QUANDO A DEPRESSÃO É POSITIVA?

As coisas precisam fazer sentido. Quanto mais sentido, mais vida. Quanto menos sentido, mais depressão. O sentido é a finalidade. Não pode ser sentido fazer só por dinheiro. Não faz sentido matar porque é negro, mulher, pobre e LGBT. O pior não pode fazer sentido. Não faz sentido melhorar para si, piorando para os outros. Não faz sentido a mentira, o cinismo e a hipocrisia. Não faz sentido o faz de conta. Ao compactuarmos com o pior, estamos compactuando com a nossa própria decadência. Ninguém fica bem sabendo que não está bem. Felizmente, a mentira ainda nos incomoda. A comemoração – quando não visa ao bem – é uma comemoração forçada. Não é alegria ter que ficar alegre. Dependendo do elogio, não é elogio, é garantia de sobrevivência. Se há consistência, há leveza. A alegria é o conteúdo. Ainda não perdemos nossa humanidade. Ainda temos esperança de um dia discutirmos só o que interessa. Ainda achamos que as coisas não vão ficar assim. Ainda achamos que o que é mais importante vai retornar um dia. Ainda sonhamos com um mundo melhor. Compactuamos, na esperança de que um dia viveremos do que acreditamos e do que gostamos de fazer. Ainda sonhamos. É assim, só por enquanto. Nossa tristeza é passageira. Um dia não mais faremos o que estamos fazendo. Temos noticiais de lugares que não são assim. Estamos disfarçados de alegres, porque cremos que nossa alegria verdadeira chegará. Vivemos de fazer trampolim. Estamos assim, só por enquanto. Em algum momento, seremos menos mórbidos. Em algum momento, seremos – de fato – felizes. Se assim não fosse, não estaríamos fazendo sintoma. Nossa angústia é sintomática de que alguma coisa não está bem. Nosso descontrole, é o descontrole do que não podemos falar. Nossa ansiedade, é a ansiedade que estamos percebendo em nosso entorno. Nossa depressão, é a depressão do mundo. Nesse sentido, nossa depressão não deixa de ser a nossa indignação. Isto significa que ainda não perdemos – totalmente – o sentido de viver. Ainda consistimos de alguma nobreza. Ainda não estamos cem por cento pulsão de morte. O problema é até quando nos sustentaremos nesta depressão?

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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