QUAL O LADO BOM DA MORTE?

Ninguém morre. Voltamos para a terra. Viramos planta. Água. Ar. Calor. Frio. Seco. Úmido.

Qual é o lado bom da vida? Experimentamos sensações. Saboreamos. Cheiramos. Tocamos. Pensamos. Julgamos. Projetamos. Movimentamos. Fantasiamos.

Qual é o lado ruim da vida? Nunca estamos satisfeitos. Nunca é a sensação que gostaríamos. O toque está sempre por vir. Nenhum sabor é definitivo. Há sempre um cheiro melhor. Não há limites para os sonhos e nem para os movimentos. Sempre insatisfeitos. Sempre angustiados. Sempre ansiosos. Sempre tendo que recomeçar.

Qual o lado bom da morte? Retornamos para a natureza. Planta não pensa. Água não sente. Ar não fica ansioso. Na natureza as coisas são como são. O fresco não tem autonomia de virar quente. O frio não tem o poder de mudar para morno. O fluxo natural independe da vontade dos elementos. Tudo é o que é – e sem a obrigação de ter que ser qualquer outra coisa.

O contrário da vida. Somos seres de desejo. Vontade. Potência.

Viver nunca é. A natureza só é. Na vida tudo pode deixar de ser. A vida muda porque estamos obrigados a um melhor que nunca vem. O bom é que nesta trajetória de busca experimentamos sensações, paisagens, sons e sabores enquanto tentamos vencer nossas mazelas.

Qual a grande lição de tudo isso? Viver é bom, mas é angustiante. Para não angustiarmos, temos que aprender a virar uma planta. Virar calor. Frio. Seco. Úmido. A natureza não toma antidepressivo. Não enlouquece. A natureza não pensa. Não deseja. Não tem vontade. Não tem ambições.

Sofremos, porque estamos desintegrados da nossa natureza. Estamos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes da nossa naturalidade. A natureza é a nossa verdade. É para ela que retornaremos. Seremos eternos na medida da eternidade destes elementos que nos rodeiam.

Deveríamos atentar mais para o mundo natural que nos cerca. São tantos barulhos, cores, movimentos, gostos, cheiros e texturas. Ali nada sofre, nada angustia, nada fica ansioso e nada surta. Tudo é como é – sem alternância. Sem contradições. Sem questionamentos. Sem medo. Sem angústia. Sem ansiedade.

Observar a natureza – incorporando seus elementos – não deixa de ser uma forma de experimentar o lado bom da morte mesmo estando vivo. Talvez, não exista melhor vida do que experimentar o melhor da morte.

Ninguém duvida da importância de pensar. Projetar. Julgar e sonhar. No entanto, perdemos o sossego quando desembestamos a pensar porque ninguém tem o pensamento do pensamento. É por isso que precisamos descobrir a verdadeira vida nas coisas que parecem mortas.

Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s