O QUE É A INTOLERÂNCIA …

Acho que sei porque as pessoas entram em pânico quando ficam desconectadas. Somos seres movidos por ideais. Ocorre que nossos ideais são como horizontes. Quanto mais chegamos perto deles, mais distantes ficam. Nunca é o carro que temos. Nunca é a viagem que esperávamos. Nunca é o amor que conquistamos. Penso que toda esta nossa obsessão pelas redes tem a ver com a nossa expectativa de que tudo o que esperamos vai acontecer no próximo click. Não vai acontecer. No entanto, não nos rendemos a esse fato. Insistimos em continuar clicando sem cessar. Por isso, estamos – excessivamente – ansiosos e impacientes. Por isso, parece que todo mundo anda meio enlouquecido. Queremos o que não existe. Até bem pouco tempo, tratávamos os nossos sonhos como sonhos. Sabíamos – muito bem – diferenciar o que era fantasia do que era realidade. Agora, parece que nada funciona. Incutiram em nossas cabeças que podemos ter tudo o que quisermos. Por isso mesmo, não fazemos mais amizades, porque nunca é o amigo que gostaríamos. Não encontramos mais as pessoas, porque não suportamos o que delas não condiz com a nossa expectativa. Nossos amores quase não duram, porque estamos obcecados por alguém que só existe em nosso intelecto. Não mais focamos – completamente – em nada que estamos fazendo. Não sabemos mais o que é fazer com calma. Perdemos o senso da tranquilidade. Nossa vontade é de quebrar o celular quando não vem o que esperamos. Nossa vontade é de passar por cima de todos os carros do engarrafamento. Condicionamos nossa alegria de viver ao fato de que tudo funcione de acordo com a nossa vontade. Viramos o centro de tudo. Se pudéssemos sairíamos quebrando o mundo só porque nunca é cem por cento como gostaríamos. Precisamos reaprender a respeitar as diferenças. Não apenas as diferenças sociais. Mas, primeiro, as diferenças entre o que pensamos da vida e a vida como ela é. Precisamos relativizar um pouco mais as nossas vontades. Precisamos aprender a usufruir do que temos hoje. Precisamos reaprender a diferenciar o agora do depois. Precisamos reaprender a arte do contentamento. Quem quer tudo, nada quer, porque tudo nunca existiu para ninguém.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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