O QUE É BULLYING?

O bullying não é pessoal. O bullying é social. Quando um adolescente desfaz da orientação sexual do coleguinha, ele está trazendo consigo todo um imaginário coletivo de agressividade que vem sendo reproduzido há séculos contra esse grupo. Agredir o outro dizendo que ele cheira mal, traz camuflado uma série secular de preconceitos. O outro não apenas cheira mal. O outro cheira mal porque é pobre, negro ou obeso. Dizer que o outro faz bullying é fácil. Escrever sobre bullying, também, é fácil. Difícil, é se implicar no bullying. Difícil, é se assumir em seu ódio. O bullying não é do outro: o bullying é de cada um. O bullying está inscrito em nosso DNA. Somos seres de linguagem. Não nascemos praticando bullying. Criamos – na cultura – meios de nos livrarmos do que nos incomoda. Em algum momento, os brancos resolveram gozar dos negros. Não sabemos o que fazer com as raivas que carregamos. Podemos marcar – historicamente – o momento em que os heterossexuais resolveram projetar nos homossexuais seus ódios. Socialmente, nos delegamos, tornar certos outros alvos para descontarmos neles o que não sabemos como resolver em nós mesmos. Não basta, para atacar o bullying, entupir a sociedade de leis ou de falas sobre o que é certo e o que é errado. O buraco do bullying é mais embaixo. É uma pena que nossas sociologias, filosofias e antropologias não possam ser vendidas em uma vitrine de um shopping qualquer. As facilidades com que a sociedade de consumo e as redes sociais vêm proporcionando, só nos tornam mais superficiais e nos iludem de que a solução para as nossas questões maiores possam ser resolvidas, do mesmo modo, que trocamos a película do nosso celular. Jamais construiremos uma sociedade – minimamente estável – achando que tudo pode ser resolvido como quando deletamos quem nos incomoda usando apenas a ponta do nosso dedo indicador. O bullying é milenar. É a religião, a família, a educação, o consumo, o desemprego e a fome que estão em jogo quando um grupo qualquer decide agredir um travesti a pauladas. Não temos alternativa. Nossa agressividade não é só biológica. Nosso corpo carrega a história da humanidade – para o bem ou para o mal. Para isso que carregamos, não há cirurgia ou medicamento. Precisamos colocar em debate o que de agressivo ainda existe na religião, na família, na escola e na mídia. Não colocamos, porque somos esse poder e não queremos perder esses outros que criamos para descarregar nossos ódios que, sem eles, não saberíamos o que fazer com nossos sentimentos mais vis. Na verdade, o que agredimos nessas pessoas, pode retornar para nós mesmos, se perdermos essas nossas válvulas de escape. É muito fácil dizer que o bullying é do outro. Difícil é admitir o que do outro é também meu.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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