O QUE É O CIÚME

O ciumento quer o outro como uma parte de si que lhe falta.

O ciúme doentio está relacionado com o trágico da vida que não controlamos – como o fato de que vamos envelhecer e morrer.

O ciumento está fora do registro do amor saudável. Ele está na dimensão do mental que é alucinante e delirante.

O ciúme é o que sobra do amor e vai para tamponar o que é do existir do ciumento – que ele não dá conta por si.

Na verdade, o ciumento não quer amar. Ele quer alguém porque entende que só assim ele estará seguro de seu insuportável.

O ciumento quer reduzir tudo ao UM. Ele não se suporta no diverso: qualquer ausência não é a ausência de uma pessoa, mas a ausência de si.

Não é o outro-humano que o ciumento ama. Ele ama um outro-endeusado – tanto que só consegue amar tamponando o que há de mais desesperador em si.

O ciumento não está preocupado se o outro necessita de algum amor. Ele só pensa no amor que lhe falta. Ele quer o amor do outro para suprir o amor que ele não tem por si.

O ciumento pensa o tempo todo no outro porque enlouqueceria se tivesse que pensar em si.

O amor ciumento atravessa a sensatez e está situado no plano da loucura. Tanto que quer dominar o espaço e o tempo do outro – condições impossíveis de serem dominadas.

O ciumento está fora da dita normalidade da vida. Ele não aceita despedidas, não aceita a existência de outros lugares e do amanhã.

O ciúme é a vontade louca de recriar – aqui fora e à qualquer custo – uma espécie de útero materno com alguém.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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