O AFETO É TUDO …

Ao sairmos na rua o que vemos? Ao chegarmos em uma festa o que vemos? Pessoas? Não. Vemos corpos. Pessoas são mais que corpos. São afetos.

É neste sentido, que os corpos, em princípio, não são pessoas. São apenas corpos.

Não posso chegar em um ambiente qualquer e esperar encontrar pessoas. Os corpos só serão pessoas, para mim, na medida em que me endereçarem algum afeto.

De modo geral, chegamos em um lugar sempre esperando encontrar pessoas. Sofremos porque esperamos encontrar algum afeto de alguém em nossa direção. Pode não acontecer.

Desse modo, somos, em primeiro lugar, sempre, solidão. Onde quer que estejamos temos que nos sentir como se estivéssemos em um deserto. Quem nos rodeia precisa ser visto como um ser ambulante que desconhece a nossa existência.

Não posso olhar os corpos como se fossem pessoas. Não posso olhar os corpos procurando o meu afeto neles. Não posso ir por afeto. Não posso chegar fissurado por afeto. Não posso querer que os corpos me reconheçam como pessoa.

Em princípio, tenho que me sentir como não existindo para ninguém. Tenho que me sentir só existindo para mim. Tenho que interagir meu afeto com o ambiente – uma vez que a decoração, a música e a bebida, por exemplo, não necessitam de ter afeto por mim para me fazerem sentir bem.

Aprontamos, maquiamos e nos perfumamos para tentar trazer o afeto dos outros para nós. Todo mundo quer ser reconhecido como pessoa. Quer ser amado, elogiado e desejado por alguém. Ocorre que pode não acontecer. É por isso que o melhor é enxergar todos como seres, em princípio, desafectados. Nunca esperar ser reconhecido como pessoa por ninguém é preventivo da frustração.

Se alguém lhe endereçar algum olhar de desejo, atente-se para a força e a duração deste olhar. Nem toda visada é de afeto. Olhares famintos não são de afeto, por exemplo. Quanto mais profundo, contemplativo e sensível for o olhar mais revelador ele será de sua pessoa para o outro. Fora isto, são corpos cruzando com corpos e não pessoas cruzando com pessoas. O afeto é tudo. Hoje ele está ficando cada vez mais raro. Melhor é não esperar por ele. Melhor é nutrir para si o afeto que seria para o outro. No entanto, não tem preço a magia de afetar e ser afetado por alguém. Muitos já viveram esta experiência. Muitos poderão nunca viver. Afeto não se compra. Afeto não se obriga. Afeto é sorte, destino, coincidência ou magia. Não existe explicação.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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