O QUE É A FELICIDADE?

Creio que a felicidade é a capacidade de inventar a própria vida sem que essa invenção seja tomada como um modo de negar o seu contrário. A verdadeira felicidade deveria ser cem por cento gratuita. Não deveríamos buscar a nossa felicidade para nos contrapormos à nossa infelicidade. Aliás, isso que chamamos de infelicidade – e inventamos para ela a tristeza – não deveria ter esse nome e nem esse sentimento. Para a infelicidade, criamos o sentimento de dor – exatamente – para termos motivos de justificarmos a nossa felicidade como um sentimento sem dor. Para a felicidade sabemos muito bem o que fazer. Conhecemos bem o que nos alegra. Sabemos conceituar – com facilidade – nossos momentos de contentamento. Pena que – tanta segurança – seja para fugir do outro lado disso que não sabemos o que fazer. Não gosto da felicidade dos ditos normais. Ela é sintomática, é uma fuga e, por isso mesmo, é falsa. Ela não sabe levar junto – sem sofrimento – o seu oposto. Nossa felicidade não sabe ser feliz por si. Ela só se alegra para não ser triste. Damos o nome de tristeza para o que não deveria ser triste. Damos o nome de tristeza só para encontrarmos um modo de nomearmos – também – a felicidade. Isso não é felicidade. Não pode ser feliz uma felicidade que é – também – triste. No fundo, nossa felicidade só existe para não ser triste – por isso é triste. Deveríamos tirar a felicidade e continuarmos felizes. Não sabemos lidar com a tristeza de forma leve. Parece que não sabemos da felicidade sem a tristeza. Não sabemos da felicidade só com a felicidade. Só sabemos da felicidade como contraponto da tristeza. Por que não poderíamos ser só felizes? Por que não poderíamos ser felizes o tempo todo? Porque inventamos a tristeza. Não sei quem inventou a tristeza e justificou a felicidade como não sendo triste. Teria sido melhor – talvez – que ele não tivesse inventado a felicidade desse modo. Possivelmente, alguém, depois dele, a teria inventado pura, sem o preço de ter que ser feliz só para não ser triste. Nossa felicidade vem da obrigação de não sermos outra coisa: isso é patético! É certo que a nossa felicidade deixaria de existir se a nossa tristeza acabasse um dia. Que absurdo colocar algo tão bom na dependência do seu oposto. Um dia – quem sabe – eliminaremos a tristeza sem qualquer risco da nossa felicidade ir junto?!
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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