O INCONSCIENTE …

meu outro

de mim mesmo

é muito mais outro

que mesmo

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

livro

 

 

 

Apresentação

 

A ideia nasce espontaneamente.

 

A palavra é forte, mas revestida de alento.

 

E, no acalanto da emoção, surgem o cantar da vida e o olhar sobre as fragilidades do ser humano, com suas dúvidas, inquietações, delírios e medos que o aprisionam.

 

O encaixe é perfeito! No sabor da palavras, vão-se desvendando os mistérios da alma e nossos dramas existenciais.

 

Tudo isso emerge num agradável clima de intimidade com o leitor, nesta obra do mineiro de Ipanema, através de um conhecimento profundo do universo de desejos e emoções que o AMOR desencadeia.

 

Com esta 5a. publicação, Evaristo Magalhães vai enriquecendo nossa literatura com seus escritos, harmonizando-os e complementando-os numa feliz mistura com a Psicanálise.

 

Espero que você, leitor, se enamore desta obra embebida de espírito criador e que, a cada crônica – num exercício de reflexão – vá delineando as múltiplas nuances deste mágico sentimemto: o AMOR!

 

Marília Moreira de Macedo

 

Pós-graduada em Língua e Literatura brasileira

 

1

 

Cruzamos na vida com inúmeras pessoas. Só investimos naquelas que consideramos interessantes. Somos atenciosos, educados, respondemos às mensagens no zap, dizemos do nosso interesse, enfim, jogamos limpo.

 

No entanto, antes mesmo de iniciarmos uma relação, tais pessoas já começam a tripudiar da nossa educação. Diante disso, ficamos angustiados e desesperançados das relações humanas.

 

Temos culpa? Não. Apenas não compreendemos o desejo do outro. Como assim? Como alguém pode não querer uma companhia educada, atenciosa e verdadeira?

 

Freud dizia do gozo da pulsão de morte. O que é a pulsão de morte? É quando desistimos de conduzir a vida pelo prazer e decidimos conduzi-la de modo masoquista.

 

Essas pessoas têm consciência disso? Não. Sabemos delas não porque se assumem assim. Sabemos delas a partir da forma como se comportam.

 

Estamos em um tempo da pulsão de morte – vide as compulsões por comida, álcool e drogas.

 

Há quem ame, gostando de ser destratado no amor. Há quem só consiga amar de forma tóxica. Muitos lhe farão esse convite. Qual será a sua resposta?

 

2

 

É o amor que nos conduz nas adversidades da vida.

 

Não sabemos o que nos espera. Nenhuma medicina consegue prever tudo. O universo é infinito. É impossível saber o que outro está pensando. Ninguém é constante e regular.

 

Sabemos sobre o que já vivemos e sobre o que estamos vivendo. A forma como agimos – hoje – pode não servir para  amanhã. Ou seja, tudo pode acontecer.

 

Por que não entramos em pânico? Por que não ficamos agressivos? Por que não enlouquecemos? A resposta é: por amor.

 

Não é a religião, a ciência, a filosofia ou a psicologia que nos sustentam. Nenhum saber de agora vale para depois. É por temer perder quem amamos que tentamos agir bem. O amor é a nossa salvação. Nesse sentido, quanto mais individualismo, pior a condução das adversidades.

 

É por amor que respiramos fundo e contamos até dez. É por amor que paramos e pensamos.

 

Enquanto houver alguma consideração, agiremos o melhor possível para preservarmos o amor de quem estimamos. Quando não mais houver o outro, não fará o menor sentido prosseguirmos enquanto pessoa e enquanto mundo.

 

3

 

Ninguém pode dizer que sabe qualquer coisa. Todo saber começa e termina na situação em que foi criado e utilizado. Um saber de agora não vale para depois – a não ser que a vida fosse constante e regular. Mas não é.

 

É porque o saber não pode ser transposto que nos desequilibramos, ficamos revoltados, agressivos, deprimidos, angustiados ou ansiosos. Se o saber amar de agora pudesse ser levado para depois, ninguém sofreria. Dessa forma, somos eternas crianças, tendo que nos amadurecer a cada situação.

 

Por mais que o consumo ganhe com a nossa inocência, há o que nada cobre. O nada é o imprevisível da vida. E, na vida, tudo é fluxo constante.

 

Nossa qualidade de vida está na dependência de como vamos conduzir isso que não sabemos.

 

Não existe conhecimento para o daqui a pouco. Cada um terá que ser a sua própria escola, sua própria ciência, sua própria filosofia e seu próprio Deus.

 

4

 

Deveríamos buscar o amor para além do que somos enquanto corpo.

 

É por querer saber quem somos que o fantasma da morte nos apavora.

 

É por não sabermos tudo do outro que nos é impossível saber como ele nos tratará.

 

Deveríamos amar não só para nos excitarmos. O amor deveria ser algo que nos protegesse daquilo que mais nos atormenta. Deveríamos crer que, ao amarmos, estaríamos mais seguros das angústias que nos cercam.

 

Não deveríamos só beijar. Deveríamos procurar indícios de que quem nos beija possui qualidades que podem nos ajudar a viver com um pouco mais de segurança.

 

O amor parece que desapareceu porque não estamos mais preocupados com nossos dilemas existenciais. O dinheiro, os antidepressivos, a estética e a medicina tomaram o lugar do amor.

 

Transamos com várias pessoas apenas pela necessidade de extravasar o prazer que somos enquanto corpo.

 

Até bem pouco tempo, o amor demandava algo mais para além de só transar. Amávamos porque viver era angustiante – e a presença do outro amenizava essa angústia. É por isso que não só fazíamos sexo: conversávamos, trocávamos olhares, convivíamos e sentíamos a intensidade do momento.

 

Agora parece que, quando o ser humano sofre, não é mais no amor que ele busca o seu antídoto. Ele corre para o shopping, para a academia ou se entope de antidepressivo.

 

Será que o amor perdeu o sentido? Ou será que teremos que ir ao fundo do poço para nos darmos conta de que o amor é, ainda, o melhor remédio para as nossas desavenças existenciais?

 

5

 

O amor não é a carência de ter alguém.

 

Amar é dar conta de não ter que ter alguém. Não pode ser felicidade amar por submissão.

 

Não há maior alegria que estar em paz consigo. Não pode ser amor olhar de um em um minuto se chegou alguma mensagem no zap ou vigiar as postagens de quem quer que seja. Isso não é amor: é desespero.

 

Não amamos quando nos perdemos de nós mesmos.

 

O maior amor não é o descontrole de si. Nada se compara a alegria de quando sabemos o que queremos.

 

O melhor amor é dar conta de bloquear quando é tóxico. É dar conta de não  prosseguir quando não há resposta.

 

O melhor amor é procurar à medida que se é procurado. O melhor amor é quando sabemos conduzir, temos consciência do ridículo e deixamos de pagar mico.

 

Não podemos nos fazer mal por amor a ninguém. Não pode ser amor aquilo que nos faz sofrer.

 

Não há conquista maior do que a dignidade e o amor próprio – o que não vale só para o amor, mas para tudo na vida.

 

 

 

 

 

 

 

AMOR

 

minha

metade

é

sem

par

 

 

 

6

 

Todo mundo quer a certeza de ser amado.

 

Quando amamos, cremos amar conforme o amor que o outro espera de nós.

 

Quando amados, cremos que estamos sendo conforme o amor que esperamos do outro.

 

No começo tudo parece perfeito. O outro me dá o amor que eu quero e dou a ele o amor que ele quer. Doce ilusão! Logo a verdade aparecerá, pois jamais terei o amor que espero porque esse amor é mais meu que dele. Jamais darei ao outro o amor que ele espera de mim porque esse amor é mais dele que meu.

 

Portanto, não ha´reciprocidade. Não existe o amor que eu espero do outro e não existe o amor que ele espera de mim.

 

O que move o amor é uma ilusão.

 

Creio que o amor é a capacidade de continuar amando, mesmo não existindo o amor desejado.

 

Ninguém deveria amar esperando qualquer amor.

 

7

 

Emoção é posse. Quando a emoção é boa, quem não gostaria de tê-la novamente?

 

A expectativa é um sentimento complicado. Não deveríamos colocar emoção no que não estamos seguros. O tesão só deveria durar o tempo da certeza da presença.

 

Seria um erro querer repetir com quem pode escolher não voltar. Só deveríamos amar o que podemos. O amor só deveria valer para o que não tem vontade própria.

 

Ao amarmos, corremos o risco da perda, pois pode ser que quem amamos encontre alguém ainda mais amável que nós.

 

Ocorre que ninguém quer amar a perda – ainda quando ela pode ser substituída. Pior – ninguém quer amar quando há a possibilidade de seu amor não voltar nunca mais.

 

Temos que amar, também, a experiência de não ter.

 

Não somos como os animais. Temos a incrível capacidade de querer o que pode deixar de nos querer. Temos a incrível capacidade de amar o risco. Não nos contentamos só quando o outro vem. Queremos que ele volte sempre. Às vezes, sequer o deixamos sair. Tudo isso só porque queremos mais.

 

Podemos e devemos querer muitas vezes? Sim – com a condição de que seja apenas o que podemos.

 

 

8

 

O amor só é válido se for livre. Ninguém deve vir ao nosso encontro por insistência. O outro deve vir apenas quando seu coração palpita forte por nós ou quando nossa lembrança causa aquele friozinho gostoso nele.

 

E quando é o nosso coração que saltita e é a nossa espinha que gela pelo outro? E quando temos a sensação de que o sentimento dele não está na mesma consonância do nosso?

 

Não adianta insistir. Não adianta ir atrás. Não podemos forçar o coração de ninguém a bater mais forte por nós. No amor, não é o nosso chamado que deveria fazer o outro telefonar, mandar um zap ou vir ao nosso encontro. É mais que isso: é o que despertamos nele. É o desejo espontâneo dele por nós.

 

9

 

Não somos de ninguém. Nunca estamos nas mãos de ninguém. Nós é que nos damos demais. Nós é que nos submetemos demais.

 

A questão não é o outro. A questão somos nós. Adiantamo-nos demais ao querer do outro. Sufocamos o seu querer.

 

Lacan diz que amar é dar o que não se tem. Só é amor quando fazemos algum sentido para alguém. A questão é que não podemos forjar esse sentido no outro. Não podemos achar que somos imprescindíveis para quem quer que seja.

 

A falta não é minha. A falta é do outro que precisa ver em mim algo que faça algum sentido para ele. E, para isso acontecer, é necessário que eu seja muito bem resolvido comigo. É necessário que eu seja o máximo de espontaneidade para com ele. Se eu forçar, a falta deixa de ser dele e passa a ser só minha.

 

Portanto, cuide da sua falta. Não permita que a sua carência sufoque a possibilidade do outro desenvolver alguma carência por você. É por isso que todo amor não correspondido termina em ódio e revolta. Nesse contexto, a culpa nunca é do outro. A culpa é sempre sua, tentando ser para o outro algo impossível.

 

Para amar de verdade, cuide  – primeiro – da sua solidão.

 

10

 

Amar não é só ouvir, não é só conversar ou só discutir a relação.

 

Nossos olhos estão, sobremaneira, voltados apenas para o que nossos amores dizem.

 

Amar não é só olho no olho. Não há dúvida de que olhar é de fundamental importância para que o amor aconteça. No entanto, nossos olhos estão muito mais interessados no que é dito do que nas demais belezas.

 

O olho não deveria servir só para o que é dito. Há muito mais para ser contemplado. Precisamos aprender a olhar o que do outro não tem boca, não fala e não pensa.

 

Precisamos buscar o que do outro é puro silêncio.

 

Temos mania de só conversar. Precisamos esquecer a mente de quem amamos. Precisamos ampliar o nosso modo de gozar com ele.

 

O corpo pode ser mais gostoso que as ideias. Pensar é só um aspecto. Podemos ver e tocar muito mais. O corpo é infinito.

 

Deve ser por isso que os amores têm ficado cada vez mais descartáveis.

 

Falta amar mais o que do outro nunca se esgota.

 

 

O AMOR É

 

um

necessário

impossível

 

 

11

 

Nada melhor quando amamos e estamos cientes das fraquezas do outro.

 

Bom é amar as qualidades do outro, sem perder a noção das suas imperfeições. Ao longo do processo, vamos ponderando se vale ou não a pena continuar o romance. Se não der certo, no fim, resta uma lembrança boa do que o outro deixou de belo e a certeza de que foi sua a incapacidade para o amor.

 

Nada melhor que amar o outro em sua inteireza negativa e positiva. Amar o outro sabendo – até mesmo – daquilo que ele não dá conta de impedir que o desamemos.

 

Nada melhor amar, propondo ao outro que amadureça em seu amor. Amar até a fronteira do outro. Caso a coisa desande, não sofreremos – uma vez que foi ele quem não deu conta da beleza de amar.

 

O amor não pode ser cego. Temos que ter maturidade para dosar: razão e emoção. Há uma parte de nós que não controlamos. Quase sempre, somos os principais culpados por nossos desamores. Ao que tudo indica, o outro estava melhor preparado para amar.

 

Não somos abandonados: provocamos o nosso próprio abandono.

O amor exige certa capacidade para lidar com o desamor.

 

Quem souber se arranjar – certamente – saberá o que é amar.

 

12

 

Não ser amado é o mesmo que estar diante do vazio.

 

Há o vazio. No entanto, inventamos várias coisas para colocar dentro dele. Nem mesmo o amor é suficiente para supri-lo.

 

Então, por que insistimos tanto em um amor inócuo?

 

E quando colocamos alguém que ama cobrir nossa falta, mas a vida o retira de forma abrupta?

 

Não sofremos porque o outro não nos quer. Não sofremos porque o outro partiu. Sofremos porque não suportamos ficar neste lugar de nada.

 

É ótimo quando damos conta de contornar nossas perdas. O problema é quando isso não é possível.  Contudo, pode acontecer de fracassarmos nesse intento.

 

Vamos insistir no impossível? Há quem conduza a vida nesse masoquismo. Há quem dê conta de tomar o vazio do outro como sendo seu. Há quem dê conta de carregar seu vazio mesmo sabendo que nunca existirá qualquer objeto ou pessoa capaz de abarcá-lo.

 

13

 

Poucas vezes na vida somos nós mesmos. Uma – é quando nos envolvemos com alguém.

 

O amor não se explica. Só somos quando não sabemos nos explicar. Só é amor quando colocamos nossas entranhas para funcionar. Não é amor quando é racional. Portanto, só é amor quando arrepia, pulsa, estremece, pega, beija e transborda.

 

Quase não pensamos quando amamos. No amor a verdade se revela purificada de todo julgamento moral.

 

O amor é outra linguagem. O entendimento vai além da fala. É outra forma de comunicação. Passa pelo olhar, pelo gesto, pelo cheiro, pelo toque e pelo paladar.

 

Viro outro quando amo. Tudo meu entra nesse jogo. Só é amor quando é o DNA que define a festa. Amar é como se um turbilhão de mim – que desconheço – viesse à tona.

 

Ninguém mente quando ama – porque o amor é mais que as palavras. Podemos mentir. Agora, um corpo nunca mente. Um gesto nunca mente.

 

Se me faz pulsar, é porque sou eu. Se me faz salivar, é porque sou eu. Se não mexe com as minhas vísceras – não adianta beleza e nem dinheiro. Se não me estremece, não sou eu.

 

Não adianta insistir. Não vai acontecer mesmo.

 

 

14

 

Quando ter um grande amor pode ser tão bom quanto não ter um grande amor? Quando vencer pode ser tão bom quanto ser derrotado? Quando a alegria pode ser tão boa quanto a tristeza?

 

A vida não é ser ou não ser. A vida não é ter ou não ter. A vida é ser e não ser. A vida é ter e não ter. Aliás, a vida é mais não ser que ser. É mais não ter que ter.

 

Viver só é por enquanto. A questão é que somos muito vaidosos. Não nos contentamos só com a hora do recreio.

 

No entanto, toda festa acaba. Uma hora o outro vira para o lado e dorme. Uma hora alguém que muito amamos pode não acordar nunca mais.

 

Viver é usufruir dos intervalos. Viver é gozar do agora. Há quem vive o agora desesperado em como burlar a tristeza de depois. Não podemos viver poluindo nosso presente com as perturbações de como ser feliz no futuro.

 

O meu agora não pode ser tomado por uma luta atrás de uma felicidade que nunca saberei. Viverei sempre de querer. Todo amor findará e toda alegria tem data de validade.

 

Só será amor quando NÃO TER for tão bom quanto o que preenche.

 

15

 

Vivemos na ilusão de que para sermos felizes temos que ser completos. Daí, saímos em busca de alguém.

 

O amor não constitui a nossa felicidade. Não existe o amor dos nossos sonhos. O outro não é uma coisa. As pessoas possuem desejos para além de si mesmas.

 

Também, não nos completamos com as coisas e nem pelo pensar: pensar é perturbador. Não existe o último pensamento.

 

Portanto, não te iludas. Não existe o que te completa.

 

O melhor seria desistir de procurar? Não. O melhor é tomar o que não temos, não como uma infelicidade, uma tristeza ou uma melancolia. O melhor é tomar o que não temos como constitutivo nosso. O melhor é carregar o que não temos – sem querer cobrir o que não tem cobertura.

 

Não possuímos a vida.  Da vida, só podemos usufruir.

 

Só descobriremos a nossa felicidade no dia em que dermos conta de nos deliciarmos de tudo sem querer que tudo seja tudo.

 

 

 

 

 

UM BEIJO NA BOCA:

lento

macio

e

duradouro

 

16

 

Na paixão, queremos transar só com a pessoa por quem estamos apaixonados. No amor, não é só sexo: transamos e saímos para o trabalho. Não há fixação.

 

Dividimos o amor com amigos e familiares. Na paixão, desejamos só um. No amor, desejamos muitos.

 

O amor é poligâmico. A paixão é monogâmica.

 

Não é possível uma paixão duradoura porque a vida não é uma coisa só. A paixão acaba por exigência da realidade. No entanto, ao menos fomos só um de alguém e alguém foi só um nosso.

 

Pena que não foi para a vida toda!

 

17

 

Nutrimos sentimentos pelos outros. Tudo o que penso é meu. Tudo o que sinto é meu. Tudo o que está dentro de mim fui eu quem trouxe.

 

As pessoas estão ao meu lado. Eu é que as coloco para dentro. Eu é que as permito entrar. As pessoas não são os sentimentos que temos por elas. É nosso o sentimento que temos pelos outros.

 

O que invento do outro não é dele: é meu. Ele tem os seus pensamentos e os seus sentimentos.

 

É complicado trazer as pessoas para dentro. Há sempre o risco de sermos contrariados. Quando isso acontece, não existe cirurgia para tirar o outro.

 

É impossível saber se há correspondência entre o amor que sinto por alguém e o amor que alguém sente por mim.

 

Meu sentimento é uma invenção minha. O sentimento do outro é uma invenção dele. Não posso achar que ele sabe do meu sentimento. É impossível saber o que alguém sente.

 

É melhor pensar que esse outro que  está dentro de mim é uma criação minha.

 

Não enloquecerei se algum dia ele me disser que o amor que sinto por ele não é o mesmo amor que eu pensava que ele sentia por mim.

 

18

 

Não podemos desesperar, colocar nossa vida em risco ou colocar a vida do outro em risco.

 

Vale qualquer coisa que não seja violência. Vale sofrer, angustiar, ansiar ou somatizar.

 

Foi para isso que o amor nos foi dado. Encontramos no amor o melhor antídoto para não enlouquecermos.

 

Não existe o amor romântico que buscamos. Nem mesmo o amor pode nos livrar da finitude. Quantos não surtam? Quantos não colocam o sofrimento de amar no lugar de sofrer?

 

Quem disse que não é válido sofrer por amor? É até bonito, vira poesia, música e dança.

 

Usamos o amor – não por amor. Usamos o amor para encontrar um sofrimento que utilizaremos para conter questões que nada dizem respeito a ele.

 

Não sofremos por amor. Sofremos no amor porque somos finitos.

 

É complicado não amar. Sem amor ficamos sem rumo na vida e não temos como sofrer por aquilo que – realmente – nos desespera.

 

Estamos perdendo a dor de amar que, até bem pouco tempo, amenizava nossas agruras existenciais.

 

19

 

À medida que somos incentivados a amar somos – também – incentivados a sofrer. A cultura sabe que não temos cura.

 

Há o que somos e que nada responde. Há o que somos e que pode nos enlouquecer, colocar nossas vidas em risco e  a  dos outros também. Não há remédio para isso.

 

Para nos iludir, a cultura inventou o amor. No entanto, não há amor sem dor. Na verdade, a dor não é de amor. A dor de amor é para cobrir o desamor.É para isso que somos iludidos a amar.

 

Dizem que o amor é lindo. Dizem que o amor é a melhor coisa do mundo. No entanto, quanto maior a ilusão do amor, maior a dor de amor.

 

Não obstante, quanto maior a dor de amor, menos riscos estamos correndo de enlouquecer e de morrer.

 

Nem mesmo o amor nos cura. O amor não deixa de ser uma espécie de redução de danos.

 

Então, vamos ao amor! Viva o amor e viva o masoquismo!

 

20

 

O maior tesão da vida não é transar gostoso, ter orgasmos múltiplos, ser milionário, viajar, ser bonito ou ser inteligente.

 

Nada disso nos livra das nossas dores de viver.

 

Rico também toma antidepressivo, bonito vai ao psiquiatra e intelectual faz análise.

 

O maior tesão da vida é dar conta de encontrar um sentido. Nenhum saber o tem. O sentido de viver é de cada um.

 

O maior tesão da vida é a capacidade que temos para  construir argumentos que amenizem nossos tormentos.

 

Todo orgasmo acaba, toda viagem tem seu fim e toda beleza tem data de validade. Existir não é exato.

 

O maior prazer é construirmos a nossa tela particular de proteção que não nos faça enlouquecer.

 

As pessoas tentam resolver suas angústias pelo sexo, pela conta bancária, pela estética, pelo intelecto e pelo consumo. Não as resolverão.

 

O maior tesão não é colecionar transas, não é adquirir bens, não é ostentar Paris, não é se entupir de cirurgia plástica, próteses e anabolizantes.

 

O maior tesão da vida está no vazio que nada disso preenche.

 

GOZAR …

gosto do tempo

em que meu prazer era só soletrar

sem querer saber o sentido

 

 

21

 

O mais próximo de mim sou eu.

 

Nada e nem ninguém pode fazer qualquer coisa por mim. Não controlo quem sou.

 

É fácil amar um EU que está sempre em fuga. É fácil amar um eu de superfície. Quero ver amar um eu que está sendo gestado em si – e que é abominável.

 

Ninguém quer amar o seu próximo. O meu próximo me dá pânico. Faço de tudo para não me lembrar desse meu próximo que me é inevitável. A maioria o odeia.

 

Eu prefiro uma terceira via. Mantenho – o sob suspensão.

 

22

 

Qualquer reação é de gozo. Gozamos direto com a coisa ou camuflando a coisa. Tudo é gozar: amar, temer amar e perder.

 

É certo que vamos perder. Nenhum amor é para sempre. Há quem se entregue. A maioria passa a vida gozando da dor de perder. Usamos nossas desavenças para retardarmos o nosso grande e doloroso orgasmo final.

 

Muitos tomam o medo de perder como prova de amor. Muitos até enxergam certa nobreza quando alguém chora nas despedidas. Não é nada disso. A angústia não é por quem partiu. A dor é de quem a sente

 

Sofremos mais por nós que pelo outro. O amor não está separado do que nos perturba. Ainda bem que temos o amor para o que não é do amor.

 

Ninguém sofre por amor. Não se culpe pela dor de quem ficou. Sofremos é por amor a nós mesmos. Todo amor é uma forma de masoquismo – tanto que não existe amor perfeito.

 

23

 

Quem cobra fidelidade, no fundo, é infiel porque usa o outro para saber de si.

 

Todo infiel necessita da fidelidade alheia para conter sua própria infidelidade. É óbvio que não estou tratando aqui de infidelidade no sentido sexual. Falo de uma infidelidade no plano existencial – no sentido de querer o outro só para se conhecer.

 

Ninguém fica em desespero ou mata por amor apenas porque foi traído. Não sejamos ingênuos! Surtamos porque a infidelidade do outro nos jogou no vazio de nossa própria infidelidade.

 

Primeiro, eu comigo. Depois,  eu com o outro.

 

Ninguém deve existir para me livrar daquilo que não sou. Quando sou fiel a mim, não me interessa a infidelidade alheia e a presença do outro não me é necessária.

 

Não é a ausência do outro que me enlouquece É porque estou ausente de mim que me desespero.

 

As pessoas não estão dando conta de si sozinhas. Estão tão perturbadas que não lhes basta ter o amor do outro. Querem tomá-lo como coisa.

 

Esquecemos que a questão é nossa. Parece que viramos dependentes da presença alheia para conter quem somos.

 

24

 

Sentimos ciúme porque queremos alguém só para nós. Alguém que entendemos como sendo o nosso completo.

 

Sentimos ciúme porque não suportamos a parte do amor que é adversa. Queremos um amor que seja constante e regular. Queremos um amor congelado, calculado e seguro.

 

Na verdade, não queremos amar. Só queremos o outro porque entendemos que só esse amor pode nos livrar do que não suportamos em nós mesmos.

 

Sentimos ciúme porque reduzimos a vida ao UM. Não nos aguentamos na ausência. A falta nos devasta, imobiliza e desespera.

 

Nosso ciúme não é porque estamos preocupados com o amor do outro. Sentimos ciúme porque queremos que ele supra o amor que não temos por nós mesmos.

 

Pensamos o tempo todo nele porque enlouqueceríamos se tivéssemos que pensar em nós mesmos.

 

O ciúme é uma tentativa ensandecida de encontrar alguma estabilidade na vida. É o mesmo que tentar negar a existência do espaço e do tempo – condições que não controlamos.

 

O ciúme é a negação da despedida, de outros lugares e do amanhã. É a vontade louca de recriar – aqui fora e a qualquer custo – uma espécie de útero materno com alguém.

 

25

 

Não compreendemos porque levamos a mãe que tivemos para os amores que teremos. Nossas mamães são as responsáveis pelos nossos destemperos amorosos.

 

O amor nos tira da realidade. O desamor nos traz de volta para a realidade. Ninguém quer ser desamado. Todo mundo quer ter uma mãe o tempo todo. Ninguém quer experimentar viver sem ter ninguém. A sensação de não ter ninguém é a mesma que vivenciar morrer.

 

No entanto, seremos amados e desamados. Perder alguém pode ser interessante – no sentido de experimentarmos o que nos é inevitável.

 

Não estará preparado para perdas ainda mais radicais aquele que fica revoltado quando recebe um NÃO de alguém. Perder uma pessoa pode não ser um problema – uma vez que existem mais pessoas no  mundo.

 

Perder amores pode ser interessante – no sentido de amadurecermos para as perdas que nos são insubstituíveis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ORGASMO …

 

prefiro

me

satisfazer

à

me

entender

 

 

26

 

Não tenha certeza do amor de ninguém. Ame, como se você não estivesse sendo amado.

 

Quem reconhece a falta, ama sem possuir porque confia amar.

 

Há momentos em que o outro vira para o lado. Chega uma hora em que  todo mundo se despede, vai  para casa, para o trabalho, vai viajar ou se encontrar com os amigos.

 

Ninguém é tudo na vida de ninguém. Ninguém ama só um. Amamos nossos familiares, nossos amigos e nosso trabalho.

 

Ninguém é todo amor de ninguém. Há inúmeros amores em uma mesma pessoa. Não podemos privar nossos amantes de amar amores diferentes do nosso.

 

O outro pode nos amar e pode gostar de redes sociais. Pode gostar de ficar sozinho, ter seus programas e querer fazer atividades físicas.

 

O melhor amor é saber lidar com a falta. O pior amor é o que possui e priva seu amor de desejar, de ter autonomia, de ter liberdade e individualidade. O pior amor é o que sufoca o outro de outros amores que lhes são fundamentais .

 

É fundamental ter consciência da posse,  porque caso o amor venha a faltar, isso não fará a menor diferença. O mesmo não acontece quando se acha proprietário.

 

Qualquer ausência é sempre traumática. E, diante do trauma, tudo pode acontecer.

 

27

 

Você ama como saber ou  como verdade? Se for como saber, você está no terreno do amor como posse. Se for como verdade, você está no terreno do amor como contingência. Melhor o segundo. Nele, conseguimos unificar amor e realidade – porque não há amor que tudo supre.

 

Nosso amor não priva o outro da sua liberdade – inclusive para escolher não mais nos amar.

 

Ninguém é de ninguém. O mundo é enorme para sermos de um só. Não é possível que ocupemos todos os tempos e todos os espaços do outro.

 

Nossa visão é limitada. Não conseguimos ver todos os lados de uma só vez. Não conseguimos adentrar o pensamento do outro. Todo amor – que supõe a verdade – é ciente de que amar não é posse.

 

No amor como verdade, nunca nos satisfazemos: fica sempre um resto. Nele, a falta pode ser elaborada porque temos a confiança como antídoto.

 

Tememos o amor como verdade porque tememos a verdade para nós mesmos.

 

28

 

Amor não se mede. Não existe amor menor ou maior. Não existe quem ama mais e quem ama menos. O amor não é quantificável. O amor é subjetivo.

 

Não confunda seu amor com o amor do outro. Não queira que ele seja da forma como você  gostaria. Atente-se para o modo como você é amado. Não exija do outro um amor que ele não sente. Amor não se cobra. O amor só é válido se for livre.

 

O amor não é um conceito. O amor é um sentimento. Eu me sinto amado porque algo me diz do amor do outro. Só posso ter o que ele pode me dar.

 

Quantos amores perdidos por matemáticas amorosas?! Quantos amores perdidos por teorias amorosas?! Quem muito pensa, não ama.

 

Aproveite o amor que o outro tem por você. Não importa o estilo.

 

O amor não tem tempo, não tem idade, gênero, raça ou classe social. Amar não tem conotação moral. E, se for amor, tudo vale.

 

29

 

É seguro que o amor ganharia em primeiro lugar se tivéssemos que escolher o melhor antídoto para as nossas tristezas.

 

O problema é que o amor não se compra. Não existe a pílula do amor. É por isso, talvez, que as pessoas estejam amando menos.

 

O consumo substituiu o amor pela falsa felicidade das mercadorias.

 

O amor não é mais o melhor remédio para as nossas agruras existenciais. Isso tanto é verdade que coisificamos o amor. Referimo-nos ao ato de amar como a um ato de fazer amor. As pessoas se pegam como quem pega um objeto em uma prateleira de supermercado. Fora a quantidade de gente que só consegue fazer sexo na dependência de uma infinidade de produtos.

 

O capitalismo diz que há solução para as nossas melancolias. A existência diz que não.

 

No consumo, depois de um produto, vem outro para a nossa ilusória felicidade. O problema é que, quanto mais nos entupimos de coisas, mais nos distanciamos das pessoas e menos crescemos – porque as coisas não nos questionam. Mais solitários ficamos – porque nada substitui uma boa conversa, um olhar carinhoso, um beijo lento e longo e um amor que termina dormindo de conchinha. Melhor ainda quando tudo isso vem com toda  a liberdade da entrega.

 

30

 

Não fomos preparados para lidar com o pior. Não deveríamos ter acreditado nas histórias que nos contaram.

 

Estamos mais agressivos. Basta ver a quantidade de violência circulando nas mídias. No entanto, ainda seguimos utilizando as mesmas armas em um mundo que não é mais o mesmo.

 

É no encontro do quem somos – com o que temos – que nos deparamos com a desilusão de viver. Daí, nos adentramos na angústia. Quantos não estão desistindo agora?!

 

Estamos nos entregando. No silêncio da realidade, a tendência tem sido pensar que não há mais solução. Os sujeitos estão devastados em seus psiquismos. Muitos estão na posição de quem devora quem – situação muito presente nas relações amorosas atuais.

 

 

O certo não seria quem devora quem, mas quem castra quem – no sentido de que ninguém é tudo para ninguém.

 

Viver é castrar e ser castrado . Ninguém existe para fazer todas as nossas vontades.

 

Viver é saber lidar com a falta que nada supre.

 

ORGASMO VERDADEIRO …

 

você

se

erotiza

ou

se

normatiza?

 

31

 

Nunca pergunte pelo amor do outro. Pode ser muito perigoso dizer do amor que queremos.

 

Além disso, desejar amar não é só ter uma companhia ou um sexo. Queremos o amor porque nos iludimos de que ele nos livrará do que nos perturba.

 

Não amamos apenas para ter um confidente ou um cúmplice. O amor não é assim – tão fútil – como pensamos. Se confidenciarmos ao outro quem realmente somos, ele desistirá de quem somos.

 

É por isso que caprichamos no penteado, na roupa e no perfume. No entanto, chegará a hora em que virá à tona quem somos e a verdade do amor que esperamos. É nesse momento que o outro dará sinais de que não pode nos dar esse amor. E entraremos em pânico.

 

A primeira regra do amor é se amar – mesmo não sendo fácil amar as verdades de si. Se assim o fizermos, não precisaremos nos submeter ao amor de quem quer que seja. Amaremos com toda a liberdade que o verdadeiro amor exige.

 

32

 

O desespero é o nada. E, diante do nada, queremos algo que nos sustente porque tudo pode acontecer.

 

O amor existe para aplacar nossas angústias. No entanto, nossos amores estão em pânico – tanto que queremos amar todos os amores ao mesmo tempo e loucamente.

 

Amamos UM, como se amássemos tudo, quando o tudo não existe. Daí, surtamos quando o tudo dá algum sinal de não ser muita coisa. Queremos a completude em todos ou ao menos um que seja completo. Como tal não existe, caímos na promiscuidade.  Achamos que podemos trazer o tudo do consumo para a vida. Não sabemos o que fazer com a angústia.

 

Viver é perturbador.  Na falta do tudo, sobra cada um com seu nada. Resta saber o que cada um fará com isso.

 

Espera-se que faça bem feito.

 

33

 

Quem disse que a palavra AMOR é o sentimento AMOR? Quem disse que o som da palavra AMOR é o sentimento AMOR? O amor não se define. Não podemos tomá-lo como conceito ou som.

 

O amor é para ser vivido e não para ser apreendido. Nunca deveríamos levar nada ao pé da letra. O amor é contraditório.

 

Só sabemos do amor romântico. Só sabemos tomar como dor o que não é amor. Não sabemos lidar com opostos. Somos assépticos demais para amar.

 

Tomamos o amor como a felicidade e o que não é amor como dor. Não sabemos perder. Não sabemos ouvir o outro lado com a mesma tranquilidade com que escutamos o lado que desejamos. Não sabemos levar junto o que não é do amor.

 

No entanto, não adianta fazer de conta que não existe. Não adianta jogar para escanteio. Só amaremos  no dia em que encararmos isto que – talvez – seja mais real que o próprio amor que sonhamos: a perda.

 

34

 

O amor que procuro não é meu e nem do outro. É um terceiro amor. Inventamos esse amor para fazer com que nosso amor faça algum sentido.

 

Amar é o melhor que podemos – tanto que muitos enlouquecem quando o amor acaba. O desamor é a verdade de existir.

 

Desembestamos a inventar coisas para negar o que temos como certo. Porém, tudo o que inventamos falha diante da realidade da vida.

 

Na verdade, ninguém ama. Amamos para tentar cobrir o amor que nos falta.

 

Toda superficialidade é reveladora do desespero de existir.

 

Deixamos de poetizar nossos amores. Passamos ao ato. Estamos ensandecidos. O amor não é mais o mesmo: coisificou-se.

 

Será que esse amor-coisa vai funcionar como estabilizador do nosso existir – sem qualquer diferença do que estabilizavam nossos antepassados?

 

35

 

Precisamos tomar cuidado quando nos demandam amor. Jamais poderemos dar o que não temos. O amor não é exato. Ele é a melhor resposta que temos para quem nos fez sem resposta.

 

Ninguém quer ser exposto ao pior. Queremos amar para nos sentirmos alegres e confortados. Não existe esse amor.

 

Todo amor é mal correspondido. Amar é dar a falta a alguém que não a quer. Amamos mesmo sabendo que seremos negados.

 

Amar é ir reconfigurando o que não sabemos. Há quem pare de reconfigurar. Há quem desista.

 

Não é por sexo que procuramos um grande amor. Amamos pelo sentido da vida e pelo desejo de não viver perturbados. É por isso que os livros de autoajuda são campeões de venda. Querem nos ensinar a amar quando o amor é mais fantasia que realidade.

 

Portanto, o amor que procuro é a resposta que eu gostaria de ter para a minha loucura. Não a terei.

 

Amar deveria ser – então – a capacidade de amar o não amor – e sem masoquismo, é claro.

 

DESEJO …

 

o outro é o seu desejo

ou

você é o desejo do outro?

 

36

 

Não amamos as pessoas – no sentido físico de amar. Amamos o modo como alguém se ama. No fundo, amamos o que o outro faz para não enlouquecer em seu existir.

 

Deve ser por isso que estamos amando tão pouco. O mundo nunca esteve tão perturbado.

 

Não amamos materialmente. Amamos a capacidade de alguém amar a si. Amamos quem não tem pânico por não saber de seu existir.

 

Quanto maior a vaidade, maior o desespero. Quanto maior o individualismo, maior a dependência de saber de si pelo olhar do outro.

 

É fácil amar um corpo jovem. Difícil é prosseguir quando falta vitalidade.

 

Amar é a capacidade de continuar. Mesmo com o amor para menos.

 

 

37

 

De que adianta desesperar? Por que ligar várias vezes? De que adianta não tirar os olhos do zap? De nada adianta se não somos a falta de quem preenche a falta que somos.

 

Como ser a falta do outro? Não há receita.

 

Só é amor, sendo o antídoto da ansiedade de quem se ama. Só é amor, se aparecemos na dor do outro.

 

De nada adianta o físico ou a conta bancária. Não é o físico que nos faz ser a falta de alguém. Não é o que vemos que faz a fissura do outro. É do outro a nossa ilusão.

 

Não temos poder sobre ninguém. O amor é quando alguém enxerga o que temos como complemento do que lhe falta.

 

Posso não ser a falta do outro quando sou a falta dele. O amor pode ser – também – uma espera dolorosa.

 

38

 

Gosto dos poetas porque a poesia ama o amor e o desamor.

 

Abandonei a razão de amar. Não gosto de ser enganado. Não gosto de exatidão e de conceitos. Não creio no sentido das palavras.

 

Não ama quem só ama o amor. Não sabe de si quem só ama o amor.

 

Inventamos o desamor quando inventamos o amor e criamos a fantasia de deixar o desamor para trás. Criamos a ilusão como verdade e inventamos a loucura. É mais certo que seremos desamados e que não conseguiremos cobrir esse desamor.

 

Há perdas irreversíveis. Teremos que inventar sobre o insuperável.

 

Como amar o desamor sem parecer masoquista? Eis o desafio. No entanto, não dá para continuar como se o amor fosse um conto de fadas.

 

39

 

Milhares de livros já foram escritos sobre o amor.

 

Então, por que fracassamos no amor? Fracassamos porque adoramos receitinhas, acreditamos no poder das palavras, em revistas de banca de jornal e subestimamos sair por nós mesmos.

 

Qual teoria é segura sobre o amor? Nenhuma. Isso é ruim? Não.

 

Tudo me foi imposto. Por isso fracasso quando busco fora o amor que não tenho. O fracasso é a oportunidade que temos de inventar por nós mesmos.

 

Precisamos saber-fazer com o que não sabemos – com a condição de que não seja continuar repetindo a dor.

 

PAZ …

 

escutar

sem

necessitar

pensar

 

 

40

 

Não é o amor a solução dos problemas.

 

O amor que procuramos não pode ser comprado. Nenhuma virilidade ou beleza o sustenta.

 

Não existe o amor que procuramos. Beleza pode não ser amor e bens materiais pode ser ilusão.

 

Amamos porque o amor tem o incrível poder de nos fazer esquecer o que não é bom..

 

Colocamos pessoas, objetos, ruídos, sonhos, doenças, medos e loucuras sobre o que não suportamos. Cremos poder nos livrar do insuportável. Doce ilusão!

 

E se não colocássemos nada? E se mudássemos nosso olhar sobre isso que tanto nos apavora? .

 

O amor não é o melhor remédio para as nossas desavenças existenciais.

 

Não é ser ou não ser feliz no amor. Ser feliz deveria ser tudo tanto quanto ser infeliz.

 

Amar deveria ser só por amor – sem usar o amor como remédio para os nossos dilemas.

 

Primeiro – amar quem somos – e com tudo. Por mais apavorante que isso possa nos parecer.

 

41

 

Ao experimentarmos um determinado sabor, dizemos que está uma delicia. É o máximo que conseguimos descrever desse nosso prazer.

 

Ninguém consegue explicar a sensação do vento. Lembro-me de não ter nada a ver o meu mergulho na cachoeira, com a explicação dada pela professora sobre a água.

 

Gosto mais do timbre das vozes que das palavras proferidas. Podemos imitar, mas nunca explicar, por exemplo, o canto dos pássaros.

 

Bom é só ver, ouvir, tocar e saborear.

 

O pensamento quer ir além dos sentidos. O pensamento faz mil do um de sentir.

 

Temos que saborear o zero de pensar.

 

Não é só o que o outro diz que me é importante. Gosto é da sonoridade de como sua voz me adentra: leve e suave. Essa é a sua verdade que ele não pode mudar.

 

 

Ha momentos em que o pensamento foge. Há momentos em que somos puro sentimento. É aí que nos conectamos com a verdade do mundo.

 

42

 

 

Sofremos porque esperamos. Pode não vir o que esperamos.

 

Esperamos a plenitude.

 

Compramos o carro e o reconhecimento. Compramos por completude. Compramos para negar a finitude.

 

Não é só o imediato. A existência tudo entremeia.

 

Dá para não sofrer? Sim. Faz sentido nada em troca? Sim. Com a condição de que o dado não vise ao retorno.

 

O ideal é zerar tudo.

 

Quem  tem, carrega o peso de ter. A alegria é vazia. A paz é a generosidade.

 

43

 

Amar não é só psicologia. Não é só reflexão.

 

Amor não é apenas discustir a relação. O amor é – também – corporal. Afinal, não só amamos. Mais que isso, experimentamos o outro – exceção apenas para os amores platônicos. Experimentar é tocar, cheirar, olhar e beijar.

 

Toda relação é mais que alma: é uma troca genética.

 

Há mais que o emocional. É por isso que a perda é tão dolorosa – e demora tanto para passar.

 

Não basta só compreender. É preciso trazer o físico para o amor. Quando entra o corpo, tem tratamento quando o amor acaba? Sim. Qual? O tempo do próprio organismo.

 

44

 

A felicidade não é uma solução intelectual.

 

Somos, tendo que apreender o inapreensível.

 

Amamos, porque colocamos o outro como supressor dos nossos dramas existenciais.

 

A ilusão do amor camufla nossos desesperos.  No entanto, esses nossos desesperos se sobrepõem ao amor: viramos mais desamparo que calmaria.

 

Perdemos e temos que nos reinventar.

 

Criar não cobrirá nossos ossos.

 

Qualquer amor não será da forma como gostaríamos: temos que amar o incompleto.

 

Não há amor perfeito. Amar é o possível de ser feito.

 

45

 

É porque alguém não foi amado que a infelicidade passou a existir.

 

O amor eterniza o momento. Nada mais terrível quando da ausência.

 

Quando é amor, a casa fica completa. O amor amortece os pesos.

 

Nada mais confortante que um toque e um beijo de amor.

 

Tudo fica mais leve por amor. Tudo de pior emerge quando falta amor.

 

Toda maldade se esvai por amor.

 

Quando a mesa está completa, nós nos alimentamos melhor.

 

Deveria ser proibido trocar amor por qualquer outra coisa.

 

FELICIDADE …

 

esquecer

ou

distrair

 

 

46

 

Sofremos, porque nosso amor está no tempo e no espaço. Ninguém pode ser extraído dessas dimensões. Entramos em desespero, porque nosso amor pode virar passado. Por estar no tempo, quem amamos pode mudar de amor.

 

Ninguém ama igual. O tempo tudo modifica. Não tenha ilusões: todo mundo muda.

 

Não sabemos o que acontecerá. É certo que seríamos sempre os mesmos se não estivéssemos no tempo.

 

Nosso amor não depende apenas do nosso desejo. Há outras forças. Daí o nosso desespero, porque nosso amor habita o espaço. Quem amamos pode se movimentar.

 

Não conseguimos ocupar tudo do outro. Por ocupar o espaço, o outro pode, inclusive, não voltar nunca mais.

 

Não podemos ficar vinte e quatro por dia controlando todos os passos dos nossos amores.

 

Entramos em pânico porque não podemos impedir que outras pessoas atravessem o caminho de quem amamos.

 

Nosso drama é que, nesse vai e vem, ele pode cruzar com outros amores.

 

Quando amamos, gostaríamos muito que o cárcere privado não fosse considerado crime.

 

Infelizmente, só não podemos ultrapassar o espaço e o tempo em que estamos. Nessas dimensões, podemos quase tudo. Somos o tempo e o espaço. Somos livres. Ninguém pode nos impedir de viver.

 

Se tiver que acontecer, vai acontecer.

 

Quanto ao amor que estiver conosco –  só poderemos lamentar.

 

47 –

 

Não é filosofia. Não é religião. Não é ciência. É poesia

 

Não é obsessão e nem arrogância.

 

Por fora, até há alguma lógica. Por dentro, é tudo contraditório – e só a poesia dá conta da contradição.

 

A poesia mistura. Nela não existe o certo. Nela tudo é possível.

 

Portanto, só ama quem sabe fazer poesia – porque a poesia tolera.

 

O amor não é técnica. Não somos máquinas de fazer amor.

 

Estamos perdendo nossa humanidade.

 

48

 

Ama quem faz poesia, quem canta para o seu amor, quem faz voz de criança, quem coloca apelidos carinhosos, quem dorme de conchinha, quem liga várias vezes, quem chora por amor, quem se faz de difícil, quem se faz de fácil, quem não quer pensar, quem levanta puto da mesa, quem paga as contas, quem perdoa, quem compartilha, quem faz amor  (e some), quem dá o número do telefone errado, quem só gosta de pé, quem tem fixação em bunda, quem só gosta de pau grande, quem só gosta de oral, quem só gosta de anal, quem só gosta de sarro, quem só gosta de homem, quem só gosta de mulher, quem gosta dos dois, quem gosta de poliamor, quem só gosta de mais velhos, quem só gosta de mais novos, quem só gosta de magros, quem prefere os mais gordinhos, quem trai, quem é traído. Tudo é amor.

 

Só não vale morrer de amor.

 

49

 

Queremos entender. Queremos padronizar. Há mais do que compreender. Há mais do que é dito. Não há consenso nas palavras. Ninguém é o que diz.

 

Nunca é o sentido. O melhor é a energia, o calor, a sonoridade e a tonalidade da voz. O melhor é a respiração, a trepidação das cordas, o pulso, o sussurro e a sensualidade de uma voz baixa e calma.

 

Gosto do afeto que vibra, do olho que brilha e do lábio que morde.

 

Não é entender. É o sentir sem duplo sentido. É ser com o corpo.

 

Gosto de emudecer a tela para sentir os gestos de Brad Pitt em “Bastardos Inglórios.”

 

50

 

As pessoas não estão em um patamar diferente das coisas e de nós mesmos.

 

Há quem diz: eu não vivo sem você. Ou –  você é tudo para mim.

 

Ninguém pode ser qualquer coisa para a nossa solidão.

 

Nada pode ser condição para a nossa felicidade.

 

Ninguém perde a liberdade quando ama.

 

Não posso colocar meu prazer na condição de UM. Tenho que estar no meu prazer. Não posso me esvaziar. O mundo não é só de um amor: há outros amores.

 

Preciso espalhar meu amor. Caso contrário, eu me angustiarei e sufocarei o outro com minhas loucuras de exclusividade.

 

 

COMO NÃO ENLOUQUECER NESSE MOMENTO NO BRASIL …

Quem não quer mudar essa situação patética que virou esse país?

Para tanto, ocupamos as ruas, replicamos textos e memes nas redes sociais e debatemos com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos.

No entanto, enquanto parece que nada acontece, não podemos adoecer.

Como não adoecer? Precisamos fazer com que o microcosmo compense o macrocosmo. Ou seja, na frustração do macro, gozemos do micro.

Nada pior que a sensação de se sentir um estranho em seu próprio país. Ou seja, de não se vê refletido no todo – especialmente quando o que você quer é um todo mais justo e melhor.

Neste contexto, precisamos usar do menor para nos fortalecer para o maior. Precisamos usufruir do particular para o enfrentamento do universal.

O entorno está bizarro. No entanto, ele ainda não tomou nossos livros, não adentrou nossas casas, nosso trabalho, nossas mesas de bar, nossas idas ao cinema e ao teatro.

Não podemos ficar só lá. É lá e cá.

Nesse momento, só o particular pode nos salvar. É hora de namorar gostoso, preparar comidinhas saborosas, encontrar os amigos, cantar as músicas que a gente gosta, visitar museus e exposições de artes, fazer uma atividade física, usufruir mais de si, de suas vontades e desejos, de seu sexo, gostos, cheiros e tatos.

É tanta pataquada que não estamos conseguindo desvencilhar. Talvez, seja exatamente essa a estratégia: nos enfraquecer e nos deprimir.

Quando o macro quer nos apagar, só nos resta o micro como visibilidade.

Estão tentando nos cegar para não nos enxergarmos em ninguém. Isto é enlouquecedor!

Portanto, não podemos soltar nossas mãos nas ruas, nos bares, nos quartos, nos cinemas e nos teatros. Enfim, em qualquer lugar que saiamos mais confiantes que entramos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

TENHO PREGUIÇA DE GENTE QUE SE ACHA …

É complicado se achar lindo, inteligente, viril e rico.

Ao nos definirmos desenhamos um outro de nós mesmos. Passamos a achar que ele será suficiente. Não será!

Daí, nos deparamos com o tempo que nos envelhece e com espaço que nos limita. Não podemos tudo! O tempo e o espaço são outros de nós.

Somos infinitos outros.

Também, nos deparamos com outros que não refletem a beleza, a inteligência, a virilidade e a riqueza que refletimos para nós mesmos. Seremos frustrados!

Não somos senhores de nós mesmos. É impossível controlar esses outros nossos que nos aparecerão.

É porque achamos que sabemos quem somos, que os outros que não sabemos de nós mesmos viram nossos próprios fantasmas.

Não choro só por quem morreu. Choro por mim que o morto me escancara.

Não brigo com outro. Brigo comigo mesmo quando não dou conta do estranho de mim que ele me revela.

O que penso de mim é o que carrego e uso para fazer com que nada fuja do meu controle. Doce ilusão!

Só sou agora. É impossível saber qual outro serei. Espera-se que eu seja um bom outro.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

OS CAPITALISTAS PENSAM QUE SOMOS IDIOTAS …

Marx dizia que o capitalismo cava o seu próprio sepulcro porque não existe nada mais óbvio que suas contradições.

Como é possível a ostentação de uma zona sul qualquer não gerar revolta naqueles que passam por ela todos os dias a caminho de suas favelas?

Como é possível a um caixa trabalhar feliz sabendo dos lucros milionários de seus patrões banqueiros?

Como é possível a um aluno da periferia não se revoltar com as melhores vagas das universidades públicas sendo ocupadas apenas por alunos de escolas privadas?

É óbvio que os funcionários de uma multinacional sabem que são eles que financiam a mansão, os carrões e as viagens de seus patrões.

Um peão não pode achar normal que seu salário nunca dê para comprar o carro que ele mesmo ajudou a produzir.

Nenhuma doméstica pode ser feliz vendo que nunca poderá servir à sua própria família o que ela serve à família da patroa.

Como o segurança de um shopping pode não se indignar de não poder usufruir do lugar que ele mesmo protege?

Ninguém é feliz podendo perder seu emprego à qualquer momento.

O capital pode colocar a polícia na rua. Pode criar seitas para ludibriar a pobreza com a felicidade celeste. Pode produzir novelas com empregados alegres à serviço de seus patrões. No entanto, nenhuma força, doutrina ou ideologia é mais forte que a realidade que se vê, vive e sofre.

Podemos reagir falando ou atuando. Na eminência de não poder dizer, atuamos de forma organizada ou marginal. O recado nunca deixou de ser dado. Uma hora ele ganha corpo e vira revolução.

Evaristo Magalhães – Psicanalista