POR QUE NÃO ACREDITO EM IDEOLOGIA DO MÉRITO?

Talvez, a grande questão do momento em que estamos vivendo, esteja ligada ao fato de que todas as nossas ilusões caíram por terra. Sempre soubemos do quanto sai na frente uma criança mais abastada que acabou de nascer, se comparada à uma criança da favela que – também – acabou de nascer. Ocorre que – durante muito tempo – o sistema ofereceu a televisão, as liquidações, os produtos falsificados, os genéricos e os churrascos nas lajes, como uma forma de fazer com que os mais pobres vissem alguma felicidade na vida, sem que isso alterasse a forma como a concentração da riqueza sempre esteve colocada neste País. Os governos Lula e Dilma desmascararam essa farsa com tantas das suas políticas públicas de combate à fome e de inclusão dos mais miseráveis à alguma possibilidade de igualdade de condições com os muito mais ricos. O véu da ilusão cedeu. O discurso da meritocracia foi-se. Os pobres já não são tão mais pobres – ao menos de espírito – como antes. Os negros não querem mais voltar para as senzalas, nem as mulheres para a cozinha e nem a comunidade LGBT aceita ser colocada no pau de arara. Agora, quem sempre esteve por baixo, quer, também, um lugar melhor ao sol. A ideia de empoderamento marca o início de um novo ciclo em nossa história. Empoderar, quer dizer, compartilhar o poder. Ora, sabemos que quem tem o poder não o quer dividir. Contudo, ninguém mais acredita que o favelado pode – sozinho – melhorar de vida. Também, ninguém mais acredita que os pobres são pobres porque são vagabundos. Caiu por terra o discurso da nossa tal harmonia racial. Nossos pobres, negros, mulheres e LGBTs não são mais os mesmos. Os muito ricos teriam – agora – que inventar um novo discurso para justificar essa nossa falsa igualdade. Esse discurso não existe. E quando o discurso se esgota, tudo pode acontecer. Ou seja, quando não há mais o que dizer, vale o princípio de que a violência começa onde termina a palavra. O fato é que não existe discurso que fundamente essa desigualdade e esse contraste social tão grotesco que vem sendo perpetuado há séculos no Brasil. E é por não dar conta de inventar uma nova ilusão, que o capital lança mão de seu componente mais violento. É por não mais conseguir ludibriar os mais pobres, que o capital assume o seu lado fascista na sua face mais covarde. Como? Basta alguém tomar consciência e resolver questionar e combater o poder dos que estão por cima. A casa grande, uma vez desmascarada, é capaz de qualquer coisa, inclusive do uso da força, para não ter que compartilhar suas regalias. Não foi assim, o tempo todo na história da humanidade? Se nada for feito, contra este fascismo, a tendência é de que as coisas fiquem ainda mais complicadas nos próximos anos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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