturbação nosso sexo é completo. A masturbação não tem as complicações que temos no sexo à dois. Não há outro que podemos não gostar. Não há outro cheiro, outro gosto, outro toque, outra voz. Não há dúvida se foi bom. Não há vergonha. Não há cobranças. Não há o medo de não repetir. Não há saudade. Não há dependência. Não há espera. Não há consentimento.

Nunca temos por completo à dois. Sozinho nada me falta. Comigo sou inteiro meu. Comigo não preciso perguntar. Comigo posso parar, começar de novo, ir rapidinho ou demorar. Comigo posso fazer do meu jeito. Comigo não tenho vergonha. Comigo posso a qualquer hora. Comigo não tenho que dar satisfação. Comigo posso usar o que eu quiser. Comigo posso gemer, contorcer, gritar, apertar, morder, lamber e até me beijar. Comigo não há constrangimento.

Com mais de um nunca é completo. Sempre poderia ter sido melhor. Com mais de um sempre rola uma ansiedade ou uma angústia.

A masturbação é sem DR. A masturbação é sem complicação. Por isso que a masturbação é o sexo mais completo que existe. Nela podemos dizer que dominamos cem por cento o nosso prazer.

Evaristo Magalhães – Psicanalista