VOCÊ É SEXUALMENTE LIVRE?

Até bem pouco tempo a religião restringia o sexo à gravidez – seguindo os ditames bíblicos da multiplicação da espécie. Durante um bom tempo a psicanálise enveredou por esse caminho. Freud achava pervertida toda e qualquer manifestação da sexualidade que não visasse à reprodução. Ainda bem que superamos essa ideia. Ampliamos nossa sexualidade para além da continuidade da espécie. Descobrimos que tocar, beijar, masturbar, fazer sexo oral e anal é – também – transar. Mesmo assim, não conseguimos nos livrar de postular um roteiro para a nossa sexualidade. Tanto que ainda insistimos em falar de sexo normal e de sexo anormal. Incluímos outros prazeres, mas continuamos insistindo na necessidade de seguir um protocolo sexual. Quando alguma coisa foge desta programação, sentimos culpa e nos condenamos. Não podemos só tocar. Não podemos só beijar. Não podemos começar pelo penetrar. Não podemos não ejacular. Ficamos incomodados quando nossos parceiros destoam desse roteiro ou propõem algo diferente disso. Temos a mania de levar para as nossas transas uma rotina parecida com o que acontece em nossas vidas cotidianas. Adoramos o constante e o regular. Isto é bom? Por um lado, sim. Nos sentimos seguros e tranquilos. Por outro, não. Detonamos nosso sexo com a rotina. Sexualidade é prazer. O que é o prazer? Impossível saber. O prazer envolve corpo e alma. Impossível mapear o prazer. Não vemos e não tocamos o nosso prazer. Não sabemos o limite da nossa alma. Não sabemos o limite dos nossos impulsos, sentidos e reflexos. Sabemos da nossa anatomia. Não sabemos da alma que faz pulsar nossos ossos, músculos, cabelos, poros e líquidos. O sexo é infinito. Sexo é entrega do que vem de si. Sexo é deixar fluir. Sexo é perder-se de si. É entregar-se de corpo e alma. Não é conduzir o prazer. Não é a mente que diz. É o corpo que dita. É a alma que dita. Assustamos com o nosso sexo porque o temos programado. Não deixamos nossos corpos e alma livres. Levamos a moralidade para a cama. Matamos nosso sexo quando ditamos como tem que ser. Já somos programados demais para o trabalho e para a vida social. Não deveríamos levar essa programação para a nossa intimidade. De alguma liberdade não podemos prescindir. Talvez, e exatamente por isso, as pessoas estejam tão infelizes. No que podemos, não nos permitimos. No que podemos nos permitir, nos escravizamos. Só diz respeito à mim o que faço com quer que seja quando tranco a porta e apago as luzes.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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