SOBRE PESSOAS VICIADAS EM CELULAR …

Até bem pouco tempo, se quiséssemos acessar as informações, tínhamos que esperar a carta chegar, o jornal ou o noticiário do rádio ou da tv. Sabíamos de tudo e para saber mais tínhamos que esperar o dia seguinte. Recebíamos as notícias e voltávamos para o nosso cotidiano. Éramos mais sociáveis. Nossa alegria de viver era mais diversificada. No entanto, nunca encontraremos o que estamos procurando. Por isso, diversificamos. Quanto mais diversificamos, mais humanizados ficamos. Hoje, não mais tiramos os olhos do celular. Perdemos o tempo e o espaço real. Perdemos as pessoas e as coisas reais. Reduzimos nosso olhar. Vivemos de cabeça baixa.

Achamos que a solução de todos os nossos problemas está toda ali. E como, apenas com este pequeno aparelho, interagimos com tudo e em tempo real, achamos que tudo o que precisamos encontra-se ali. Achamos que tudo o que vai aparecer, a qualquer momento, em alguma mensagem do watszap, em alguma plataforma de emprego ou em algum aplicativo de relacionamento. Daí, ficamos desesperados,ansiosos e angustiados – à procura de algo que, no fundo, nunca vem. Pulamos do watszap para o facebook, do facebook para o Instagram. Quando chegamos no Instagram, já está na hora de voltar para o watszap e recomeçar todo um círculo que não para nunca. Não lemos mais um livro. Não conversamos mais com as pessoas. Não interagimos mais com o ambiente. Achamos que a nossa felicidade virá pelo nosso celular. Como nunca vem, e como estamos certos de que virá, não desistimos nunca de procurar. Nessa insistência, estamos nos desconectando da realidade, das pessoas e do mundo. O problema é que precisamos retornar. É por isso que muitos estão retornando meio como zumbis ou meio como se estivessem fazendo uso de alguma substância estranha. Haja visto o desespero das pessoas quando o celular desaparece, é roubado ou quebra. O que tanto buscamos nas redes? Por que estamos tão hipnotizados pelos nossos celulares? É certo que o que quer que estejamos procurando, não encontraremos. Não podemos prescindir de outros sentidos existenciais. É porque a notícia não chegava, que sempre esperávamos a próxima carta. Enquanto isso, não surtávamos, porque íamos conversar, ver um bom filme, ler um bom livro, brincar, namorar ou passear. Preocupa-me quando esses nossos viciados em rede social se derem conta de que a alegria de viver está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não está em lugar nenhum. Pode ser que tenhamos que ensiná-los – como se estivéssemos ensinando a um bebê que acabou de nascer – a verem um mundo real – e muito mais interessante – que esteve o tempo todo a um palmo de seus narizes.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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