NÃO GOSTO DE LIVRO DE AUTOAJUDA

Não gosto de livro de autoajuda. Não gosto de mensagem motivacional. Não gosto de frase de efeito. Não gosto de ser iludido. Não gosto disso que promete uma zona de conforto que nunca existiu. Prefiro o que me traz para dentro da realidade – de forma nua e crua. Posso até divulgar uma corrente de felicidade – com a condição de que ela leve em conta tudo o que emperra essa tal felicidade. Toda autoajuda é ingênua e ilusória. A vida é muito mais complexa que qualquer frase bonitinha. A felicidade é – também – contextual. É inútil dizer que a vida é bela, sem combater o que detona as belezas da vida. É inócuo dizer a um negro que a felicidade só depende dele, sem criar nenhum enfrentamento contra o racismo. É inútil alguém se achar maravilhoso esquecendo o fato de que se está – também – envelhecendo e morrendo a cada segundo. Prefiro começar pela verdade – sempre. É cem por cento certo de que não seremos jovens a vida toda. O desejo visa – quase sempre – esconder a realidade. Temos que dar conta de desejar trazendo a realidade junto. Toda autoajuda diz ser real o amor que sonho para mim: nunca serei amado como eu quero. Toda autoajuda sobrevive da falsa promessa de felicidade, superação e prosperidade. Não estou dizendo que não acredito na alegria de viver. Acredito, sim, com a condição de que essa alegria não propague que só depende de mim ser alegre. Tenho que ser feliz consciente de que a infelicidade não é só um problema subjetivo. Ninguém consegue rir desempregado ou passando fome. Existe – sim – uma sociologia da infelicidade. Também, tenho que ser feliz consciente dessa infelicidade que me é imanente e imutável. Tenho que ser feliz implicando essa infelicidade em mim. Tenho que ser feliz tomando como sendo minha essa infelicidade que me é constitutiva. Ou seja, tenho que ser feliz carregando essa infelicidade – que me é enigmática e insuperável. Não nascemos felizes. Há uma infelicidade produzida pelo contexto social e há uma infelicidade existencial que nos é inevitável. Os livros de autoajuda ignoram essas infelicidades. Portanto, os livros de autoajuda vendem uma felicidade fruto apenas da nossa força de vontade. Essa felicidade é um engodo. Ou seja, essa felicidade nunca existiu.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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