POR QUE NÃO GOSTO DOS ANTIDEPRESSIVOS?

 

Tudo tem algum propósito. Não vamos à padaria apenas para buscar o pão. Precisamos do alimento para viver.

Ninguém viaja só por lazer. Viajamos para não cairmos em depressão.

Ou seja, tudo o que fazemos é para não adentrarmos em um estado de letargia existencial.

Tudo o que sei de mim é composto de imagens, ideias e falas que escolhi para me auto-referir. É este saber que determina o modo como vou lidar com meu corpo, minha aparência, minhas ideias, emoções e ações.

Não gosto de antidepressivos porque me retardam e neutralizam meu poder de construir um saber sobre mim.

Outro dia encontrei uma senhora que se refere ao seu sonífero com a intimidade de “meu Rivotril”. Tenho um conhecido que diz que antidepressivo deveria ser colocado em todas as caixas d’água dos domicílios brasileiros.

Por que tantos preferem os psicotrópicos no lugar de construírem um saber sobre si?
Não é mesmo fácil saber de si. Ninguém é literal. Os saberes são muitos e as palavras são infinitas.

No entanto, quem somos não pode ser comprado e ninguém pode fazer por nós. É de cada um.

É por isto que muitos preferem as drogas: o efeito é imediato e dispensa o usuário de se ver no insuportável de si.

No entanto, não saber de si é acovardar-se  – o que não resolve.

Não sabemos sobre o amanhã. Não existe medicamento capaz de curar nossos enigmas de existir.

Deve ser por isto que muitos estão desistindo – porque quando se dopam perdem o poder de se reconhecerem em seus próprios espelhos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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