NÃO CONSIGO DESEJAR FELIZ ANO NOVO PARA NINGUÉM

Desculpa, mas não consigo desejar feliz ano novo para ninguém.

Penso no desastre que foi este ano e no desastre que será o próximo.

Vínhamos de algo inédito. Vínhamos de uma sucessão de boas políticas de transferência de renda.

Ora, no capitalismo, dinheiro é poder. Na medida em que esse sistema foi transformando tudo em mercadoria, uma grande maioria – sem dinheiro – passou a conhecer a fome.

Quem não tem dinheiro não vai ao mercado. Não compra. Não consome. Portanto, não existe. Dinheiro não cai do céu. Para o governo distribuir renda, é necessário que ele faça escolhas.

Tivemos – sim – um período significativo de um governo que fez uma escolha pelo social. Melhorar o social significa, ao menos, escolher não repassar o dinheiro público para determinado grupo de abastados. Melhorar o social significa aumentar a competitividade – o que não é bom para determinado grupo acostumado a ter o melhor do poder todo para si.

Ficou muito claro que esse grupo – agora – quer o dinheiro todo de volta para si. Nunca se viu, na história desse país, um desmantelamento tão absurdo de tantas políticas públicas. Nunca se viu na história desse pais um crescimento tão rápido da pobreza.

O mais assustador é que esse grupo – de abastados – insiste em dizer que já foi pobre como todos os pobres desse país. É tanto cinismo que esse mesmo grupo insiste que venceu a pobreza por mérito pessoal, usando esse mesmo argumento para retirar direitos, no sentido de que quem quiser melhorar vai ter que conquistar tal melhoria sem a ajuda de nenhuma política pública.

É neste contexto que não consigo desejar feliz ano novo para ninguém.

Penso que a tendência agora será retirar direitos de outras categorias – especialmente aquelas que sobrevivem do trabalho público. Querem terminar de entregar o pouco que ainda resta do nosso social para a iniciativa privada.

Se alguém quiser alguma igualdade, não será pelo público. Qualquer ascensão terá que ser pelo mercado. Não espere pela ajuda de nenhum governo. Aliás, pela forma como a mídia vem criminalizando a política, a tendência é que – em breve – nem haja mais governo.

Quem quiser sobreviver terá que correr atrás do dinheiro e tentando encontrar algum espaço no mercado. Quem quiser dinheiro terá que empreender. Como empreender sem educação? Como empreender sem qualificação? Como empreender sem treinamento? Como empreender sem tecnologia? Como empreender onde tudo parece que já foi empreendido?

Pois é, parece que nossos miseráveis vão ter que usar, como meio de sobrevivência, um recurso já bem conhecido em nosso meio: a violência. Feliz ano velho de caos social.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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