DESEJAR DEMAIS PODE SER UM GRANDE PROBLEMA …

Freud fala do mal-estar na cultura. O que provoca o mal-estar? A ilusão. A cultura é uma ilusão porque é plural.

É angustiante tudo o que é mais de um. É angustiante tudo o que pode não ser apenas isso. É angustiante tudo o que não é consenso.

Há várias concepções. Há uma infinidade de textos sobre uma infinidade de assuntos. A gastronomia, por exemplo, nunca é só o arroz com feijão.

Melhor seria a literalidade. Melhor o que não tem vários lados. Melhor a letra e não a palavra. Melhor o UM e não o dois ou o três. Melhor o que não me faz sofrer por desejar.

A questão é que o literal pode ser de uma cor só, de uma única forma, de um único som, de um só sabor ou de um só conceito.

O literal é. Por isso, ele não me angustia. Não me deixa ansioso ou deprimido. Ele não tem futuro, não me incita, não me excita e não me provoca. Ele é o aqui e o agora. Fico nele, sem pensar, sem divagar, sem delirar, sem fantasiar e sem sonhar.

Nele sou sem querer ser mais. Ele me contenta. Não o julgo, não o comparo e não o questiono. Devo me apaixonar por ele porque tudo o que é múltiplo é doloroso – uma vez que me torna insatisfeito.

O melhor seria gostar como se não existisse outros.

A natureza vive na literalidade porque não tem consciência.

Bonito não é Schubert porque existe Bach e tantos outros. Pensar é angustiante porque não existe o pensamento do pensamento. Nunca é só isso. Nunca sou o que sou.

Gozamos com o chocolate que temos e sofremos pelo chocolate que gostaríamos de ter.

Precisamos aprender a gostar sem desfazer do que temos. Precisamos dormir sem achar que dormiríamos melhor se tivéssemos isso ou aquilo. Precisamos amar sem achar que amaríamos melhor se ou outro fosse assim ou assado.

Nosso querer não deveria partir do que nos falta. Deveríamos ser insatisfeitos sem fazer doer a nossa insatisfação. O que não tenho deveria ser completamente independente do que tenho. Deveríamos gozar mais não porque estamos gozando de menos.

Fora isto, cairemos no vácuo da eterna angústia e viveremos de um futuro que nunca será.

Dizem que a imbecilidade é um problema porque é ignorante da diversidade. No entanto, a inconsciência da falta torna a vida menos afoita, ansiosa ou angustiante. Infelizmente, para a nossa sanidade mental, temos que aprender a oscilar entre a loucura que é a nossa humanidade e a tranquilidade de um lírio do campo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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