NÃO SEJA UMA PESSOA COMPLETAMENTE ALIENADA …

É fato que não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos. Quanto a isso, não sei se teremos resposta um dia. Portanto, sobre isso, não sei se adianta pensar muito. Quanto ao amor do outro, também, não sei se adianta ficar pensando em demasia. É certo que ele pode nos dar alguns indícios de que não está mais afim. Contudo, quantos não ficaram à deriva depois de calorosas declarações amorosas? Podemos mudar de opinião. Podemos conhecer amores ainda mais amáveis. Enfim, o comportamento sentimental dos humanos é mesmo imprevisível. Na perspectiva do sentido da vida e do amor, o pensamento não serve mesmo para muita coisa. Qual a serventia do pensar? É certo que se pensarmos demais, também não viveremos. Ocorre que o pensamento possui – sim – alguma utilidade naquilo que ingerimos e na nossa relação com o espaço. Posso colocar minha vida em risco, dependendo da qualidade e da quantidade daquilo que consumo. Posso não sobreviver se eu perder a noção de altura e de velocidade. Desse modo, alguma informação, nessa perspectiva, é vida. Não posso ficar alienado – também – quanto à política. As relações de poder determinam leis que podem interferir na qualidade do que vou comer, beber, se vou dormir ou se vou viajar de férias. Portanto, não podemos cessar de pensar em tudo na vida. Não podemos reduzir nossas vidas à vídeos e figurinhas imbecis das redes sociais. A alienação só tem mesmo alguma valia para aquilo que não tem resposta. O próprio silêncio não deixa de ser uma defesa para as angústias da falta de sentido na vida. Contudo, mesmo não sabendo de onde viemos e nem para onde vamos, temos nosso cotidiano e precisamos comer, vestir, movimentar e passear. Nesse sentido, não podemos prescindir de pensar. Ao menos para mim, é muito bom estar vivo e consciente. É muito bom poder viajar, ir ao cinema, ao teatro, ouvir uma boa música, encontrar os amigos e ler um bom livro. Ocorre, que nada disso cai do céu. Precisamos garantir as condições para obtermos tudo isso com alguma qualidade e frequência que nos satisfaçam. Para tanto, precisamos pensar. Já não possuímos o sentido maior de viver – sequer sabemos quem nos colocou aqui e os seus motivos. Agora, quanto à qualidade do que se passa em nosso dia a dia, sabemos muito bem quem a determina. Portanto, é muito arriscado alienar-se disso. É fato de que não podemos fazer muita coisa quanto à certeza de que vamos – por exemplo – morrer um dia. Contudo, até isso acontecer, podemos gozar muito da vida. Quanto a esse gozo, sim, precisamos pensar e lutar por ele. Esse é um gozo político. Ele pode ser-nos retirado. Ele pode, sim, ser melhor repartido. Não posso impedir, à não sei quem, de gozar com a minha morte. Contudo, posso impedir muita gente de gozar com a minha vida. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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