TENHO SAUDADES DA MINHA INFÂNCIA …

Tenho saudades da minha infância. Tinha a vida por completo. Eu não era um sujeito e o mundo era um objeto. Não havia divisão. Eu era um com todo o meu entorno. Dormia, corria e brincava por inteiro. Vivia só para fazer, tocar, sentir e saborear. Não havia ordem. Não havia antes. Não havia depois. Não havia preocupação. Não havia dúvida. Eu era só o fluxo de viver. Tudo era festa. Lembro de passar, sem perceber, da mangueira para o banho de cachoeira, da pipa para a bandeirola e do pique esconde para a bola de gude. A integração era tanta que eu mal percebia se o sol estava quente ou se o vento estava frio. Era eu mergulhado no mundo e o mundo mergulhado em mim – sem qualquer distanciamento. Éramos um só: eu e o mundo. Era como se tudo fosse meu. Era como se tudo fosse eu. Era como se eu fosse a árvore. Era como se eu fosse a cachoeira. Era como se eu fosse o ar fresco. Meu mundo não tinha metade. Era pura experimentação. Não havia diferença entre domingo e segunda, agosto e dezembro, inverno e verão. Tudo era intenso. Eu gozava de tudo – sem saber que estava gozando de tudo. Eu não pensava em nada. Se eu pensasse, é porque não estava completo. A vida era vivida – com tudo o que isso tem de mais literal. Eu não estava sobre o mundo: eu era o mundo. Mais tarde, me levaram para a escola e para a igreja: meu mundo nunca mais foi o mesmo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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