QUEM COBRA FIDELIDADE, NO FUNDO, É INFIEL …

Quem cobra fidelidade, no fundo. é infiel. Quem cobra fidelidade, quer o outro todo só para si. Quem quer o outro todo só para si, é porque não se tem todo só para si. Quem quer o outro todo só para si, usa seu outro para conter-se de sua própria infidelidade para consigo. Todo infiel necessita da fidelidade alheia para conter sua própria infidelidade. É óbvio que não estou tratando aqui de infidelidade apenas no sentido sexual. Estou tratando de infidelidade no plano existencial. Infidelidade no sentido de não saber de si. Infidelidade no sentido de exigir o outro todo só para si para saber de si. Ninguém entra em desespero ou mata por amor apenas porque pegou o parceiro ou a parceira beijando ou transando com outrem. Não sejamos ingênuos! O buraco é bem mais embaixo. Todo mundo que surta por amor, na verdade, enlouquece, porque a infidelidade do outro o jogou no buraco de uma infidelidade – que é sua – e que ele nunca conseguiu estabelecer consigo mesmo. Primeiro eu comigo, depois eu com o outro. Ninguém deve existir para mim com a intenção de me livrar do que não sou fiel a mim. Primeiro fidelidade a mim, depois fidelidade para com o outro. Se sou fiel a mim, não estou nem aí para a infidelidade alheia. Se sou fiel a mim, a presença do outro não me é assim tão necessária ao ponto de sua ausência me fazer enlouquecer. Não é a ausência do outro que me faz pirar. É a minha ausência que me é desesperadora. Ninguém fica vigiando alguém vinte e quatro horas por dia apenas por causa de um beijo ou de uma transa. Vigiamos o outro porque necessitamos dele como contentor da nossa loucura. O fato é que as pessoas – hoje – não estão dando conta mais de si sozinhas. As pessoas viraram crocodilos umas das outras. As pessoas estão tão perturbadas com suas existências que, parece, não lhes bastar ter o amor do outro nos momentos em que ele – livremente – se dispõe à lhes dar o seu amor. As pessoas querem tomar as outras como se tomam coisas. As pessoas querem transformar as outras em animaizinhos de estimação – e sempre disponíveis. As pessoas querem transformar as outras em peças de roupas penduradas em seus cabides. Esquecemos que – primeiro – a coisa se passa conosco mesmos. Infelizmente, parece que viramos pessoas completamente dependentes da presença alheia para nos dizer quem somos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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