O QUE É O INCONSCIENTE?

O inconsciente é que retorna desarticulando. É o sonho gay do homem hétero. É o pânico de morrer chamando para usufruir mais da vida. É o espelho dizendo não resolver se entupir de maquiagem. É a angústia dizendo ser preciso inventar algo.

Podemos reagir frente ao nosso inconsciente criando ou adoecendo sobre ele.

Nesse sentido, o inconsciente é – também – o homem hétero que se torna homofóbico depois de seu sonho gay. É o suicida que se adianta à sua própria finitude. É o compulsivo por cirurgias plásticas. É o depressivo fechado em um quanto escuro.

O inconsciente é o fato de que não abarcamos tudo. Ele é o depois que pode não ser o que esperávamos. Ele é a prova cabal de que não somos absolutos.

Ele transborda à toda inteligência. Ele é mais que qualquer conta bancária. Nenhuma beleza o suplanta. Nenhum poder o contém.

Ele é incontrolável. É inevitável. Ele vai aparecer – quer queiramos ou não.

Ele é o diagnóstico que nos impacta. É a péssima notícia. É o mal-estar que não esperávamos.

O inconsciente são as palavras que temos pavor. São as palavras que ainda não foram inventadas. É o que pode nos pegar com as calças nas mãos.

Ele é quando não estamos entendo. É o que não sabemos. É o vazio e o nada.

Ele só será um inimigo se não soubermos o que fazer com ele. Não deveríamos fazer com desespero, depressões, melancolias, agressões, dores e paralisias.

O inconsciente é o vácuo. Temos que inventar sobre ele ou simplesmente carregá-lo – e sem saber de que se trata.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

VOCÊ É VICIADO EM PESSOAS?

Não é de pessoas que somos viciados.

Primeiro o pensamento, depois o objeto.

Nossos vícios, antes das drogas das pessoas ou do álcool, são uma narrativa. É desse raciocínio que precisamos nos livrar.

Não somos compulsivos por coisas ou por pessoas. Somos compulsivos por ideias.

Os animais não sofrem porque não possuem uma narrativa da morte.

Sofremos porque tatuamos certas narrativas em nossos ossos e não conseguimos nos livrar delas.

Nossos pais, filhos e amigos são antes de tudo palavras e pensamentos que incutimos em nós.

É por isso que fazemos psicanálise para falar das nossas narrativas de dor. Os analistas as escutam em silêncio até que se desgatem ou esgotem.

Se seremos curados ou não, vai depender do que irá acontecer depois desse silêncio.

Espera-se que aconteçam apenas coisas boas!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE TEM GENTE QUE NUNCA SE ENXERGA?

Conseguimos associar algo que comemos com nosso mal-estar digestivo.

Conseguimos associar a forma como dormimos com aquele desconforto muscular que aparece no dia seguinte.

Ou seja, quando é físico damos conta – facilmente – de identificar a causa.

E quando é emocional? Por que nunca sabemos os motivos de nossas manias, revoltas, angústias e ansiedades?

Na verdade, não sabemos porque o que está por detrás de nossos dramas tem a ver diretamente conosco.

Me ver físico é fácil. Tomo um antiácido e logo meu estômago volta a funcionar. Tomo um relaxante e minha dor passa rapidinho.

E quanto aos meus sentimentos? Por que os temo tanto? De modo geral, tenho pânico do que sinto porque minhas manias, revoltas, angústias ansiedades podem estar relacionadas com sentimentos que eu não gostaria de ver em mim.

Freud fala que sentimentos que nos são insuportáveis podem ser deslocados ou condensados em coisas que nada têm a ver com eles.

Posso ter a mania – por exemplo -de verificar a maçaneta da porta muitas vezes e isto estar relacionado com algo perturbador da minha sexualidade que uso – esse ritual – para me punir ou extravasar.

Este é só um exemplo.

Não tenho dúvida de que a forma como nos comportamos diz muito de nós mesmos.

Só nos falta coragem para enxergar.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM TEM A VERDADE …

A questão é quando você quer anular a sua verdade.

A religião anula a sua verdade. A ciência e a filosofia, também.

A sua verdade é que você não tem verdade.

Você se torna arrogante quando se adere à qualquer dessas supostas verdades.

A questão é que nada suplanta o que – de fato – somos.

Toda verdade suprimida sempre retorna.

Quanto maior o medo da verdade, maior a arrogância como forma de mascaramento desta. É por isso que muitos enlouquecem.

Todo dono da verdade é um covarde de si.

A humildade é a verdade da vida!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NÃO GOSTO DE CERTAS PSICOLOGIAS?

Acho ridículo quando a psicologia vende a ideia de que existe uma lógica para nossos problemas existenciais.

Mais ridículo ainda é quando os bobinhos saem correndo para comprar esse equívoco.

É como se a psicologia pudesse ter uma solução para o fato de que vamos envelhecer e vamos morrer. Doce ilusão!

É como se ela pudesse ter uma teoria definitiva sobre o amor ou sobre os conflitos humanos. Faz-me rir!

Quem dera se existir fosse literal!

O que é a vida? O que é o amor? O que é a felicidade? Terminará em impasse qualquer teoria que elaborarmos sobre quaisquer desses assuntos.

Penso que o papel da psicologia é acolher esses impasses – e sem dizer que possui uma receitinha para qualquer coisa.

Nosso papel é escutar o outro até que seu dizer adquira o sentido de um antes e de um depois.

Psicólogo existe para fazer o sujeito deslizar de um depois à outro depois – e assim sucessivamente.

Espera-se que o depois apresente alguma mudança em relação ao que foi dito antes.

Mas isto, só quem pode decidir é o próprio sujeito.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

POR QUE NUNCA VOU COMPREENDER AS PESSOAS DEPRESSIVAS?

O problema não é a experiência da perda. Perder faz parte da vida. O problema é perder a capacidade de experimentar. Disso não podemos.

O problema é confundir impotência com impossibilidade. Impossível sempre será. Ninguém jamais será cem por cento feliz. Não existe o amor que gostaríamos.

No entanto, não podemos perder o poder que nos foi dado de sempre buscar a felicidade e o amor que desejamos.

Não existe limites para a experiência. Podemos uma infinidade de coisas. Podemos experimentar tudo enquanto estivermos vivos.

Não entendo as pessoas depressivas, ansiosas, angustiadas, tristes e melancólicas. Há um mundo de coisas para se degustar, cheirar, saborear, sentir, olhar, contemplar e admirar.

Temos um corpo. Estamos no espaço e no tempo. Podemos movimentar, falar, gesticular, ouvir e ver. Podemos alterar o que não está bom. Podemos sair de perto, andar, passear, viajar, abrir janelas e portas, receber pessoas, conversar, cantar, dançar, beijar e namorar.

Experimentar a perda é normal. Anormal é perder a vontade de experimentar. É óbvio que não experimentar não deixa de ser uma forma de estar experimentando. Ou seja, já é uma experiência experimentar o nada.

No entanto, se ficar no vazio for uma experiência de felicidade – como fazem os orientais – aí está valendo. Só não vale se for uma experiência mórbida. Se assim for, por favor, atente-se para o seu entorno. O mundo pode não ser perfeito. Mas quem disse que ele é imperfeito?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É RESISTIR?

Resistir é não repetir. Se assim fosse, não precisaríamos resistir. Resistimos porque o que tínhamos blefou.

Como resistir quando tudo evaporou?

A resistência é subjetiva. É quando é chegada a hora de se voltar para o próprio eu. Não para repetir, mas para se reinventar.

Resistir é arte. É criar novas identificações. É não fazer mergulhar o eu de volta ao seu passado.

A resistência não é linear, reta, direta, contínua, regular. A resistência é aspiral. É a capacidade que temos de criar para os lados, para cima, para baixo, para dentro e para fora. Ela aponta para a nossa infinita potência.

A mais difícil das resistências é resistir ao mesmo.

A verdadeira resistência é aquela que surge no limite, no fim, no obscuro e no vácuo. Resistir começa com a aceitação da derrota.

Não deveríamos retomar as velhas ideologias, os velhos pensamentos e as velhas crenças. Se assim o fizermos, é seguro que iremos novamente à bancarrota. Aí já não é mais resistência e, sim, masoquismo.

Resistimos não apenas ao outro que nos oprime. Precisamos resistir a nós mesmos e a tentação que temos de fazer renascer velhas doutrinas.

Resistir não é agir com paixão. Paixão é acomodação. Resistir é elaborar o luto da perda e se reinventar a partir dela. O opressor só será derrotado quando o pegarmos com armas novas.

Não saímos vitoriosos porque tememos perder e porque gostamos do já pronto. Perdemos por apego às armas de sempre.

Em nossas reuniões, manifestações, paralisações e greves, deveria ser proibido repetir o mesmo discurso, o mesmo jargão, a mesma fala, a mesma ideia e as mesmas palavras de ordem.

Precisamos experimentar a angústia do tudo perdido. Precisamos roer o osso das utopias e das teorias políticas. Precisamos aprender a triturar o nada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista