EU ACREDITO EM ENCARNAÇÃO…

Eu acredito em encarnação, no sentido de viver tudo que tudo me permitir. Encarnação no sentido de encarnar no mundo e tudo do mundo encarnar em mim. Encarnação no sentido do máximo de concentração no máximo de gozo que o que eu estiver fazendo me permitir. Encarnação no sentido de que eu busque algum prazer ainda que não esteja prazeroso como eu gostaria. Encarnação no sentido de que sou um corpo que sente, escuta, enxerga, toca, experimenta, morde, lambe e que, por sentir e movimentar, pode encarnar apenas os prazeres que mais convergem consigo. Encarnação no sentido de tomar o que é da minha natureza como sendo meu sem que me torne um peso. Encarnação no sentido do reconhecimento de que não posso dominar o tempo que está me desencarnando a cada segundo. Encarnação no sentido de que sou grato pelo tempo que me foi permitido viver e que quero concluí-lo satisfeito de ter vivido tudo o que me foi possível nele. Encarnação no sentido de que sou grato por ter sido me dado o poder de encarnar em uma infinidade de sons, gostos, paladares, toques, sensações e emoções enquanto vivi. A verdade é a vida encarnada em tudo: e quanto mais encarnada mais feliz, mais conhecedora e mais sábia de seu corpo e de seu mundo. O pensamento só tem sentido se for escrito e tatuado nos corpos, nas coisas, nos barulhos, nos silêncios e nos sabores. Escrito, não no sentido da palavra, mas no sentido de tomado, engolido, digerido, sentido e gozado. Não existe encarnação melhor que a outra. A boa encarnação é a que tenho agora. Tenho que me manter todo encarnado nela. Se penso, saio de mim. Se penso, desencarno. O pensamento quer que eu sofra e triste com a encarnação que tenho agora. O pensamento me faz faltar para algo que nunca vai existir. Pensar me desencarna – a não ser quando uso meu pensar para me encarnar cada vez mais. Por exemplo, quando o beijo é muito bom e uso meu pensar para me fazer beijar tudo daquele beijo. Enfim, sou meu corpo e meu mundo. Esse mundo me oferece uma infinidade de encarnações possíveis. Tenho o mundo que me faz gozar de diferentes modos. Tudo pode ser usado para o meu prazer ou para a minha dor. Posso desejar novas encarnações: o que não posso é deixar de gozar com o meu prazer de agora na espera de um prazer que ainda está por vir. Desse modo, depois dessa encarnação, espero encarnar-me ainda muitas vezes. Minha carne e o mundo constituem uma unidade inesgotável de paixão: e quero tudo poder viver!

Evaristo Magalhães – Psicanalista

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