Você costuma escutar seu corpo?

 

Cuidar de si não é só fazer as unhas, malhar ou aplicar botox. Existe um cuidado de si que é mais importante que tudo isto.

Precisamos nos perguntar o que estamos fazendo com nossos corpos. Precisamos nos perguntar pelos motivos de nossas tensões, pelos motivos das manchas que aparecem – de repente – em nossos corpos, pelas nossas incuráveis gastrites, rinites, enxaquecas e tantas outras doenças que nos acometem.

Não estamos sabendo cuidar de nós mesmos. Falta-nos amor próprio – na medida em que nos acovardamos e usamos nossos corpos como válvula de escape do que não estamos dado conta em nós mesmos.

Infelizmente, é em nossos corpos que aparecem os sentimentos que falhamos de resolver em nosso psíquico.

Quantos não são – quase diariamente – atacados por tremores, quedas de pressão, contrações, paralisias, dores musculares de toda ordem, dentre outras?!

Neste sentido, não nos amamos. Aliás, nosso amor próprio é só de aparência. Quantas pessoas ditas lindas e com recorrentes crises de herpes, problemas gástricos, intestinais e dores diversas?!

Precisamos observar mais nossos corpos. No entanto, precisamos ir além destes. Precisamos aprofundar quem somos: nossos medos e frustrações. Precisamos – acima de tudo – assumir nossa incapacidade de resolver em nosso psíquico o que é do nosso psíquico.

Precisamos dar paz aos nossos corpos. Nosso estômago, cabeça, braços, pernas, coração, pele, cabelo, boca e voz, não podem ser culpabilizdos pelos sentimentos que nos faltam de elaborar.

Precisamos parar de alterar a dinâmica natural do nosso organismo com problemas que nada dizem respeito à ele.

Precisamos perceber o quanto nossos corpos estão nos pedindo socorro.

Penso que confiamos demais em nossa resistência física. No entanto, tudo tem um limite. Se não dermos conta de buscar ajuda para resolver o que é do nosso psíquico, é seguro que nosso físico não nos suportará por muito tempo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

A vida não é pensar, é fazer …

A vida não se faz pensando. Temos as ideias e as coisas. No entanto, as ideias não são as coisas. A palavra maçã não é o objeto maçã. A palavra maçã não carrega o desenho, a cor, o sabor e a tessitura da fruta maçã.

Podemos viver no mundo do pensar ou no mundo das coisas.

Quem vive no mundo do pensar, vive no mundo das letras, das sílabas, das palavras, das frases, dos conceitos, das ideias e das teorias.

Quem vive no mundo das coisas, vive no mundo das formas, dos traçados, dos toques, dos contatos, dos cheiros, dos sons, dos sabores, dos gostos, das cores, das texturas, das sensações, das imagens, das paisagens, dos fluxos e dos movimentos.

Eu prefiro viver no mundo dos gestos. Gosto do imprevisível e das infinitas configurações do dia, da manhã, da tarde e da noite. Gosto de ver o céu, as nuvens, as montanhas, a terra e as árvores. Gosto de ver os bichos, suas formas, suas cores, seus movimentos, seus cantos e grunhidos. Gosto de sentir o clima, o frio, o calor, o vento e a beleza dos rios e do mar.

Os conceitos são fixos, constantes, regulares, sistematizados, rigorosos e profundos, mas são – também – frios.

Não gosto do que só tem sentido para a razão. Gosto do que tem sentido para o corpo, do que toca a minha carne, minha pele, me faz pulsar, tremer, gemer e regozijar.

Não gosto do pensamento que me desvincula do mundo e dos meus sentidos. Acho perda de tempo e de vida raciocinar sobre uma lógica que não me guie para usufruir com meus olhos, ouvidos e paladar de todo o meu entorno de coisas, espécies e pessoas.

Por que pensamos tanto? Para não ver, não sentir e não gozar. O pensar é asséptico demais. O sentir é diferente. Sentir é contraditório. Não tem forma definida. Não é previsível. O sentir é mais vida que pensar. Sentir é experienciar que tudo vai e vem, nasce, cresce, morre e renasce.

O pensar é a pretensão à uma verdade fixa que não existe concretamente. O sentir é mais verdadeiro porque nos faz usufruir enquanto podemos. No pensar, sequer usufruímos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista