POR QUE NÃO GOSTO DE FUNK E SERTANEJO?

De modo geral, quem faz música de qualidade no Brasil, já resolveu suas questões de sobrevivência física e está em um outro patamar existencial. Inclusive, ja possui outro modo de elaborar o amor e as relações humanas. Nas relações de poder, nossas classes populares, até para se manterem alienadas, dificilmente, atingirão um grau de entendimento do que se passa em uma canção de Tom Jobim ou de Chico Buarque de Holanda. A miséria, além de física, infelizmente, não consegue destoar da miséria intelectual. É quase impossível ultrapassar a sobrevivência orgânica para atingir questões existenciais presentes, por exemplo, nas letras de Caetano Veloso. A pobreza musical é proporcional à pobreza material. Não estou dizendo que não há exceções. Contudo, não consigo pensar uma família passando fome e ouvindo uma estação de rádio tocando música popular brasileira. Até para camuflar a realidade da miséria, é preciso um som que seja tanto quanto miserável no barulho e na letra do que está sendo dito ou cantado. Para essas pessoas, o apelo sexual cantado nesses estilos musicais, é proporcional à ausência da passagem da natureza para a cultura em que não lhes foi dadas as condições para atingir. Para essas pessoas, João Gilberto é depressivo ou melancólico demais. Parece que a melancolia da bossa nova se junta à melancolia do sofrimento e piora ainda mais a melancolia do corpo que padece faminto. O sertanejo cabe -perfeitamente – no universo dessas pessoas, porque canta no plano das relações, um amor intenso e catastrófico muito semelhante ao que vivem no plano da sobrevivência material. Impossível falar de problema existencial para quem está passando fome. É uma inocência colocar um Machado de Assis nas mãos de um adolescente em cuja família os pais estejam desempregados. Jamais teremos um país culturalmente avançado, enquanto não resolvermos, primeiro, nossas questões no plano da biologia dessa nossa grande massa. Será que um dia construiremos um país onde todos saberão e poderão saborear a beleza de uma melodia composta por um Miles Davis ou por um Chet Baker? Torço e luto por isso.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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