O QUE É GOSTAR DE SI?

Ninguém suporta ficar o tempo todo na companhia de outras pessoas.

Ninguém suporta ficar o tempo todo pensando sobre si.

Ninguém vive só para carregar os problemas do mundo.

Precisamos nos abster dos outros e dar um tempo de sossego para o nosso mental.

Não há quem não precise vivenciar momentos de solidão – inclusive de ficar sem pensar em nada.

O que é gostar de si? Não é pensar sobre si. Não é elencar as próprias ideias e os próprios sentimentos.

Ninguém tem ideia própria ou sentimento próprio. Não somos autênticos pelo que pensamos e sentimos. Uma ideia sobre si e só a ponta do iceberg de uma infinidade de ideias sobre si – bem como um sentimento. Isto não é saber de si: isto é enlouquecer de si.

Gostar de si é gostar do que em si não é duplo. Gostar de si é gostar do que se é – e não do que se gostaria de ser.

Temos mania de buscar quem somos fora de nós mesmos.

Sou quando gosto da escuridão dos meus olhos fechados. Sou quando paro de escutar os barulhos mundo para escutar apenas os barulhos do meu corpo. Sou quando escuto o som da minha respiração e o movimento dos meus pulmões. Sou quando ouço meus batimentos cardíacos – e suas alterações. Sou quando gosto da sensação do contato do meu corpo sobre o lençol da minha cama e do edredom que me cobre. Sou quando gosto da sensação de tocar minhas pernas. Sou quando dou conta de sentir se meu coração está alegre ou triste – e sem qualquer julgamento. Sou quando encontro a  posição que mais gosto para colocar meu corpo. Sou quando não me cobro por não estar com sono. Sou quando me aceito e me respeito. Sou quando me ouço e gosto do que ouço. Sou quando me toco e gosto do que toco. Sou quando me sinto gosto do que sinto. Sou quando me vejo e gosto do que vejo – e sem me julgar.

A verdade de mim não é o que penso de mim. O que meu pensamento produz não sou eu. O que meu corpo produz – sim – sou eu porque é natural. Minha verdade é o que meu corpo exala.

Quando estou comigo devo me ater às minhas verdades de mim. Quando estou com os outros saio de mim porque desembesto a falar de mim e do mundo. Isto não sou eu porque hoje falo uma coisa e amanhã falo outra. Sou quando me ouço. Sou quando me toco. Sou quando me sinto. Sou quando me vejo – e sem palavras.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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