QUANTO MENOS INTELECTUAL, MAIS EU GOSTO …

Não gosto da arte que me faz pensar: odeio ser enganado. Gosto da arte que me faz ver. Penso para não ver. Falo para não ver. Gosto da arte que me prepara para ver o que, em algum momento, terei que ver, na realidade, e em carne viva, querendo ou não. Odeio arte água com açúcar. Odeio livros de autoajuda. Odeio filmes com finais felizes. Não existe final feliz. Gosto do silêncio dos psicanalistas. Quanto mais silêncio, mais verdade. Quanto mais blá-blá-blá, mais baboseira. O silêncio do divã me faz ver. O silêncio do diva, me faz ver para ver o que vou fazer com isso. A psicanálise é a coisa. A arte é a coisa. Fugimos para não ver. Hostilizamos para não ver. Nosso tempo nunca viu tanto – por isso tanta fuga pela arrogância e pela intolerância. Quem fala demais é porque está desesperado. Não queremos ver o que não somos: narciso acha feio o que não é espelho. Não é questão de escolha: teremos que ver quem não somos. É por isso – talvez – que a arte esquelética seja tão abominável. Esta é a arte boa. Ela me faz antevê meu pânico. Ela me faz sofrer sem estar sofrendo. Ela me cria intimidade com a minha dor sem me fazer um masoquista. Inteligência não é filosofia, ciência ou religião. Isso é enganação. Inteligência é trazer à tona a ruína recalcada pela estética fútil. Seríamos bem menos problemáticos se não fugíssemos tanto do que nos espera – inevitavelmente – em algum lugar que pode ser daqui a pouco, amanhã ou depois de amanhã.

Evaristo Magalhães – Magalhães

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