ESTAMOS INFELIZES PORQUE ESTAMOS PROCURANDO A FELICIDADE NO LUGAR ERRADO …

O problema é que na vida tudo tem – no mínimo – dois lados. Algumas músicas são alegres e outras nem tanto. Dificilmente, tudo o que comemos está como gostaríamos. Na vida, nada é pleno. Nada é cem por cento. Nada é constante ou regular. Nada é absoluto. Jamais saberemos se o bom de agora continuará. Por isso, começamos a sofrer antes mesmo da festa terminar. Não estamos seguros do amor de ninguém. A vida não é só felicidade. Os sentimentos são dúbios. Não controlamos de sermos tomados por uma emoção que não gostaríamos. Um dia cinzento pode afetar nosso humor. Um olhar pode nos deprimir. Um comentário pode nos deixar agressivos. Podemos enxergar tristeza em uma planta, na solidão de uma montanha ou na melancolia de uma estrela que já não é. Nunca estamos integralmente felizes. Começamos a envelhecer logo que nascemos. Cada minuto que passa é um a menos para a nossa vivacidade. Por isso, não deveríamos nos concentrar nessa nossa vida esquisita e contraditória. Precisamos ocupar nossa mente com o que não é alegre nem triste, com o que nem ama e nem desama, com o que nem envelhece e nem rejuvenesce. Precisamos libertar nossa mente do duplo para focarmos no UM. Ou seja, existe – sim – um lugar sem sentimentos e sem pensamentos. É possível que acessemos este lugar silencioso e que está depois de todas as palavras. O mundo não é só o desespero do trânsito, a correria, as guerras, as brigas, a insensibilidade, o egoísmo, o medo do desemprego, o medo de perder a juventude e o medo de morrer. O mundo é muito mais que isso. Não deveríamos fixar nossa mente nisso que é pura inconstância. Precisamos transcender nosso intelecto para um pouco mais além. Existe – sim – um lugar onde as palavras e as tristezas findam. Nesse lugar, tudo é o mesmo o tempo todo: sem dubiedades e sem sentimentalidades. As coisas – simplesmente – são: sem dores, conflitos, medos e oposições. Não há – nesse lugar – antes e nem depois, longe ou perto, grande ou pequeno, quente ou frio, seco ou molhado. Esse lugar está para além de tudo o que pensamos e sentimos que somos. Ele é sempre o mesmo todas as vezes que o acessamos. Sua consistência é sem angústia, ansiedade, depressão, raiva ou melancolia. Nele, cessam todas as nossas contrariedades. Ele está depois desse nosso cotidiano maluco. Nele nos esvaziamos: nada pensamos, nada sentimos, nada escutamos e nada enxergamos. Nele, somos plenos, porque somos sem qualquer interferência.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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