TENHO SAUDADES DA MINHA INFÂNCIA …

Tenho saudades da minha infância. Eu tinha a vida por completo. Eu não era o sujeito e o mundo era o objeto: não havia separação. Eu era um com todo o meu entorno. Eu corria e brincava o tempo inteiro.

A vida era só fazer, tocar, sentir e saborear. Não havia ordem. Não havia antes e nem depois. Não havia preocupação, dúvida, medo, ansiedade ou angústia.

Tudo era o puro fluxo. Tudo era festa.

Lembro de passar da mangueira para a cachoeira, da pipa para a bandeirola e do pique-esconde para a bola de gude.

A integração era tanta que eu mal percebia a alternância das estações.

Era eu mergulhado no mundo e o mundo mergulhado em mim – e sem qualquer distanciamento.

Era como se tudo fosse meu. Era como se tudo fosse eu. Era como se eu fosse a árvore, a chuva, a neblina e o ar fresco.

Meu mundo não tinha metade. Meu mundo era completo porque não havia questionamento. Era só  experimentação.

Não havia diferença entre os dias, as semanas, os meses e os anos. Tudo era hipnótico. Tudo era só usufruto – e sem saber do que estava acontecendo.

Eu não pensava. Se eu pensasse era porque algo estava faltando – e nada faltava.

A vida era vivida com o que ela tinha de mais literal. Eu não estava sobre o mundo: eu era o mundo.

Mais tarde me levaram para para a igreja e para escola: meu mundo nunca mais foi o mesmo.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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