POR QUE GOSTO DE OUVIR GAL COSTA?

Quando você escuta uma Gal Costa cantando, em que você prefere prestar a atenção? Na letra da música ou no timbre da sua voz? Eu prefiro o timbre. A palavra me angustia. Não existe a palavra da palavra. Nunca – de fato – entendo o sentido – porque toda palavra pode ser interpretada de diversos modos. Não há sentido definitivo. Quanto ao timbre, ele não possui vários sentidos. No caso da Gal, ele é só belo, puro e perfeito. Por isso, ao invés de angustiar, ele me relaxa, me inspira e me aproxima de Deus. Por isso, penso que a verdade não é o discurso dos homens. A verdade é o canto dos pássaros, o barulho da chuva e do vento, o sol, o mar, o frio e o calor. A verdade é o que é – sem dupla interpretação. É óbvio que precisamos nos atentar para o que as pessoas dizem. Afinal, somos seres sociais. No entanto, não é pela palavra que encontraremos nosso sono, nossa paz e nossa calmaria. Temos que dar à palavra o que é da palavra. Não podemos levar a fala dos outros para os momentos em que estamos a sós com nós mesmos. Precisamos nos libertar dessa aflição de não desligarmos das coisas que nunca chegam. Há outros sons. Há outros barulhos. O mundo não é só isso que se ouve. É seguro que nossa felicidade não está nessa nossa eletricidade mental. A felicidade não é pensar. A felicidade é sentir. Não é pensar, logo sou. É sentir, logo sou.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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