O QUE É A HIPOCRISIA?

Não somos um único gozo. Aliás, nenhum gozo nos é suficiente – porque nada nos alivia por inteiro. Carregamos questões que – independente de qualquer coisa que fizermos – não nos serão vencidas. Podemos e devemos buscar meios de aliviar isso que nos perturba? Sim. Ocorre, que os meios que a família, a religião e a educação nos oferecem, não nos são mais suficientes. É uma ilusão pensar que a família feliz é aquela da propaganda de margarina da televisão. É uma ilusão achar que as pessoas estão completamente realizadas em suas sexualidades quando espelham-se no modelo heterossexual. Não é verdadeira a imagem que propagam mulheres felizes vivendo para o lar enquanto seus maridos saem para o trabalho.

Não somos seres de um gozo só. Sabemos muito bem o quanto a esposa do homem da propaganda de margarina é infeliz quando tem que servi-lo – também – na cama. Existem inúmeros estudos mostrando a importância da prostituição gay como forma – marginal e promíscua – de descarregamento do desejo dos supostos heterossexuais – caso contrário eles explodiriam em seus desejos. Outro dia fiquei sabendo de um dado que afirmava que mais de oitenta por cento das mulheres brasileiras casadas se sentem violentados todas as vezes que vão fazer sexo com seus maridos. Desse modo, o que é melhor: reprimir ou pluralizar as diversas formas de gozo? Ora, sabemos que quanto pior o recalque, pior é o retorno do recalcado. Quanto mais formas de gozo pudermos, mais felizes ficaremos frente às infelicidades que nos são impostas e que são independentes da nossa vontade. Quanto mais repressora for a sociedade, maiores as possibilidades de que o gozo saia por formas bizarras de gozar. É seguro que a suposta esposa exemplar – que não goza direito com seu macho provedor – gozará na clandestinidade com o porteiro do seu prédio que sabe – muito bem – fazer tudo o que ela gosta. É certo que o marido – dito macho – viciará em aplicativos de sexo em busca de garotinhos de programa para fazer o que ele – jamais – daria conta de fazer com sua santinha do lar. Acho que estamos precisando – urgentemente – voltar a ler – um pouco mais – Nelson Rodrigues.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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