POR QUE TANTO SURTO?

Na época de Freud as histéricas simulavam suas doenças para dizerem de seus desesperos para com seus desejos proibidos. Até bem pouco tempo, sabíamos que não podíamos e lidávamos com o proibido brincando com o mesmo. Era o caso de beber socialmente: íamos quase lá, mas não íamos. Falávamos bobagens, mas não fazíamos. E se fazíamos, reagíamos com discrição ou com alguma hipocrisia: todos sabiam, mas fingiam não saber. Sabíamos o que fazer com o retorno do recalcado. Freud quis fazer o inconsciente vir à tona de outro modo, ou seja, tornando-o consciente: saber de si, mas não agir como si. Na atualidade, parece que perdemos a capacidade de brincar de monstro: viramos monstros. Não bebemos só para experimentar a sensação alcoólica. Bebemos para colocar a nossa vida em risco. Não ameaçamos apenas para fazer pressão psicológica.

Infelizmente, não podemos mais acreditar que as pessoas estejam só falando. Não podemos mais pensar que o outro não terá coragem de fazer. Não podemos acreditar que não é possível que a pessoa seja capaz de tanto.

Até bem pouco tempo sentíamos culpa só de pensar. Agora, não é só imaginação: é realidade. Antes, resolvíamos esperando um milagre, implorando pela volta, odiando, chantageando, acreditando na justiça divina ou esperando passar com o tempo. Agora, todos esses recursos, parece que se esgotaram. Estamos morrendo quando não sabemos o que fazer. Não sabemos mais usar da cultura, da religião, dos filmes, dos livros de autoajuda e dos conselhos de amigos e familiares. Esquecemos de que viver é mais representação que realidade. Não nos perguntamos mais se estamos certos. Não duvidamos de nós mesmos. Não sabemos resolver de outro modo – que não atuando com nossos impulsos. As crianças não brincam mais nem de faroeste e nem de médico. Estamos indo às vias de fato. Não sabemos mais fazer brincadeira de carrinho. Estamos levando para a prática o que era para ficar só na imaginação. Não usamos esteroides para afirmar a nossa masculinidade. Estamos nos matando por uma masculinidade impossível. Queremos dirigir como como nas corridas de velocidade que vemos pela TV. Queremos transar como nos filmes pornográficos. Estamos nos matando como nos piores filmes dos piores canais de televisão. Perdemos a capacidade de resolver de outra maneira. Não sabemos mais fazer poesia, escrever ficção, delirar ou alucinar. Estamos passando ao ato: é a barbárie.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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