O QUE LEVA UMA PESSOA A SE OFERECER PARA CONTAMINAR OU PARA SER CONTAMINADA COM O VÍRUS HIV?

Freud ao criar a psicanálise estava preocupado em como controlar as tendências agressivas do ser humano contra si e contra seus semelhantes. Para tanto, ele inventou duas instâncias psíquicas que seriam responsáveis por esse controle: o ego e o superego. O ego nos diz que machucaremos, adoeceremos ou até morreremos se pularmos de determinada altura, se ingerirmos certas substâncias ou se dirigirmos muito acima da velocidade permitida. O ego nos diz da realidade física. O superego, nos diz da realidade moral. Seremos tomados por loucos se contrariarmos o apreço que as pessoas que nos rodeiam nutrem por nós. Ego e superego são vozes, pensamentos ou reflexões, sempre a serviço da vida. O que leva uma pessoa a se oferecer para contaminar ou para ser contaminada com o vírus HIV? O ego e o superego dessas pessoas evaporou? Não podemos dizer isso. Mesmo porque, isto vem acontecendo com muito mais frequência que imaginamos. Precisamos encontrar algum sentido de vida no comportamento dessas pessoas – até para aventarmos alguma possibilidade de diálogo com elas. Não se trata de sair por aí afirmando que estamos na era do vazio, e que temos que trazer de volta nossos valores perdidos. Não podemos pensar que certos conceitos centenários ainda podem ser tomados – hoje – ao pé da letra. Temos que perguntar: o que de vida ainda é possível encontrar em uma pessoa que procura por outra para contaminar ou para ser contaminada com o vírus HIV? Tem que ter alguma vida aí – se desistirmos, é toda uma geração que estará perdida. Não estamos conseguindo impedir que as pessoas ajam como quiserem. Contudo, não podemos – simplesmente -,pensar que estão erradas, e fraquejarmos de escutar o que têm a dizer, ainda que não seja por suas falas, mas por seus corpos, gestos e atuações. Não podemos concordar que alguém se faça mal ou se mate. Também, não podemos achar que o modelo de vida que escolhemos, é o único possível, e precisa perpetuar nas gerações seguintes a qualquer custo. Não é hora de nos fecharmos em nossos narcisismos. É o momento de aproximarmos mais do outro – por pior que o julguemos – e tentar encontrar nele algum sinal de vida. Por pior que ele esteja, temos que nos perguntar o que o mantém vivo. O que o mantém vivo – mesmo sendo o mínimo do mínimo – é o que ainda o enlaça com algum valor físico ou moral de vida. Portanto, ainda há alguma esperança. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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