NÃO GOSTO DE LIVRO DE AUTOAJUDA

Não gosto de livro de autoajuda. Não gosto de mensagem motivacional. Não gosto de frases de efeito. Não gosto de ser iludido. Não gosto do que promete uma zona de conforto que nunca existiu.

Prefiro o que me traz para a realidade – de forma nua e crua.

Posso até divulgar uma corrente de felicidade – com a condição de que ela leve em conta tudo o que emperra essa mesma felicidade.

Toda autoajuda é ingênua e ilusória. A vida é muito mais complexa que qualquer frase de impacto.

Não existe felicidade individual. É inútil dizer que a vida é bela sem se responsabilizar pelo que detona as belezas da vida. É inócuo incentivar uma pessoa desempregada sem criar nenhum enfrentamento contra o desemprego. É inútil se achar maravilhoso sem levar em conta que se está envelhecendo a cada segundo.

Prefiro a verdade – sempre.

Não entendo por que os livros de autoajuda só sabem lidar com a falta escondendo a realidade?!

Temos que dar conta de desejar trazendo junto o que nenhum desejo tampona.

Toda autoajuda diz da possibilidade de encontrar o amor verdadeiro. Porém, nunca seremos amados como gostaríamos. Toda autoajuda diz que se quisermos podemos ser felizes. Toda autoajuda diz da superação das adversidades e da prosperidade apenas pela força de vontade. Será?

Não se trata de ser descrente. Acredito na alegria – sim – com a condição de que ela não seja colocada apenas na responsabilidade de cada um por sua própria alegria.

Tenho que ser feliz ciente de que a infelicidade não é só um problema de subjetivo.

Alguém consegue rir desempregado ou passando fome?

Há – também – uma infelicidade que nos é imanente e imutável. Temos que ser felizes implicando essa infelicidade em nós. Temos que ser felizes tomando essa infelicidade como nos sendo constitutiva. Ou seja, temos que ser felizes carregando essa infelicidade – que nos é enigmática e insuperável.

Não nascemos felizes. Há uma infelicidade socialmente contextualizada e há uma infelicidade existencial. Os livros de autoajuda ignoram essas infelicidades. Ou seja, vendem uma felicidade fruto apenas da nossa força de vontade. Essa felicidade é um engodo. Melhor – essa felicidade nunca existiu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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