PRECISO – URGENTEMENTE – VOLTAR A SER CRIANÇA …

Um bebê antes de entrar no mundo da linguagem não sofre quando perde alguém. O que dói não é a perda e, sim, a consciência ou a memória da perda. Basta observarmos o comportamento de crianças muito pequenas quando perdem seus entes queridos. Enquanto os adultos se descabelam, elas brincam como se nada tivesse acontecido. Diante do que não tem sentido, precisamos resgatar esse recurso psíquico da inconsciência infantil. A morte é débil. O desamor é idiota. Precisamos ressignificar esses mecanismos. Precisamos trazer de volta essas jóias que deixamos para trás. Nosso intelectualismo arrogante tende a desfazer dessas habilidades. Achamos que tudo podemos. Tomamos de angústia o que é puro nada. Cremos superar nossas melancolias com palavras. Doce ilusão! Gosto de quem olha para o nada sem nada. Gosto de quem toma o vazio pelo vazio. Gosto de que olha o vaso apenas como uma borda de um vácuo. Na verdade, somos apenas uma borda de nós mesmos. Quem somos, no fundo, pouco sabemos. Estamos pagando um preço muito alto pela nossa pretensão de querer ocupar o lugar de um deus que diz tudo saber. Viver não é evoluir da infância para a vida adulta. Viver é trazer tudo isso junto. Para os vazios da vida, nada do que achamos que sabemos pode nos livrar. Para os vazios da vida, temos que fazer o caminho inverso: não ensinar para as nossas crianças o que achamos que sabemos sobre nós mesmos, mas aprender com elas que saber sobre nós mesmos, na verdade, é não saber sobre nós mesmos.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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