O QUE É A DEPRESSÃO?

 

Não entendo porque aprendemos que o escuro é pior que o claro, que o cinza não é tão bonito quanto o azul, que o cheio satisfaz mais que o vazio, que a presença conforta mais que a ausência e que a voz preenche mais que o silêncio.

Penso que a depressão advém do que aprendemos a sentir e a julgar sobre as coisas, as pessoas e as situações que compõem a nossa existência.

Quem disse que o escuro é pior que o claro? Com base em que inventaram que o cinza é triste e que o preto representa o luto? Alguém poderia fundamentar – para mim – por que para sermos felizes é necessário que estejamos rodeados de coisas, comidas, pessoas, vozes, sons, cheiros e cores?

Penso que a depressão é fruto dos julgamentos que fazemos sobre o que compõe nossas vidas.

Inventamos a ilusão de que a vida boa tem determinada cor, corpo, som, cheiro, imagem, luz, gosto, tamanho, peso e altura. Daí, na ausência destes componentes, entramos em depressão.

Dizem que nossa felicidade é concreta, tem cor específica, luz, sabor, perfume e gosto. É por isso que muitos enlouquecem na falta desta concretude. Na ausência disso que nos faz rir, salivar e gozar, entramos em depressão.

Quem disse que o escuro não pode ser alegre? Quem disse que a tristeza é cinza? Onde está escrito que não posso amar a solidão e o silêncio?

Entramos em depressão porque hierarquizamos a vida.

Não podemos delimitar a nossa felicidade. Não temos tudo. Não somos tudo. Não temos poder de prever o que virá – sequer – daqui a pouco. Não podemos gostar só disso ou só daquilo. Não podemos amar a presença e odiar a ausência.

Sofremos, porque criamos, moralizamos e selecionamos nosso viver. Sofremos, porque transformamos tudo em pares de opostos.

No entanto, a vida é fluxo. A vida é contraditória e imprevisível.

Nada do que sentimos deveria ser feio ou bonito, triste ou alegre, certo ou errado, verdadeiro ou falso.

Todo o nosso sentir deveria ser tomado como parte de quem somos e do que somos compostos.

Não deveríamos viver obcecados por um certo conceito de felicidade.

Não controlamos tudo o que nos vem. E se nos vem é porque é nosso. E se é nosso é porque é humano. E se é humano, é para ser vivido com toda naturalidade e humildade: sem angústia e sem desespero.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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