SOBRE A RELIGIÃO E A ARTE …

Não pense que você sabe. Não se creia possuidor de qualquer verdade. Não vemos só com os olhos, não tocamos só com as mãos e nem escutamos só com os ouvidos. Não somos só um corpo. Não somos só necessidade. Somos – também – demanda. Demandamos saber de nós mesmos. Tudo em nós carrega essa nossa humanidade. Nunca comemos só porque temos fome. Comemos – também – para tentar aplacar nosso medo de morrer de inanição. Existe algo nosso por detrás do que enxergamos que é determinante do modo como vemos. Nossos sentidos estão – o tempo todo – tentando complementar algo que nosso corpo sozinho não consegue suprir. Sempre olhamos tentando não enxergar o que nos angustia no que vemos. O problema não é o que vemos e, sim, o que nos incomoda no que vemos: tememos nossa humanidade. O problema não é o que entra pelos nossos ouvidos. A questão é como o que escutamos soa no que mais desesperamos em nós mesmos. A questão não é o que está fora de mim: a questão sou eu comigo. Brigamos sempre quando alguma coisa nos tira da nossa zona de conforto. O problema nunca é a arte. Não é a arte que me vê. A arte não tem olhos. A arte não tem vida. Os olhos são meus e quem tem vida contraditória sou eu. A arte não tem desejo. A arte não tem excitação: o desejo é meu e a minha ereção também. A questão é como a arte me impacta. Tudo o que arte revela, no fundo, já existe em mim como um eu meu que me é insuportável. A arte, na verdade, apenas me adianta o que terei que vivenciar – inevitavelmente – em algum momento. O que é da arte, não é da arte e, sim, da vida. Os artistas apenas estão nos fazendo um favor expressando quem somos. Posso ver como sendo eu naquela obra. Posso ver como sendo o outro. Posso enxergar como uma denúncia ou um protesto chamando para o debate. A arte nos revela. A arte nos propicia saber de nós mesmos no que temos de mais humano. Se arte não nos revelar, a vida nos revelará em carne viva. Nesse momento, se não tivermos mais a arte, provavelmente – resolveremos em ato. Talvez isso nos ajude a entender, de algum modo, tantos escândalos de pedofilia entre os religiosos. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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