PRECISO VOLTAR A GOZAR COMIGO …

Minha mente nunca acerta ao tentar comandar meu corpo. Minha mente nunca está em consonância comigo. Minha mente quer sempre mais de mim. Minha mente me faz angustiar porque estou envelhecendo, quando eu deveria me alegrar com isso. Minha mente me faz sofrer por amor, quando sempre quer muito mais amor do que o amor que o outro pode me dar. Minha mente me faz sentir culpado porque sou mortal, quando nada é possível de ser feito sobre isso. Meus medos são todos criados por mim – que insisto em me negar o inegável. Minha mente é um misto insuportável de desejo e remorso. Minha mente me inferniza. Minha mente me culpa, me tensiona, me angustia, me desespera e me desassossega. Preciso silenciar certos pensamentos. Preciso refletir menos e sentir mais. Preciso ouvir mais o meu corpo e menos o meu intelecto. Preciso deixar de interferir no funcionamento natural dos meus sentidos. Preciso libertar meu corpo das amarras impostas por uma lógica que nunca existiu no mundo concreto de ninguém. Preciso voltar ao meu natural. Preciso parar de alterar o fluxo espontâneo da minha respiração. Meus ombros precisam voltar a ficar relaxados. Preciso me livrar dessa angústia que aperta o meu peito. Tenho que parar de interferir no meu sono, quando meu corpo quer descansar e insisto que ainda preciso permanecer acordado para chegar a lugar nenhum. Preciso deixar meus braços, pernas, pés, quadril, cabeça e pescoço livres – sem constrangê-los em suas naturalidades. Preciso voltar a me tocar como uma criança que se toca sem qualquer julgamento moral. Preciso deixar fluir a sensação própria de sentir meus pelos, minha pele e meu sexo. Preciso me redescobrir sem esse exagero de racionalidades e de moralidades. Preciso deixar de ser e voltar a me ter. Preciso mudar o trajeto de mim: não mais pelo que penso para o que sinto, mas pelo que sinto para o que penso. Preciso parar de desfazer do meu corpo. Minha mente tem mania de me dizer que sou incompleto: não sou. Preciso parar de pensar que necessito de adendos para gozar de mim. Posso gozar comigo o quanto eu quiser e do que eu quiser de mim. Sou meu: possuo-me. Preciso usufruir tudo de mim enquanto a vida não me tira de mim. Tudo o que penso, nunca é. Meu corpo é só o que – de fato – nunca escorrega de mim. Sou o que sinto.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s