QUEM ESCREVE SOFRE MUITO …

Coitado dos escritores. Seria melhor se só falassem. A fala se perde. A fala se esquece. Posso negar o que disse. Posso dizer que não foi bem assim. O problema é a escrita. Quem escreve dá a cara a tapa. A escrita é um registro. A escrita fica. Não posso dizer que não fui eu. Quem escreve pode ser lido uma, duas, dez vezes. Damos o tempo que o nosso leitor quiser para nos detonar. E como somos detonados! Ainda bem que nas redes podemos voltar e corrigir. Vivo falando bobagem por aqui. Aqui, sou também meu próprio leitor. Sempre acho muito ruim tudo o que escrevo. Raramente orgulho de algo meu. É pela escrita que nos damos conta dos furos que deixamos para trás. Ainda bem que sempre temos alguém – mais que generoso – para soprar sobre nossos buracos. Ninguém escreve para ser imortal. A escrita é a própria experiência da morte. Escrevemos para não morrermos, mas a morte nunca desgruda da nossa escrita. Os melhores escritores – na minha opinião – foram os que escreveram zombando da pretensão da própria escrita. Escrever é a prova viva de que toda relação fracassa. Nunca narramos, predicamos, descrevemos e nomeamos como gostaríamos. Talvez, a saída não seja mesmo pela escrita. De todo modo, ao menos podemos escrever isto. Esperamos que ninguém continue insistindo no caráter terapêutico da escrita. Espero que alguém escreva para dizer da sua saída – e que não seja pela escrita, por favor!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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