POR QUE CERTAS PESSOAS NÃO SUPORTAM AS OUTRAS LIVRES?

Foram séculos de religiões, moralidades, filosofias e psicologias, ditando e adestrando os comportamentos. As pessoas sempre foram pensadas tendo como base uma figura qualquer, imaginária ou imposta por força da educação ou da lei. Nesse contexto, quantos não foram, e ainda são, tratados como loucos? Quantos não foram, e ainda são, assassinados? Por que certas pessoas não suportam as outras livres? Por que certas pessoas temem tanto a capacidade de cada um de inventar seu próprio modo de ser no mundo? O que é ser normal? É falar? Será? Quem fala é normal? A linguagem é um perigo. Porque adentramos na língua, tomamos ciência da nossa mortalidade. Sofremos por amor porque nos tornamos falantes: achamos possuidores da medida do amor. Quantos não enlouquecem por tudo isso? Hoje, a palavra não é mais o único modo de se fazer existir. Quantos não estão agarrados a uma letra e sobrevivem muito bem com ela? Quantos não estão, socialmente felizes, agarrados apenas a uma cifra do sexo, das compras, das comidas e das substâncias sintéticas? Ninguém tem que ser mais desse ou daquele jeito. Quem quer o outro desse ou daquele jeito, no fundo, o quer mais por uma demanda própria do que por respeito à sua liberdade. Respeitar o direito do outro de ser o que quiser, inclui respeitá-lo em seu direito de não querer estar conosco. Hoje, sabemos muito bem, que o isolamento não constitui mais uma psicopatologia. Conheço pessoas com pouquíssimo laço social, e estabilizadas com suas coisas, ideias e sonhos, que não incluem o jeito de ser de ninguém. Quem quer o outro falante, deveria é repensar suas carências. Uma pessoa que não suporta a liberdade, em geral, não suporta é a solidão que a diferença do outro representa para ela. É fato que a homossexualidade aumentaria a solidão dos homofóbicos. Não há dúvida de que o empoderamento feminino aumentaria a solidão dos misóginos. Impossível não pensar o componente sintomático dos racistas. As pessoas podem ser com ou sem as outras. As pessoas podem ser sem ter que ser como as queremos para nós. Posso ser com as pessoas, sendo a partir do que elas são. Posso ser compreendendo e respeitando no outro a forma como ele quer se comunicar comigo. As pessoas podem falar comigo de infinitos modos. Podemos nos comunicar por gestos, objetos e silêncios. Só ficamos incomunicáveis quando o nosso modo de viver coloca em risco a nossa qualidade de vida. 
Evaristo Magalhães – Psicanalista

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