O QUE É UMA PESSOA LEVE?

Quero aprender a olhar para o escuro com total tranquilidade – mesmo porque não adianta teorizar sobre o que não posso enxergar. Não quero mais perguntar porque alguém partiu e quero suspender o meu pensar sempre quando eu não estiver sendo querido. Quero olhar para o que não tem resposta sem querer resposta e sem me revoltar por não ter resposta. Toda pergunta demanda uma saída. Todo pensamento demanda uma conclusão. Todo sentimento – quando é de dor – quer ser superado. Há perguntas que não acabam nunca. Toda emoção guarda algum temor. Por isso não quero mais questionar e desisto de sentir sobre certas coisas da vida. Vejo que quero desvendar – especialmente – os meus mistérios de dor. Vejo que busco entender certos sentimentos quando quero acertar mais no amor. Ocorre que quanto mais desvendo mais sofro e quanto mais tento acertar nunca de fato acerto. Preciso encontrar um modo diferente de reagir. Não quero mais brigar com essa felicidade que nunca chega. Não quero mais sofrer por essa beleza que nunca encontro. Não quero mais sonhar com essa eternidade que ninguém nunca voltou para dizer que existe. Posso até olhar para a felicidade com alegria, com a condição de que eu olhe para a tristeza – que certamente virá – de outro modo que não ficando triste. A partir de agora, meu desamor não terá mais esse nome. Minha morte não será mais tão desesperada. Não angustiarei mais diante do espelho. Cultivarei outro patamar de vida. Sei que sofro porque faço certas perguntas e porque quero certas emoções impossíveis. Aprenderei a suspender meus pensamentos sobre certas coisas da vida. Só questionarei o que posso responder. Olharei para o que sempre me doeu dispensando tudo que já cansei de usar contra e sem jamais obter sucesso. Não pensarei mais quando não houver resposta. O que não pode ser alegre, também não pode ser triste. O que não cabe qualquer pensamento, também não cabe qualquer conclusão. Algumas coisas na vida – simplesmente – são. Não são alegres nem tristes, bonitas ou feias, boas ou más. São, sem julgamento. Temos que só carregá-las – sem saber do que se tratam.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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