APESAR DE TUDO, JAMAIS PODEREMOS DEIXAR DE GOZAR A VIDA …

Sempre sobra algum gozo. É nas sobras do pior que podemos ser nós mesmos. Só não somos engolidos porque este pior sempre deixa para trás – e nas suas bordas – algum gozo para fazermos o que quisermos. É por isso que o escravo não enlouquece. Há o que nos devasta. Uma hora teremos que nos render. É a mãe crocodilo que devora o filho. É a namorada que vigia o passo a passo do namorado. Enfim, é o que nos impede de ser quem somos. Contudo, para a nossa saúde mental, precisamos ter a sensação de que podemos ser quem somos – ainda que em pequenos intervalos. Precisamos ter ao menos a impressão de que não estamos sendo totalmente devorados. Todo depressivo é devorado pelo medo da morte. Certos fantasmas consomem o cotidiano de quem sofre de síndrome do pânico. Toda a sujeira está na mania incontrolável de limpeza do obsessivo compulsivo. O gozo que sobra é a garantia da nossa liberdade. Não há quem não esteja sendo devastado. Estamos envelhecendo. Morreremos. Não controlamos os outros. Não temos poder sobre as mazelas do mundo. Contudo, para a nossa sorte, este pior nunca é absoluto – ao menos enquanto estamos vivos. Ele pode ser rasurado, cerzido e perfurado. Devemos reduzir, ao máximo, o tamanho da sua bocarra. Como? Com qualquer coisa que não nos escravize nele. O verdadeiro sentido da vida – talvez – esteja na capacidade de cada um criar espaços reservados de si – com o intuito de gozar sem nunca se deixar paralisar por isso que nunca controlaremos totalmente.

Evaristo Magalhaes – Psicanálise

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