SOLIDÃO BOA …

agora

não

quero

ninguém

inclusive

em

meus

pensamentos

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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NINGUÉM É COMPLETO …

Vivemos na ilusão de que para sermos felizes temos que buscar a completude. Daí, saímos em busca de alguém. Compramos coisas. Pesquisamos ideias. Adotamos crenças.

Estamos buscando a nossa felicidade no lugar errado. O amor não é nossa felicidade. Não existe o amor que nos completa. O outro não é uma coisa. As pessoas possuem desejos para além de nós mesmos. Todo amor carrega alguma infelicidade.

Não temos mais lugar para colocar tanta coisa. Estamos destruindo o planeta. Cada objeto é um pedaço da natureza.

Pensar é perturbador. Não existe o último pensamento. É por isso que tanta gente emocionante destruída.

Portanto, não existe o amor que me completa. Minha falta não é quantificável. As palavras não são as coisas.

Daí, inventaram que a felicidade é uma busca constante. A felicidade não pode ser a angústia de nunca ser. Não pode ser felicidade viver toda uma vida na ansiedade de uma hora poder ser feliz.

Portanto, não existe o objeto da nossa felicidade. O melhor seria desistir de procurar? Não. O melhor é tomar o que não temos não como uma infelicidade, uma tristeza, uma melancolia. O melhor é tomar o que não temos como sendo nosso. O melhor é carregar o que não temos – sem querer suprimir ou cobrir com o que não tem cobertura. Não possuímos a vida. Não temos poder sobre ela. Da vida, só podemos usufruir. Só descobriremos a nossa felicidade no dia em que nos deliciarmos de tudo sem querer que tudo seja tudo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NÃO SER AMADO TEM QUE SER TÃO BOM QUANTO SER AMADO …

Quando ter um grande amor pode ser tão bom quanto não ter um grande um grande amor? Quando vencer pode ser tão bom quanto ser derrotado? Quando a alegria pode ser tão boa quanto a tristeza? A vida não é ser ou não ser. A vida não é ter ou não ter. A vida é ser e não ser. A vida é ter e não ter. Aliás, a vida é mais não ser que ser. É mais não ter que ter. Vamos envelhecer e vamos morrer. A vitória do NÃO é a única certa. A questão é que podemos demorar para ficarmos velhinhos. Nosso encontro com a morte pode durar décadas. Da vida, somos podemos por enquanto. Da vida, não podemos para sempre. A vida é o intervalo entre o nosso nascimento e a nossa morte. A questão é que somos muito vaidosos. Não contentamos só com a hora do recreio. No entanto, toda festa acaba. Uma hora o outro vira para o lado e dorme. Uma hora alguém que muito amamos pode não acordar nunca mais. Viver é usufruir do intervalo. Viver é gozar do agora. Há quem vive o agora desesperado em como burlar a tristeza de depois. Não podemos viver poluindo o nosso presente da perturbação de como ser feliz no futuro. Que vive para negar o NÃO, vive de NÃO. O meu agora não pode ser tomado pela luta por uma felicidade que nunca saberei. Viverei sempre de querer. Portanto, o amor que temos findará. A alegria que temos tem data de validade. Desse modo, o amor que não temos tem que ser tão bom quanto o amor que temos. A alegria que não temos precisa ter a mesma intensidade da alegria que não temos. Só assim não sofreremos. Este é o sentido da verdadeira felicidade.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

NINGUÉM SABE DE SI …

Tendemos a achar que sabemos quem somos quando temos clareza das nossas ideias, dos nossos sentimentos e das nossas reações. Achamos que nos descobrimos quando definimos a roupa que gostamos, nosso perfume favorito e qual profissão queremos seguir. Muitos se acham autênticos apenas por suas posições políticas, artísticas, religiosas e morais. Não somos no que sabemos sobre nós mesmos. Somos depois de todos os saberes que construímos sobre nós mesmos. Se soubéssemos sobre nós mesmos, não angustiaríamos. Não sofreríamos de ansiedade e não desenvolveríamos nenhuma doença psicossomática. Sofremos – exatamente – porque tememos a nós mesmos. Sofremos, para fugir de nossas verdades. Quando acho que sei quem sou – no fundo – estou é me acovardando de mim mesmo. Não saberemos quem somos tentando saber quem somos. Nenhuma palavra nos toca. A palavra é como a borda de um vaso que circula um vazio. Não sabe de si quem pensa sobre si. A religião mente sobre nós. A filosofia também. A ciência não menos. Não temos que buscar saber quem somos. Temos que carregar quem somos. Carregar sem querer saber. Carregar o que pensamos, sentimos e o que nenhum pensamento e nenhum sentimento pode fazer qualquer coisa por nós. Quanto à quem somos, não podemos resolver no campo do saber. Só podemos resolver no campo do fazer. Espera-se que façamos bem feito com isso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

SOBRE PESSOAS VICIADAS EM PENSAR…

Com quem estou quando não tenho ninguém comigo? Com quem converso quando ninguém está falando comigo? Eu deveria estar só comigo quando não tenho ninguém. Eu deveria estar em silêncio comigo quando ninguém fala comigo. Por que invento pessoas mesmo quando não tem nenhuma pessoa comigo? Por que converso com as pessoas mesmo quando não tem nenhuma pessoa conversando comigo? Por que não suportamos o silêncio? Por que não suportamos a solidão? Não temos paz porque não queremos. Somos as nossas perturbações. Nunca estamos só com o que temos. Estamos sempre inventando pessoas e situações. Carregamos nossos colegas de trabalho mesmo quando não estamos trabalhando. Agora que poderíamos usufruir de tranquilidade, estamos nos mortificando em problemas que sequer sabemos se irão acontecer. Somos viciados em pensamento. Somos viciados em pessoas. Somos viciados em problemas. Agora que poderíamos experimentar a leveza, nos abarrotamos de preocupações. Se o agora é sem ninguém, enchemos a nossa mente de gente do presente, do passado e do futuro. Não conseguimos parar de pensar mesmo quando ninguém está conosco nos cobrando de pensar. Não conseguimos parar de pensar mesmo sabendo que agora não é a hora de pensar. Não contentamos com as companhias que temos. Não contentamos com os objetos do nosso quarto. Não contentamos com o calor do sol. Com o frescor da noite. Com os barulhos da natureza. Com a nossa própria companhia. Somos viciados em gente. Somos compulsivos por problemas. Sentimos angústia mesmo quando poderíamos não ficar angustiados. Sentimos ansiedade mesmo quando poderíamos não ficar ansiosos. O pensamento é angustiante. O pensamento é ansioso. O pensamento não tem fim. Não há o pensamento do pensamento. Não sabemos deixar o pensamento para a hora do pensamento. Não nos damos sossego. Não nos desligamos. Não nos damos a paz.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

O QUE É A VIDA PARA A PSICANÁLISE?

Somos angústia – porque vamos envelhecer e morrer. Somos ansiedade – porque nos prometeram o impossível da fonte da juventude e da vida eterna. Portanto, somos imaginação, razão, angústia e ansiedade. Sonhamos e buscamos a verdade pela filosofia e pela ciência. A verdade não existe. Não é possível encontrar um nó entre o sonho, a razão e o nada. Mesmo assim não desistimos de encontrar. Por isso angustiamos – porque vivemos em um círculo ansioso entre sair e voltar para angústia – o tempo todo. Desse modo, a verdade da vida não é sonhar e nem pensar. Criamos a angústia e a ansiedade quando resolvemos fantasiar e raciocinar. Achamos que vamos enlouquecer se pararmos de sonhar e de refletir. Não é bem assim. Qual seria então a verdade da vida para a psicanálise? A verdade da vida é esquecer. Só os desmemoriados são felizes – porque não povoam suas memórias de lembranças e de sentimentos insolúveis. É possível não pensar e nem sentir o que não tem sentido? Sim. Os orientais sabem muito bem como fazer isso. A solução não é buscar resposta sobre o que não tem resposta. A solução não ficar indo e vindo sobre o que nada podemos. Pensar é infinito. A solução é focar em um ponto da mente sem antes e nem depois, sem causa e sem consequência, sem questão e sem porquê. A vida para a psicanálise é o silêncio. A vida para a psicanálise é a contemplação do nada.

Evaristo Magalhães – Psicanalista