DUVIDE DOS INTELECTUAIS

Achamos que somos inteligentes. Não somos – ao menos inteligência no sentido de autonomia sobre o próprio pensar. Isso não temos. Ninguém tem. Nem os grandes intelectuais. Basta observar as tantas citações, as tantas notas de pé de página e as infindáveis referências bibliográficas. Não percebemos, mas nunca falamos por nós mesmos. Há os que acham que sabem. No entanto, apenas falam pelo senso comum, pelos costumes, tradições e doutrinas religiosas. Parecemos bonecos ventrículos. Todo mundo que acha que pensa – no fundo – carrega um ponto invisível no ouvido com seu referencial teórico ditando o que apenas reproduz. Somos meros porta-vozes dos pensamentos daquele que pensou o pensamento de alguém. Gosto de ler aqueles tidos como grandes intelectuais – só para observar da boca de quem eles estão falando. Modificamos alguma coisa, porque esperamos tapar o furo que o pensamento que consultamos não tapou. Nossa mudança também não tapará. Todo pensamento é uma espécie de paliativo. A questão é que ele nunca serve duas vezes. Quando a doença retorna, apenas reinterpretamos como se estivéssemos descobrindo um novo sentido que nunca foi novo. O pensamento pensa que cura. No fundo, é tudo blá blá blá, bate papo e falação. Por isso, brigamos, porque nunca é. Por isso, brigamos, porque sabemos que não é, mas queremos que seja. Por isso, gosto do silêncio do psicanalista. Sobre o divã cada um terá que construir um saber – ao menos – sobre si – ainda que esse sobre si não abarque tudo de si.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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