VOCÊ JÁ SE DESCOBRIU?

Sou quando ninguém sabe de mim. Deixo de ser quando sou encastelado em alguma palavra, algum conceito, teoria, ideologia ou doutrina.

As palavras não são as coisas. A palavra casa não é o objeto casa. A palavra sentimento não é o sentimento. O sentimento é para ser sentido e não para ser compreendido.

É por isso que não sou quando falo de mim. Não sou quando penso em mim. Só sou quando ajo. Quando me toco. Quando me sinto.

Fujo de mim quando quero saber quem sou. Pensar e viver são mundos absolutamente distintos. É como corpo e alma. A alma é uma invenção de controle do corpo. É preciso ir além da alma.

Não somos a partir do já pronto – a não ser que criássemos nossas próprias palavras.

A questão é que só buscamos quem somos a partir do já existente. É por isso que nossos psicanalistas são quase mudos. Querem nos emudecer para ver como vamos nos arranjar com o nosso silêncio.

Não somos onde estamos acostumados a estar. É por isso que o depressivo cansa de procurar. É por isso que o suicida desiste de continuar procurando. Não se trata de procurar. Trata-se de abandonar tudo.

Só é realmente novo quando tudo o que já é deixa de comparecer. O resto é tudo mera repetição.

É porque repetimos que sofremos tanto. Quanto mais repetição, mais recalque daquilo que quer nascer e não pode. É uma pena!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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