PODEMOS NÃO SOFRER POR AMOR …

Precisamos aprender a gostar disso que sentimos quando querermos e o outro não vem. Gostar – no sentido de que sofrer não resolve. Precisamos aprender a dar conta de olhar com serenidade para o intervalo que fica entre nós e o outro quando ele resolve partir. Não adianta pensar ou imaginar coisas. Precisamos aprender a dar conta de olhar para o nada com a mesma tranquilidade de quando cremos possuir qualquer coisa. Só queremos ter ou ser. Não sabemos não-ter e não-ser. Ocorre que não-ter e não-ser existe tanto quanto ter e ser. O vaso é só a borda de um oco. Não conseguimos ver de uma só vez a montanha e o que está por detrás dela. O problema é que nossa alegria é parcial. Só aceitamos a totalidade se for uma totalidade alegre. Só sabemos gozar de um jeito. Nosso todo é só aquele da presença. Nosso todo é só o que sabemos. Nosso todo não envolve o nada e o silêncio. O invisível é tão presente quanto o visível. Quem disse que a ausência é triste? Quem disse que o vazio é feio? A ausência – em si – não dói. A dor não é da ausência: a dor é nossa. A dor é uma questão de ponto de vista – e não do outro que se despede. A ferida depende da forma como se vê. A dor biológica não é relativa. A dor psíquica é uma invenção da nossa pretensão de tudo querer possuir. Enxergamos muito mal a vida. Somos míopes do que está para além dos nossos sentidos. Há o que nenhum sentimento toca. Há o que foge à qualquer intuição ou pensamento. Há o que é nosso e não podemos escolher: temos.

Evaristo Magalhães – Psicanalista

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s