SIM – A FELICIDADE É POSSÍVEL

Bom seria se conseguíssemos nos esvaziar de tudo.

Penso que este é o verdadeiro segredo da felicidade: usufruirmos das coisas como elas são e não como gostaríamos que elas fossem. Imagina se conseguíssemos suspender todos os nossos pensamentos e desejos? Imagina se conseguíssemos nos abrir ao mundo como ele é – e sem achar que ele nosso?

A felicidade é vazia. A felicidade é ignorante. Só os bebês conhecem a verdadeira felicidade – porque vivem na intensidade natural da vida. Só os bebês sabem sobre o amor – porque não o julgam. Tanto que não sofrem quando não são amados – viram para o lado e recomeçam a brincar.

Não existe diferença entre estar só e acompanhado. Posso não ter alguém, no entanto, estou envolto ao ar, à luz, aos cheiros, aos sons e aos gostos. As pessoas são só mais um elemento do meu todo. Ter uma pessoa deveria ser a mesma felicidade de ouvir uma boa música ou contemplar uma bela paisagem.

É bom viver desprendido porque na ausência de quem gosto posso me contentar ouvindo Caetano cantar Odara, por exemplo.

Na verdade, tudo tem, em si, alguma beleza. É o pensamento que hierarquiza. É o pensamento que angustia.

Pensar empobrece a felicidade. É por isso que entramos em desespero quando nos falta aquilo que seria o que tomamos como sendo a nossa única felicidade.

Tudo tem que ser a nossa felicidade – inclusive o fato de que vamos envelhecer e morrer. Sofrer não resolve.

Quem disse que todos que estão acompanhados – agora – estão felizes? Quem disse que a solidão do quarto não pode ser a mesma felicidade de uma multidão?

Não é o lugar que é alegre. Aliás, lugar não tem sentimento: a alegria é de quem está.

O mundo é todo belo: basta reparar. Gosto de quem enxerga o todo. Gosto de quem luta alegre. Prefiro quem enfrenta feliz.

Fico feliz quando vejo um morador de rua tomando banho nas fontes da Praça da Liberdade.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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