NÃO SE ILUDA, O AMOR NUNCA É SÓ AMOR …

Temos que tomar muito cuidado com as palavras. É porque falamos, que sofremos. As palavras nunca são só o que dizem. Usamos a palavra vida. No entanto, não existe a palavra vida em seu sentido puro. A palavra vida traz a palavra morte. Já estamos morrendo quando dizemos que estamos vivos. É isso o que nos desespera. É por isso que ficamos histéricos. É por isso que ficamos ansiosos e depressivos. É por isso que descontamos no corpo esse resto doloroso que as palavras escondem. Seria ótimo se a palavra jovem tivesse o poder de extrair o fato de que estamos envelhecendo. Seria ótimo se a palavra amor fizesse com que o amor fosse só amor. A palavra não tem esse poder. Toda palavra não diz alguma coisa. Toda palavra esconde alguma coisa. Todo conceito carrega o que ele nega. Nada é só o que diz ser. Não leve as palavras tão a sério. Podemos ser desamados a qualquer hora. A palavra jovem carrega a palavra velho. Não somos jovens: estamos jovens. Não somos vivos: estamos vivos. E sabemos muito bem que é, exatamente, esse lado que mais abominamos das palavras jovem e vida, que, no final de tudo, prevalecerá. Terminaremos velhos e mortos. A verdade, costuma ser, o que menos sabemos. Talvez, seja por não suportar essas verdades, que o suicida antecipa seu fim. Talvez, seja por não suportar esse componente dúbio das palavras, que o autista opte por não se comunicar. O conceito de amor nunca é – na prática – o amor que ele diz ser. Em tudo temos que ter um trabalho para não enlouquecermos. Tudo carrega um quantum de dor. No fundo, sempre trazemos alguma tristeza – mesmo quando estamos muito alegres. Toda festa de aniversário é uma alegria, e é, também, alguma tristeza. Nunca é só felicidade. Nunca é só amor. Nunca é só vida. Nunca é só juventude. Temos que nos arranjar com isso. Há os que se arranjam bem. O ideal seria não ter entrado no mundo da palavra: não ficaríamos sabendo da velhice, da morte, do desamor e da tristeza. Contudo, não gozaríamos da felicidade que podemos. Agora, não venha me enganar dizendo que posso, um dia, conquistar essa tal felicidade …
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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