POR QUE O BRASIL TEM NOS ANGUSTIADO TANTO?

É impossível dissociar a consciência de que estamos vivos da consciência de que caminhamos para um fim. Uma coisa carrega a outra. Estamos jovens, já a caminho da velhice. Ocorre que do mesmo modo que a existência nos choca com suas angústias, ela nos oferece uma série de possibilidades para nos arranjarmos com isso sem nos abatermos por isso. Em termos psicanalíticos, somos real, simbólico e imaginário. O primeiro é traumatizante, e os outros dois, funcionam como possibilidade de tapear o primeiro. Nesse momento, no Brasil, somos o primeiro. Estamos – quase completamente – paralisados nesse real traumático. Estamos em estado de choque. Atônitos. Catatônicos. Angustiados. Mudos. Depressivos. Melanlancolizados. Não estamos conseguindo fazer operar nosso simbólico e nem nosso imaginário, no sentido de pensar, idealizar ou esboçar qualquer cenário, minimamente sensato, para esse lamaçal ao qual estamos submersos. É desesperador. Parece que pensar, refletir, analisar, questionar, criticar e sonhar, viraram habilidades intelectuais completamente inócuas. O pior escândalo de corrupção não provoca qualquer indignação. Perdemos a referência do sentido da honestidade. Perdemos o contraponto. Resolvemos pelo pior. Parece que virou perfumaria debater ética, moral, política e democracia. Achamos que nossa vida não estaria melhor se, ao menos, aproximássemos a prática dos nossos políticos com o mínimo do que sabemos e sonhamos sobre a boa política. Ciência política, filosofia, e um pouco de utopia, podem, sim, melhorar o nosso café da manhã, nosso almoço e nossa viagem de férias para Guarapari. Esse desgoverno está – sim – fazendo política quando detona com nossos diretos. Ele está politicando para determinado grupo que – muito provavelmente – já está tripudiando da nossa desgraça, comendo caviar e tomando champanhe francesa. Poderíamos ter um governo menos fisiológico, menos utilitário e menos pragmático, por que não? A qualidade do nosso café da manhã e do nosso almoço, está diretamente relacionada com a nossa morbidez em não fazer sobrepor a esse fisiologismo político, a boa política de um país menos desigual para todos. Ainda não é proibido pensar, questionar, criticar analisar e sonhar. Toda ação é sempre precedida por uma ideia ou um ideal. Ao que tudo indica, daqui a pouco, nem com Guarapari poderemos mais sonhar.
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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