POR QUE NÃO SOMOS VERDADEIROS?

Quem nos procura para fazer análise, normalmente, chega com a fala já toda padronizada socialmente. Ou seja, ninguém quer ter culpa de nada do que lhe aconteceu. Todo mundo que nos procura quer nos seduzir com a seguinte conversa: tenha pena de mim, me ajuda, não aguento mais sofrer. Freud disse uma vez que quando João lhe fala de Pedro, ele sabe mais de João que de Pedro. Aprendemos a levar a vida – muito bem- não sendo verdadeiros. Por isso, nos vitimizamos. Por isso, nunca somos nós. Por isso, nunca assumimos a nossa culpa. Portanto, temos a notória mania de contar as nossas mazelas sempre atribuindo a alguém a culpa pelo nosso sofrimento. É sempre um pai que não presta, uma mãe louca, um namorado canalha ou uma esposa vadia. Nunca me pergunto porque esse pai não presta para mim. Nunca me pergunto porque essa mãe é louca comigo. Nunca me pergunto porque esse homem fez tanta canalhice logo comigo. Nunca me pergunto porque essa mulher traiu – especificamente – a mim. Ninguém sobrevive – por muito tempo – não prestando, sendo louco, canalha ou traíra com todo mundo. Minha mãe dizia que o diabo sabe muito bem para quem aparece. Quando alguém chegar para você sofrendo, não escute este sofrimento colocando essa pessoa na condição de vítima. Escute esse sofrimento como um desejo. Ao sentir pena dela, você estará sendo enganado: você estará realizando tudo o que ela mais espera de você. A saber: que ela continue sendo falsa para consigo e para com os outros.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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