POR MARIELE …

Lacan diz do real. O que é o real? É o que temos de mais desesperador. É o que nenhuma palavra toca. É o mórbido. É o horror. É o ódio puro. É a putrefação humana.

O real é o que deixamos para lá. É a sujeira debaixo do tapete. É o lixo. É o litorâneo.

É do que fazemos piada. É o que não queremos lembrar. É o que retorna de repente e sem que estivéssemos esperando – e logo consertamos para nos recompor.

O próprio Lacan se desesperou quando se deparou com esse real. Pensou que ele poderia ser estruturado como linguagem. Depois admitiu que até o adoecer poderia ser uma forma positiva de lidar com ele. No final de sua vida, ele viu nesse real um ponto de invenção, de criação e de poesia. Contudo, nem mesmo o Lacan dos poemas conseguiu nos salvar desse abismo de nada.

De todo modo, a psicanálise nunca abandonou o princípio de que, enquanto pudermos falar disso, estaremos – em certa medida – a salvos. Porém, esgotadas as palavras, tudo pode acontecer.

Neste momento, parece que o Brasil escancarou-nos esse real. Estamos paralisados. Estamos atônitos. Não há o que dizer da execução de uma vereadora, negra, favelada, bissexual e militante dos direitos humanos.

Isso é desesperador – uma vez que a sensação agora é a de vale tudo. A sensação é de fim de festa. A sensação é de terra arrasada. A sensação é de fim do mundo.

O mais assustador é a sensação de que a história acabou. Parece que o futuro findou – no sentido de que tudo parece caminhar para nenhuma exigência de prestação de contas.

Parece que não temos volta. Parece que – a partir de agora – poderão fazer o que quiserem – porque nada os repele. Parece que estamos a um passo de repetir a Alemanha nazista onde o terror reinava – e sem qualquer contraponto.

Nesse contexto, fica, também, complicado formular qualquer pensamento que faça algum sentido. Parece que todos se calaram. Nada acontece para nos tirar desse pânico. Parecemos os traumatizados da psicanálise – e sem qualquer reação diante de uma loucura que jamais esperávamos ver e viver. Parece que tudo que tinha sentido, agora, perdeu todo o sentido. Estamos a um passo do pavor.

Se sobrou algo, está mais que na hora de alguém falar ou agir – no sentido de um ato minimamente justo. Precisamos retomar – se é que algum dia tivemos – a nossa ética social.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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