NINGUÉM FAZ REVOLUÇÃO COM DEPRESSÃO …

Somos palavra e mundo. No entanto, as palavras não são as coisas do mundo. A palavra maçã não é a fruta maçã. Mas, há algo da fruta na palavra maçã.

Há alguma satisfação da fruta na palavra maçã.

Há algo das coisas do mundo que se estende ao campo da cultura. Não há dúvida de que as palavras envolvem e situam algo das coisas às quais se referem.

Parece que é disso que estamos esquecendo. Ou seja, estamos esquecendo do que podemos gozar do mundo.

Não podemos gozar inteiros de nada. Mas há algo das coisas que podemos extrair para nosso deleite.

Parece que resolvemos focar apenas no que do mundo não podemos usufruir.

Tudo começa pelo pensar. Tudo começa pela palavra. Parece que resolvemos pensar que nada no mundo faz mais sentido para a nossa alegria de viver. A sensação é a de que reduzimos tudo à parte chata de tudo. Não é assim.

O mundo pode não ser tudo o que gostaríamos. No entanto, ele não é – também – tudo o que não gostaríamos. Parece que viramos tudo ou nada – e optamos pelo nada.

Não queremos ver um filme pela parte chata de sair de casa, pegar um transporte e chegar ao cinema. Contudo, esquecemos da maravilha que é sentar com um saco de pipoca e se perder diante daquela telona.

Viver não é oito ou oitenta. Nunca seremos plenos. Também, nunca seremos vazios de tudo.

Entendo que é exatamente do que podemos gozar do mundo que funciona como contraponto do que não podemos gozar no mundo.

Ninguém faz revolução com depressão.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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